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20/08/2011 - 14h00

Obama quer personificar o futuro da América; leia trecho

da Livraria da Folha

Em "O Futuro da América", o historiador inglês Simon Scham tenta revelar aspectos pouco explorados dos personagens que vivenciaram esse momento da história norte-americana. O livro destaca pontos marcantes do país, como a Grande Depressão e a Guerra Civil, para explicar o fervor e a identidade nacional. Schama foca sua história narrativa na disputa entre Hillary Clinton e Barack Obama, na fase das eleições primárias daquele ano.

Leia um trecho do exemplar.

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Divulgação
Historiador inglês conta histórias reais sobre o surgimento de Obama
Historiador inglês conta histórias reais sobre o surgimento de Obama

Ouçam-me, diz Obama, ouçam-me e vocês captarão o futuro da América. No entanto, presto atenção e o que escuto é o passado americano -- não um peso morto atrelado ao slogan "mudança", apenas o chão firme sob o dirigível de alto voo de sua retórica. O futuro da América é todo ele uma visão, numinoso, informe, zonzo de expectativa. Já o passado é um bolo fofo de tanta verdade moderadora. No meio está o mercurial Presente, gotas de júbilo resplandecente que escorrem e se dispersam, resistindo a definições prosaicas.

Obama quer personificar todos esses tempos. Por isso, conduz seus ouvintes à próxima terra prometida, através de Selma, Alabama, da década de 1960, e de Gettysburg, da década de 1860. Seu esforço para reativar um sentido de comunidade nacional insinua outro Grande Despertar (*), mas ele sabe tudo sobre o primeiro reavivamento espiritual, no século XVII, e sobre o segundo, no XIX; reviravoltas da alma que mudaram o país. Esse apego ao passado não é somente exibicionismo cultural, o caminho certo para perder votos nos Estados Unidos. É, antes, a nota ornamental no "acorde místico da memória" de Lincoln; a sonoridade sem a qual os apelos destinados a invocar o espírito americano em tempos difíceis não passam de frases de efeito.

Ouçam-me, diz Obama, comprovem o Cícero que existe em mim, meu ritmo calculado, ora legato, ora staccato, este último executado com os olhos apertados, os lábios ligeiramente cerrados entre as pausas deliberadas; a cabeça imóvel e meio virada de lado, como que à espera de sugestões dos ancestrais. Quem você está ouvindo agora? Você ouve meu aval, uma pregação ainda maior, mais profunda: Martin Luther King. Eu sou o fruto do que ele semeou; o galardão de seu sacrifício.

Mas, quando vejo milhões de pessoas se dispondo a votar num afro-americano, num américo-africano, num kansasniano-queniano vindo de Honolulu, da Harvard Law Review e das seções eleitorais de Chicago, lembro-me de uma pessoa bem diferente, que possibilitou a indicação de Obama como candidato. Escuto uma negrona do Delta, filha de pastor, com os olhos arregalados de tanta determinação, a testa vincada de emoção; dona de pulmões evangelizantes, suando em seu vestido estampado no calçadão de Atlantic City. Escuto-a quando ela começa, a voz rouca de tantos hinos entoados em situações de perigo, uma voz que prendia as pessoas como uma chave de braço. "Vai e anuncia do alto da montanha", ela canta, "Sobre os montes e em toooda paaaaarte" (**), e o canto passa sobre os carros de polícia que se aproximam, sobre os vendedores de balas toffee, pelos políticos de cabelo à escovinha, que, com seus paletós de riscado amassados, correm para seu encontro com a história; todo mundo fazendo de conta que ela não está ali, essa mulher constrangedora, impressionante, desajeitada, veemente, de olhos entrecerrados, os cachos molhados colados na testa, balançando-se um pouco enquanto dá tudo que tem. O coral ganha em volume e perde em harmonia, inchado agora com as vozes de estudantes e militantes dos direitos civis, negros e brancos, nem todos abençoados com uma perfeita afinação, enfileirados atrás dela junto da parede do centro de convenções. Os homens das pastas de couro a estarão ouvindo lá dentro? O som parece repercutir no edifício e flutuar sobre o oceano Atlântico, verde e meio manchado... "Que Jesuuuus Cristo nasceu." É dela que me lembro: Fannie Lou Hamer.

* No original, Great Awakening: expressão usada pelos historiadores americanos para designar
as ondas de grande fervor religioso coletivo que marcaram a vida do país. (N. T.)

** Versos de "Tell it on the mountain", canção do gênero spiritual do século xix que ficou famosa ao ser gravada pelo grupo Peter, Paul & Mary em 1963. (N. T.)

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O Futuro da América
Autor: Simon Schama
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 464
Quanto: R$ 51,00 (preço promocional*)
Onde comprar: Pelo telefone 0800-140090 e no site da Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.