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23/03/2011 - 22h32

Livro ensina a identificar portadores de discalculia

da Livraria da Folha

Reprodução
Alex Bellos empreende uma viagem exploratória pelo país da matemática
Alex Bellos empreende uma viagem exploratória pelo país da matemática

A discalculia é uma versão numérica da dislexia. A principal característica do distúrbio é a dificuldade em correlacionar o símbolo de um número com o número de objetos representados pelo símbolo. Porém, estudos com disléxicos são dez vezes mais abundantes.

Alex Bellos aponta que, entre as diversas razões que explicam essa desproporção nas pesquisas, "o tabu social em relação a pessoas ruins em números é muito menor do que para os que leem mal."

Em "Alex no País dos Números", além de explicar curiosidades matemáticas e de narrar aventuras num cassino em Nevada, o autor investiga o jogo de Sudoku e seus inventores, o raciocínio quantitativo de tribos indígenas da Amazônia e alunos que fazem cálculos apenas imaginando o funcionamento de um ábaco.

Bellos estudou matemática e filosofia. Em 1998, tornou-se correspondente do jornal britânico "Guardian" no Rio. Com a experiência no país do futebol, escreveu "Futebol: O Brasil em Campo" (Zahar, 2002).

Publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras, o volume tem lançamento previsto para a segunda semana de abril e está em pré-venda na Livraria da Folha.

Leia, abaixo, um trecho do exemplar que explica como identificar o problema.

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Será que os humanos precisam de palavras para números acima de quatro para ter um entendimento exato deles? Não é nisso que crê o neurocientista Brian Butterworth, professor da Universidade de Londres. Ele acha que o cérebro contém uma capacidade inerente para compreender números exatos, que chamou de "módulo de número exato". Segundo sua interpretação, os humanos apreendem os números exatos de itens em pequenas coleções, e ao acrescentar números um a um a essas coleções podemos entender como se comportam os números maiores. Butterworth vem realizando suas pesquisas no único lugar fora da Amazônia em que existem grupos indígenas quase sem palavras para números: o interior da Austrália.

A comunidade aborígine Warlpiri vive perto de Alice Springs e só tem palavras para um, dois e muitos, enquanto os Anindilyakwa de Groote Eylande, no golfo de Carpentária, só têm palavras para um, dois, três (que às vezes significa quatro) e muitos. Em um experimento com crianças de ambos os grupos, um bloco de madeira era martelado por um bastão até sete vezes, e contadores foram dispostos num tablado. Às vezes o número de pancadas era igual ao número dos contadores, às vezes não. As crianças foram perfeitamente capazes de dizer quando os números conferiam e quando não conferiam. Butterworth argumentou que para obter a resposta certa as crianças estavam produzindo uma representação mental do número exato, que era suficientemente abstrato para representar uma numeração ao mesmo tempo auditiva e visual. Essas crianças não tinham palavras para os números quatro, cinco, seis e sete, mas eram perfeitamente capazes de guardar essas quantidades na cabeça. As palavras podem ser úteis para entender a exatidão, concluiu Butterworth, mas não são necessárias.

Outro ponto importante do trabalho de Butterworth - e de Stanislas Dehaene - é um distúrbio chamado discalculia, ou cegueira para números, que faz com que a pessoa tenha uma noção imperfeita dos números. Ocorre em cerca de 3% a 6% da população. Os que sofrem desse distúrbio não "apreendem" os números da mesma forma que a maioria das pessoas. Por exemplo, qual dos números abaixo é o maior?

65____________________________________________________________________________24

Fácil, o 65. Quase todos nós chegaremos à resposta certa em menos de meio segundo. No entanto, para quem sofre de discalculia pode levar até três segundos. A natureza do distúrbio varia de pessoa para pessoa, mas os portadores do distúrbio em geral têm problemas em correlacionar o símbolo de um número, digamos 5, com o número de objetos representados pelo símbolo. Também têm dificuldade para contar. Ser portador de discalculia não quer dizer que a pessoa não saiba contar, mas os que sofrem desse distúrbio tendem a não ter a intuição básica sobre os números e por isso recorrem a estratégias alternativas para lidar com eles no cotidiano, usando mais os dedos, por exemplo. Os doentes mais graves mal conseguem ver as horas.

Se você aprendeu bem todas as matérias na escola mas nunca conseguiu passar num exame de matemática, é possível que sofra de discalculia. (Mas se você sempre repetiu em matemática, é provável que não esteja lendo este livro.) Considera-se que esse distúrbio seja uma das principais causas da inaptidão para a aritmética. Do ponto de vista social, é urgente que se entenda a discalculia, pois adultos com inépcia aritmética são mais sujeitos ao desemprego e à depressão do que as pessoas normais. Mas pouco se sabe sobre este mal, que pode ser visto como uma versão numérica da dislexia: os sintomas são comparáveis por afetarem mais ou menos a mesma proporção da população e por não influenciarem a inteligência de modo geral. No entanto, sabe-se muito mais sobre dislexia do que sobre a discalculia. Aliás, estima-se que existam dez vezes mais estudos acadêmicos sobre dislexia do que sobre discalculia. Entre as razões que explicam essa desproporção está a existência de muitas outras razões para ir mal em matemática - pelo fato de a matéria ser mal ensinada na escola, ou por ser fácil ficar para trás quando se perdem lições em que são apresentados conceitos cruciais. Também o tabu social em relação a pessoas ruins em números é muito menor do que para os que leem mal.

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"Alex no País dos Números"
Autor: Alex Bellos
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 416
Quanto: R$ 39,60 (preço promocional de lançamento)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

 
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