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04/06/2015 - 15h30

Campbell examina a mitologia universal presente em 'Star Wars'

da Livraria da Folha

Divulgação
Protagonistas dos mitos representam as várias fases de uma mesma história
Mitos apresentam as várias faces de uma mesma história

O trabalho acadêmico de Joseph Campbell (1904-87), norte-americano especialista em mitologia e religião comparada, serviu de inspiração para George Lucas criar "Guerra nas Estrelas".

Lucas ficou entusiasmado com a obra de Campbell, que traça paralelos e apresenta semelhanças estruturais entre culturas diferentes, dos lamas tibetanos às sociedades medievais da Europa.

"O Herói de Mil Faces", livro mais famoso e influente de Campbell, mostra que religiões, mitologias, contos de fada e folclore universal representam protagonistas e histórias que se repetem.

"O Poder do Mito" reproduz uma entrevista de Campbell ao jornalista Bill Moyers. Curiosamente, o homem cuja pesquisa inspirou Lucas fala sobre o mito no universo de "Star Wars".

O resultado é um debate sobre pontos em comum entre civilizações, apontando os motivos pelos quais alguns temas são recorrentes na mitologia e na religiosidade dos povos. Abaixo, leia um trecho da entrevista.

*

MOYERS: Isso é que me intriga. Somos felizes quando os deuses e as musas nos dão atenção, e a cada geração aparece sempre alguém servindo de fonte inspiradora para a jornada que cada um de nós empreende. No seu tempo, era Joyce, Thomas Mann. No nosso, muitas vezes parece que é o cinema. Os filmes criam mitos heróicos? Você acha, por exemplo, que um filme como Guerra nas estrelas corresponde a algo daquela necessidade de um modelo de herói?

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O Poder do Mito 27a. edição, 2009 Joseph Campbell
Mitos influenciam profundamente a cultura e valores das sociedades

CAMPBELL: Ouvi jovenzinhos usando alguns dos termos de George Lucas: "a Força" e "o lado negro". Deve estar batendo com alguma coisa. E uma boa maneira de ensinar, eu diria.

MOYERS: Penso que isso em parte explica o sucesso de Guerra nas estrelas. Não foi apenas a qualidade da produção que fez dele um filme tão atraente, é, também, que ele chegou num momento em que as pessoas tinham necessidade de ver, em imagens assimiláveis, o embate entre o bem e o mal. Todos precisavam que o idealismo lhes fosse lembrado, todos queriam ver uma história baseada em desprendimento, não em egoísmo.

CAMPBELL: O fato de o poder do mal não estar identificado com nenhuma nação específica, nesta terra, significa que você tem aí um poder abstrato, que representa um princípio, não uma situação histórica específica. A história do filme tem a ver com uma operação de princípios, não com esta nação contra aquela. As máscaras de monstros, usadas pelos atores de Guerra nas estrelas, representam a verdadeira força monstruosa, no mundo moderno. Quando a máscara de Darth Vader é retirada, você vê um rosto informe, de alguém que não se desenvolveu como indivíduo humano. O que se vê é uma espécie de fase indiferenciada, estranha e digna de pena.

MOYERS: Qual é o significado disso?

CAMPBELL: Darth Vader não desenvolveu a própria humanidade. É um robô. É um burocrata, vive não nos seus próprios termos, mas nos termos de um sistema imposto. Este é o perigo que hoje enfrentamos, como ameaça às nossas vidas. O sistema vai conseguir achatá-lo e negar a sua própria humanidade, ou você conseguirá utilizar se dele para atingir propósitos humanos? Como se relacionar com o sistema de modo a não o ficar servindo compulsivamente? Não adianta tentar mudá-lo em função das suas concepções ou das minhas. O momento histórico subjacente a ele é grandioso demais para que algo realmente significativo resulte desse tipo de ação. O que é preciso é aprender a viver no tempo que nos coube viver, como verdadeiros seres humanos. Isso é o que vale, e pode ser feito.

MOYERS: Como?

CAMPBELL: Mantendo se fiel aos seus próprios ideais, como Luke Skywalker, rejeitando as exigências impessoais com que o sistema o pressiona.

MOYERS: Quando levei meus dois filhos para ver "Guerra nas Estrelas", eles reagiram com entusiasmo, como toda a platéia, quando, no clímax da última luta, a voz de Ben Kenobi diz a Skywalker: "Desligue o seu computador, desligue a máquina e seja você mesmo, siga seus sentimentos, confie em seus sentimentos". Ao fazê-lo, é bem sucedido, e a platéia prorrompe em aplausos.

CAMPBELL: Bem, como você vê, o filme comunica. É concebido numa linguagem que fala aos jovens, e isso é o que conta. Ele pergunta: Você será uma pessoa de coração, verdadeiramente humana - porque é daí que a vida provém, do coração, ou será aquilo que o chamado "poder int encional" parece exigir de você? Ao dizer: "Que a Força esteja com você", Ben Kenobi está falando do poder e da energia da vida, não de intenções políticas programadas.

MOYERS: Fiquei intrigado com a definição da Força. Ben Kenobi diz: "A Força é um campo de energia criado por todas as coisas vivas. Ela nos circunda, nos penetra, mantém a galáxia unida". E li descrições semelhantes em O herói de mil faces, falando do umbigo do mundo, do lugar sagrado, do poder que se irradia no momento da criação.

