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14/08/2012 - 16h00

Países não sabem lidar com o tráfico humano e sexual, diz autor

Fernanda Correia
da Livraria da Folha

Quando pensamos em escravidão rapidamente nos remetemos às aulas de história e a uma questão abolida há muito tempo. Entretanto, hoje em dia há mais escravos do que naquele período. Muitas crianças e jovens são levados pelo mundo para abastecer um mercado de comércio de sexo.

O tráfico humano é um problema global que chamou atenção do advogado americano Corban Addison, que procurava um tema para sua primeira incursão na literatura. "Cruzando o Caminho do Sol" é o resultado de muita pesquisa e uma longa viagem à Índia.

A trama acompanha duas irmãs, órfãs devido ao tsunami ocorrido em sua região, que se vêem envolvidas em uma rede internacional de tráfico de crianças para exploração sexual. Suas experiências são acompanhadas por um advogado americano, uma espécie de reflexo do próprio autor, que vai à Índia para dar um novo rumo à sua vida e encontra uma causa humanitária pela qual lutar.

Divulgação
O escritor Corban Addison
O escritor Corban Addison

O autor esteve na Bienal de São Paulo no último final de semana autografando o livro, lançado este ano pela Novo Conceito, e conversou exclusivamente com a Livraria da Folha.

Leia abaixo a íntegra da entrevista:

*

Livraria da Folha: De onde veio a ideia de ter tráfico humano como tema de seu primeiro romance?
Corban Addison: Sou um advogado por formação e entrei na escola de advocacia porque me importo com justiça. E eu viajo muito, então eu me importo com o mundo. Tenho me interessado pelas questões dos direitos humanos, em diversas formas, por muito tempo. Mas esta questão, para mim, é a mais, senão a mais, irresistível de todos os tempos. Aprendemos nas aulas de história que a escravidão acabou há muito tempo. Nos EUA, ela foi encerrada no século 19 pela constituição. Mas na realidade, temos mais escravos hoje atravessando o atlântico do que em 400 anos, quase duas vezes mais. Então quando eu me deparei com isso, foi uma espécie de mudança de mundo para mim. Levou um tempo para eu processar isso, que eu deveria fazer parte de um novo tipo de abolição. Eu vinha tentando começar a escrever fazia algum tempo, publicando artigos, mas muitas pessoas me rejeitavam. Então minha esposa deu a ideia para o tema e eu o peguei. Tem sido uma grande alegria ver essa ótima recepção.

Livraria: Foi seu primeiro contato com o assunto?
Corban: Quando escolhi o tema, não tinha nenhum tipo de experiência com o assunto, realmente nenhum. Apenas sabia que era um problema, que deveríamos nos preocupar, mas não sabia o que podia fazer sobre isso. Mas claro que quando eu decidi escrever o livro, tive que me aprofundar. Fiz uma extensa pesquisa que me permitiu conhecer algumas pessoas extraordinárias, verdadeiros heróis, no processo.

Livraria: O quanto você pesquisou para o livro?
Corban: Antes de viajar, busquei uma literatura profunda. Li tudo o que consegui colocar as mãos, eu estava lendo documentos legais, estudos acadêmicos, reportagens, documentários. Ainda há muita ignorância e confusão sobre o tema no mundo todo. Então eu li sobre a Índia, sobre sua cultura, como ela funciona, romances atuais e muitas conversas com meus amigos indianos. Com isso eu tinha o tráfico de um lado e a Índia de outro, e quando cheguei lá tinha como manter conversas com indianos sobre seu próprio país. Quero dizer, a pesquisa foi essencial para o trabalho. Com isso eu pude fazer boas perguntas e conseguir boas informações lá.

Livraria: Qual foi sua primeira impressão da Índia?
Corban: A índia é um lugar chocante. De um lado você tem belas paisagens e, obviamente, de outro todos esses problemas humanitários, característicos de algumas cidades, mas relativos à toda Índia. Minha impressão foi de um país de contrastes. Você pode ir à Marlborough Hill, como eu descrevi no livro que é lindo de observar, um lugar pacífico, repleto de árvores e então 5 milhas depois você tem um distrito com o maior número de escravidão infantil em Madripor. É um país chocantemente contrastante.

Livraria: É uma prática ilegal, logo escondida. Como você conseguiu obter informações sobre tráfico humano?
Corban: Felizmente, eu decidi escrever o livro em um período em que pude fazer muita pesquisa adicional, então estava capacitado de conseguir informações. Muitos jornalistas e autores de não ficção escreveram sobre isso. Quando estive na Índia pude contar com a ajuda de investigadores, que passaram um tempo comigo em suas rotinas. Fiz amigos que puderam me mostrar o que eu queria ver com os meus próprios olhos. Pude ir a esses lugares como convidado, indo ao fundo disso. E meu guia na Índia estava habilitado a me levar lá. O que eu descrevi no livro é muito da minha experiência.

