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30/11/2012 - 20h30

Leia trecho de 'Um Lugar na Janela', de Martha Medeiros

da Livraria da Folha

"Um Lugar na Janela" traz lembranças de viagem e experiências de diversas épocas da cronista Martha Medeiros. A jornalista Martha Medeiros também é autora de "Feliz por Nada" "Doidas e Santas", "Topless", "Divã", entre outros.

Abaixo, leia um trecho de "Um Lugar na Janela".

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PRÉ-EMBARQUE

Divulgação
No livro, a cronista Martha Medeiros abre espaço para a viajante
No livro, a cronista Martha Medeiros abre espaço para a viajante

Tive um blog, mas acho que não durou nem um ano. Simplesmente não sabia o que publicar. Já é uma façanha ter assunto para preencher as colunas de jornal, o que mais sobraria para postar num blog? Eu o usava principalmente como agenda, ou seja, comunicava aos meus leitores sobre os eventos de que participaria. Mas não participo de tantos assim - hoje em dia, então, de quase nenhum. Era uma angústia. Até que foi noticiado na imprensa que o Rock in Rio voltaria a acontecer em setembro de 2011. Estava dada a largada para as especulações sobre que bandas tocariam, como seria organizado o evento e tudo mais. Moto-contínuo, lembrei do Rock in Rio de 1985, o primeiro de todos - eu fui. E resolvi contar essa breve passagem da minha vida no blog, na falta de um tema mais palpitante. Para minha surpresa, o post bateu recorde de leitura. E era um textinho de nada, apenas um registro rápido de uma viagem feita quando eu tinha 23 anos, com um namorado que preferia jazz ao rock, mas que topou colocar seu maverick na estrada com um trailer alugado a reboque - sério. Percorremos as praias mais incríveis do Brasil, até que estacionamos aquelas duas peças de museu num camping em Jacarepaguá e passamos a curtir dias de chuva, lama e som, ao melhor estilo Woodstock. Entre tantos shows inesquecíveis, tivemos o privilégio de cantar a capella "Love of My Life" regidos por Freddie Mercury, do Queen. De arrepiar. Parecia que estávamos no imenso átrio de uma igreja. Até hoje essa imagem circula nos "vale a pena ver de novo" como o momento clássico do festival.

Empolgada pela acolhedora repercussão desse registro, postei no blog as lembranças de umas férias longínquas que tirei em Bombinhas, hoje uma das praias mais badaladas de Santa Catarina, mas que, em 1981, quando lá estive pela primeira vez com uma turma de amigos, era um local ermo à beira-mar, com difícil acesso e zero infraestrutura, havia apenas umas poucas casinhas de pescadores. Para espanto da garotada de hoje, sobrevivia-se sem celular, Ipod, Ipad, Iphone, tablet e laptop - nem televisão o casebre que alugamos possuía. Éramos cinco mulheres e cinco homens, entre 18 e 19 anos, e ninguém namorava ninguém. O clima era o do seriado Friends, versão praiana. Com uma pitada de Robinson Crusoé.

Mais uma vez o pessoal do blog deu sua aprovação. Eu havia encontrado um mote. Mais adiante, postei em capítulos a primeira viagem que fiz para o exterior (na verdade, já conhecia Montevidéu e Buenos Aires, mas para nós, gaúchos, essas capitais são praticamente extensões do pampa). Mochilei sozinha pela Europa por dois meses e publiquei detalhes dessa viagem que inaugurou em mim um novo olhar sobre o mundo. Os relatos também agradaram, talvez porque estivesse evidente o meu entusiasmo ao relembrar tudo o que havia acontecido naquela minha primeira aventura fora de casa. Enquanto escrevia, parecia que eu estava assistindo a um filme. Enxergava a mim mesma com 20 e poucos anos, lembrava a roupa que estava usando, os cheiros que havia
sentido - as sensações voltavam como se eu estivesse sob uma espécie de hipnose branda. Tomei uma resolução: fim de linha para o blog. Vou andarilhar por aí em outro veículo. Um veículo impresso.

Poderia dizer que foi assim que este livro começou a existir, e não estaria mentindo, mas para ser mais exata, ele nasceu em 20 de agosto de 1961, às 14 horas, no Hospital Beneficência Portuguesa, de Porto Alegre. Viajar sempre esteve no meu DNA.