CAMPBELL: Sim, é claro, a Força brota de dentro. Mas a força do Império se baseia na intenção de conquistar e comandar. Guerra nas estrelas não é apenas uma história de moralidade, o filme tem a ver com os poderes da vida, conforme sejam plenamente realizados ou cerceados e suprimidos pela ação do homem.

MOYERS: Na primeira vez que vi Guerra nas estrelas, pensei: "Esta é uma velha história numa roupagem nova". A história do jovem chamado à aventura, o herói que parte em expedição para enfrentar tormentos e provações, e retorna, após a vitória, com uma bênção para a comunidade...

CAMPBELL: Certamente Lucas se serviu de padrões mitológicos. O velho que funciona como conselheiro me faz pensar no mestre de espada, japonês. Conheci alguns desses mestres, e Ben Kenobi tem um pouco deles.

MOYERS: Qual é o papel do mestre de espada?

CAMPBELL: É um especialista absoluto na arte da espada. A maneira como se cultivam as artes marciais no Oriente ultrapassa tudo o que pude ver nas academias e ginásios americanos similares. No Oriente, as técnicas psicológicas são tão desenvolvidas quanto as técnicas físicas, e são indissociáveis. Aquele personagem de Guerra nas estrelas, Ben Kenobi, tem essa característica.

MOYERS: Existe algo de mitológico, também, no fato de o herói ser ajudado por um estranho, que aparece e lhe dá um instrumento...

CAMPBELL: Ele lhe dá não só um instrumento físico, mas um compromisso psicológico e um centro psicológico. O compromisso ultrapassa o mero sistema de intenções. Você e o acontecimento se tornam uma coisa só.

MOYERS: Minha cena favorita é quando eles estão no compactador de lixo e as paredes começam a se fechar. Eu pensei: "Isso é como a barriga da baleia que engoliu Jonas".

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CAMPBELL: Era lá que eles estavam, na barriga da baleia.

MOYERS: Qual é o significado da barriga?

CAMPBELL: A barriga é o lugar escuro onde acontece a digestão e uma nova energia é criada. A história de Jonas na barriga da baleia é um exemplo de tema mítico praticamente universal: o herói é engolido por um peixe e volta, depois, transformado.

MOYERS: Por que o herói precisa fazer isso?

CAMPBELL: É uma descida às trevas. Psicologicamente, a baleia representa o poder de vida contido no inconsciente. Metaforicamente, a água é o inconsciente, e a criatura na água é a vida ou energia do inconsciente, que dominou a personalidade consciente e precisa ser desempossada, superada e controlada.

No primeiro estágio dessa espécie de aventura, o herói abandona o ambiente familiar, sobre o qual tem algum controle, e chega a um limiar, a margem de um lago, ou do mar, digamos, onde um monstro do abismo vem ao seu encontro. Aí há duas possibilidades. Numa história do tipo daquela de Jonas, o herói é engolido e levado ao abismo, para depois ressuscitar; é uma variante do tema da morte e ressurreição. A personalidade consciente entra em contato com uma carga de energia inconsciente que ela não é capaz de controlar, precisando então passar por toda uma série de provações e revelações de uma jornada de terror no mar noturno, enquanto aprende a lidar com esse poder sombrio, para finalmente emergir, rumo a uma nova vida.

Outra possibilidade é o herói, ao defrontar se com o poder das trevas, vencê-lo e matá-lo, como Siegfried e São Jorge fizeram quando enfrentaram o dragão. Mas, como Siegfried aprendeu, é preciso provar o sangue do dragão para incorporar alguma coisa do seu poder. Quando matou o dragão e provou do seu sangue, Siegfried ouviu a música da natureza. Ele transcendeu sua humanidade e uniu se novamente aos poderes da natureza, que são os poderes da vida, dos quais somos afastados por nossas mentes.

Você vê, a consciência pensa que está gerindo a coisa. Mas é um órgão secundário no ser humano total, e não deve ser colocada em posição de mando. Precisa submeter se e servir à humanidade do corpo. Quando se coloca a si mesma em posição de comando, o resultado é um homem como Darth Vader, em Guerra nas estrelas, o homem que se reduz ao lado consciente das suas intenções.

MOYERS: A figura sombria.

CAMPBELL: Sim, a figura que no Fausto, de Goethe, é representada por Mefistófeles.

MOYERS: Mas alguém poderá dizer: "Bem, isso está ótimo para a imaginação de um George Lucas ou para as teorias de um Joseph Campbell, mas não é o que acontece na minha vida".

CAMPBELL: Errado! Você pode apostar que acontece, sim - e se a pessoa não for capaz de reconhecê-lo, isso poderá transformá-la num Darth Vader. Se o indivíduo insiste num determinado programa e não dá ouvidos ao próprio coração, corre o risco de um colapso esquizofrênico. Tal pessoa colocou-se a si mesma fora do centro, alistou se num programa de vida que não é, em absoluto, aquilo em que o corpo está interessado. O mundo está cheio de pessoas que deixaram de ouvir a si mesmas, ou ouviram apenas os outros, sobre o que deviam fazer, como deviam se comportar e quais os valores segundo os quais deviam viver.

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