Divulgação
Ficção é baseada no que o autor presenciou em pesquisa da Índia
Ficção é baseada no que o autor presenciou em pesquisa da Índia

Livraria: Qual a situação encontrada quando chegou à Índia?
Corban: Quando viajei por mim mesmo, tinha contatos em Mumbai, com os afetados pelo tsunami na costa leste, então percebi que era ali que o livro deveria começar. Voei para lá e encontrei pessoas que sobreviveram ao tsunami. Falei com uma garota que foi carregada por ele. Minha experiência na Índia foi como nenhuma outra. Como eu disse, é um país de contradições, mas as pessoas são muito receptivas e eu amo a comida. Foi divertido estar lá e eu atravessei o país de trem como as garotas do livro fizeram e passei três semanas e meia com um grupo em Mumbai que trabalha com investigações e conversei com garotas que estavam em casas de recuperação.

Livraria: O quão importante foi para você ir até lá?
Corban: A viagem foi essencial. Minha filosofia é a de que devo escrever livros que eduquem, assim como entretenham. Para educar eu tenho que me tornar um especialista sobre o que estou escrevendo. Também tenho que ser um bom contador de histórias. Preciso conhecer pessoas, sentir os cheiros e tentar transportar isso para o papel. Eu queria escrever um livro no qual alguém que conhece a Índia pudesse identificar o cenário.

Livraria: Você disse que é importante que seus livros eduquem. Qual foi a resposta obtida após a publicação?
Corban: Tem sido incrível. Honestamente, a resposta dos leitores tem sido tão animadora. Eu acho que as duas coisas mais animadoras são que a maioria das pessoas que leram a história e amaram foram tocadas por ela. Muitas pessoas tiveram contato com o problema e se perguntaram "o que eu posso fazer?", "como eu posso ajudar?", "o que posso doar?", "que organizações devo ajudar?". Veja, minha filha tinha 16 anos e ficou interessada, todos nós ficamos envolvidos. A outra coisa é ver a resposta vinda de todas as partes do mundo. Austrália, África do Sul, Índia, Canadá, Brasil, Europa. A Índia amou o livro. Ver pessoas de diferentes línguas, diferentes culturas, preocupadas com o tema.

Livraria: Você tem alguma ideia da situação do Brasil quando se trata de tráfico humano?
Corban: Honestamente, eu não sei se é um problema local aqui. Eu sei que há, atualmente, um problema de tráfico de mulheres. Há um grande tráfico entre América Latina e Europa. É o mesmo no Brasil, nos EUA, na Índia. Há muito tráfico interno também. Garotas americanas são levadas internamente nos EUA para diferentes lugares. A realidade é que o tráfico sexual existe em todo lugar. Jovens mulheres são sequestradas e levadas porque elas são pobres, jovens, vulneráveis, estão viajando, estão procurando por amor ou por um trabalho na cidade. Traficantes são predadores e procuram crianças vulneráveis, assim como adultos. Não importa a idade. Você tem que olhar para a vítima, para o traficante, para o consumidor que paga por sexo para lidar com o problema, mas muitos países não sabem como fazê-lo, e isso inclui os Estados Unidos.

Livraria: Depois de escrever o livro você se filiou a alguma ONG?
Corban: Formalmente, não. Mas fiz tantos contatos com pessoas que lutam contra o tráfico humano nos EUA, e algumas em outros lugares. Tento financiar alguns projetos e utilizar as plataformas que estão à minha disposição para falar sobre isso, divulgar alguma delas. Muitas pessoas me procuram para saber o que fazer e isso me dá a oportunidade de indicá-los em muitas direções. Em meu website há muitas delas e tenho que certeza de que aqui no Brasil há muitas mais.

Livraria: Por que escolheu escrever uma ficção sobre um problema real?
Corban: Meu objetivo era atingir o maior número de pessoas possível. E, pessoalmente, queria uma história que tivesse potencial para ser única. Não é melhor que não-ficção, mas eu acho que muito mais pessoas ficam interessadas. Francamente, se você tem uma boa história, as pessoas irão lê-la, mesmo que elas não se importem com o tema. E no final elas podem começar a se importar. Eu sou um contador de histórias.

Livraria: Você já tem um próximo livro? Qual o tema desta vez?
Corban: Sim, o próximo livro relacionará os EUA e a África do Sul, mais uma vez direitos humanos como pano de fundo. Falará sobre violência contra crianças, HIV e contradições econômicas. Todos estes temas juntos em livro, com mais cenas corporativas. Dessa vez será uma jovem advogada como protagonista, cujo pai está concorrendo à presidência e ela se envolve com um caso no qual ela quer fazer justiça a uma pequena dançarina na Zâmbia.

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Cruzando o Caminho do Sol
Autor: Corban Addison
Editora: Novo Conceito
Páginas: 448
Quanto: R$ 23,90 (preço promocional*)
Onde comprar: Pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.

 
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