Atravessar fronteiras era um desejo meu desde menina, incluindo as fronteiras mentais, não apenas as geográficas. Conhecer, descobrir, avançar, aprender: verbos que de certa forma me definem, todos relacionados com o exercício da liberdade. Tive uma infância alegre e saudável, mas, pequena ainda, já ensaiava a resposta que daria quando me perguntassem o que queria ser quando crescesse: adulta. E que fosse logo, de uma vez. Diziam que ser criança era divertido, mas ser gente grande me parecia muito mais - e acredito nisso até hoje. Não partilho da nostalgia romântica que a maioria das pessoas cultiva por seus primeiros anos. Não por acaso, os melhores momentos daquela garota que fui estão relacionados com as férias de verão, as temporadas na praia, os passeios organizados pelo colégio. A possibilidade de viajar sempre me pareceu mais atrativa do que qualquer pracinha.

Eu queria ir. Para onde, não importava. Tinha pânico de criar raiz.

A liberdade é uma ilusão, eu sei. Ninguém é inteiramente livre, a não ser que não possua vínculos. Como qualquer pessoa saudável, não abro mão de laços afetivos, a vida seria muito árida sem amor. Desertos são fascinantes, mas não os emocionais, então tenho uma relação de profundo apego à minha família, aos meus amigos e ao meu coração, que de tempos em tempos bate forte por alguém, e essa turma estimula meu crescimento, mas para crescer juntos é preciso facilitar o encontro, o que me faz ter um endereço fixo. Já vínculos profissionais não me prendem. Depois que me tornei autônoma, eles se expandiram barbaramente. Mesmo ainda não fazendo uso dessa vantagem, é um alívio saber que poderia realizar meu trabalho em qualquer canto do planeta, bastando para isso um notebook. Qualquer canto. Até no meio do mato, até dentro de um barco (se eu gostasse de mato e de barcos). Bastaria uma rede wi-fi.

Inúmeros motivos justificam essa minha gamação por estar na estrada. Um deles é que viajar nos faz reagir conforme a demanda do momento, que é sempre imprevisível. Comer aranhas fritas, fazer confidências a um homeless, assistir às luzes de uma aurora boreal, colocar uma cobra em torno do pescoço, percorrer vilarejos de bicicleta, dormir sobre a grama de um parque, ir a uma festa promovida por hare krishnas, casar de sarongue numa ilha da Polinésia.

Sair de casa é a oportunidade de sermos estrangeiros não só aos olhos dos nativos de outro país, mas estrangeiros num sentido mais amplo. Pense: o ambiente doméstico nos mantém amarrados a um procedimento mecânico. Os móveis da nossa casa estão sempre no mesmo lugar. Os copos, na mesma prateleira da cozinha. Temos nosso lado preferido na cama. "Todo dia ela faz tudo sempre igual", diz a canção de Chico Buarque, "Cotidiano". Esse condicionamento não estimula mudanças. Por isso, entre outros benefícios, viajar é uma maneira de nos espalharmos, de rompermos com nossas divisórias internas e aniquilarmos medos e tabus. Viajando é que descobrimos nossa coragem e atrevimento, nosso instinto de sobrevivência e nossa capacidade de respeitar novos códigos de conduta. Viajar minimiza preconceitos. Viajantes não têm partido político, classe social, time de futebol, firma reconhecida em cartório, senhas decoradas na cabeça. Reciclam-se a cada manhã, quando acordam - e acordam, que benção, sem a tirania do despertador.

Não vivi nem metade das experiências que citei aqui, os exemplos são mera ilustração. Nunca comi aranha frita. Não tive coragem de colocar uma cobra em torno do pescoço quando um marroquino me propôs a brincadeira. Nunca fui a uma festa organizada por hare krishnas. E o céu verde-elétrico de uma aurora boreal só verei, talvez, quando for ao Alasca, destino que está em 46º lugar entre minhas prioridades.

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"Um Lugar na Janela"
Autor: Martha Medeiros
Editora: L&PM Editores
Páginas: 192
Quanto: R$ 26,00 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.

Texto baseado em informações fornecidas pela editora/distribuidora da obra.

 
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