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25/11/2013 - 17h03

Leia trecho de 'O Bazar Atômico: A Escalada do Pobrerio Nuclear'

da Livraria da Folha

Em "O Bazar Atômico", o repórter e ex-piloto William Langewiesche investiga o submundo do comércio nuclear, como as cidades secretas da antiga União Soviética, palco de investimentos milionários. O livro é o resultado de sua viagem pelos bazares atômicos do mundo.

Dos ataques de Hiroshima e Nagasaki ao fim da Guerra Fria, o autor relata como nações com pouco ou nada a perder podem possuir armas nucleares. Abaixo, leia um trecho.

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1. A vanguarda dos pobres

Divulgação
Uma viagem que mistura burocracia, paranoia, despreparo e humor negro
Mistura de burocracia, paranoia, despreparo e humor negro

Hiroshima foi destruída num piscar de olhos por uma bomba lançada de um avião a hélice B-29 do Corpo de Aviação do Exército dos Estados Unidos, numa manhã de verão, segunda-feira, 6 de agosto de 1945. A bomba não era química, como todas as outras produzidas até então, mas sim atômica, construída para liberar as energias que Einstein descrevera. Era um artefato simples, tubular, que qualquer pessoa poderia hoje construir numa garagem. Volumosa e negra, com cerca de três metros de comprimento, pesava 4400 quilos. Caiu, apontando para baixo, durante 43 segundos, e para alcançar o máximo de efeito nem chegou a tocar o solo. A 580 metros do chão, ela disparou uma massa opaca e cinzenta de urânio altamente enriquecido através de um tubo de aço ao encontro de outra massa do mesmo material refinado, criando assim um combinado de cerca de sessenta quilos de urânio. Proporcionalmente à área da superfície, essa massa era mais do que suficiente para atingir o "estado crítico" e pôr em marcha uma cadeia incontrolável de reações de fissão, durante a qual partículas subatômicas denominadas nêutrons colidem com núcleos de urânio e liberam novos nêutrons, que por sua vez colidem com outros núcleos em um processo rápido de autodestruição. As reações só podiam sustentar-se por um milésimo de segundo e utilizaram integralmente menos de um quilo dos átomos de urânio antes que o calor resultante forçasse a interrupção do processo devido à expansão. O urânio é um dos elementos mais pesados do nosso planeta, quase duas vezes mais pesado do que o chumbo: novecentos gramas dele correspondem a somente três colheres de sopa. Não obstante, a liberação de energia sobre Hiroshima produziu uma força equivalente a 15 mil toneladas (quinze quilotons) de TNT, alcançou temperaturas mais altas do que as existentes no Sol e emitiu impulsos de radiação mortal que viajavam à velocidade da luz. Mais de 150 mil pessoas morreram.

AP
Cogumelo nuclear da bomba atômica em Nagasaki, no Japão
Cogumelo nuclear da bomba atômica em Nagasaki, no Japão

O carrasco foi um piloto comum chamado Paul Tibbets, então com 29 anos e que atualmente vive no estado de Ohio. Ele não concordava com a matança, mas também não se horrorizou com ela: era um técnico de vôo, afastado do morticínio pela altitude e pela velocidade, e protegido por uma cabina pressurizada e aquecida. Naquela manhã o céu estava calmo, sem sinais de inimigos. O B-29 voava a 9500 metros de altitude em ares tranqüilos. Deu uma guinada e subiu quando a bomba se desprendeu e começou a cair. Tibbets manobrou rapidamente a fim de evadir-se e virou a cauda do avião para o local da destruição. Quando a bomba explodiu, já bem atrás e bem abaixo, coloriu o céu com os mais belos tons de azul e cor-de-rosa que o piloto jamais vira. A primeira onda de choque chegou sacudindo a atmosfera e alcançou o avião por trás, causando um forte solavanco, que, segundo o acelerômetro da cabina, chegou a 2,5 g. A sacudida se assemelhava a uma explosão bem próxima de uma bomba antiaérea, ou àquela que ocorre quando um jipe passa por um buraco na estrada. Sobreveio, então, uma segunda onda de choque: um reflexo proveniente do solo, como um eco da primeira e por isso menos intenso. Tibbets sentiu o gosto da saliva na boca. Viu a nuvem que subia sobre Hiroshima e, como seria de esperar, não sentiu pena.

Mas Hiroshima não lhe fez bem. Embora tenha chegado ao posto de brigadeiro na Força Aérea dos Estados Unidos, antes de se tornar presidente de uma companhia de jatos executivos, foi perseguido pelo estigma de ter sido o responsável por tirar a vida de tantas pessoas e passou a mostrar-se irritado ante qualquer insinuação de que cometera um mal. Não seria realista, talvez nem mesmo justo, esperar que ele se arrependesse, porém, com o passar do tempo, foi isso que as elites americanas fizeram - depois de ter confiado a ele o lançamento da bomba. Já aposentado, Tibbets começou a viajar pelo país fazendo palestras para aficionados por guerra e outros reacionários, além de aparecer em eventos aeronáuticos, suponho que com fins de relações públicas. Na década de 1990, envolveu-se furiosamente em uma controvérsia menor a respeito da exibição da parte frontal do seu avião, o Enola Gay, pelo Smithsonian Institution, e acusou as elites de manipularem a opinião pública em favor dos próprios interesses. Considerava-se um piloto e um soldado, com o que queria dizer que era um homem simples. Vendia lembranças pela internet, inclusive um modelo da bomba atômica, por quinhentos dólares, na escala de um por doze, muito bem executado e montado sobre uma base de mogno sólido, acompanhado de uma placa autografada. Para os menos endinheirados, oferecia uma folha com 36 selos comemorativos que mostravam um B-29 subindo acima de um cogumelo atômico, com excelentes detalhes da fumaça ebuliente que saía do solo. Tibbets pode ser cabeça-dura, mas pelo menos foi coerente. Quando o escritor Studs Terkel o entrevistou em 2002, onze meses depois dos ataques do 11 de Setembro, ele não lamentou a tristeza da guerra nem refletiu sobre as dificuldades de enfrentar um inimigo que não representa um Estado e defendeu com franqueza uma resposta nuclear. Contra quem: Cabul, Cairo, Meca? E ele disse: "Nós também vamos matar pessoas inocentes, mas nunca lutamos nenhuma guerra em nenhum lugar do mundo sem que eles [queria dizer nós] matassem pessoas inocentes. Se pelo menos os jornais parassem com essas baboseiras do tipo 'Vocês mataram tantos civis!'. Falta de sorte deles, de estarem lá na hora".

Tibbets falava por experiência própria e, em um sentido estrito, tinha razão: na verdade faltou sorte a todos os inocentes que morreram sob as suas asas em 1945. Mas aquelas mortes não foram mera casualidade - assim como no caso das vítimas do World Trade Center. O fato é que Hiroshima foi escolhida sobretudo por ser um alvo civil e porque até então havia sido parcialmente poupada dos bombardeios convencionais, preservada que fora para a demonstração o mais dramática possível das conseqüências de um ataque nuclear. Três dias depois, a cidade de Nagasaki foi atingida por um artefato ainda mais potente - uma sofisticada bomba de implosão construída em torno de uma esfera de plutônio, com dez centímetros de diâmetro, que superou o limiar do "estado crítico" determinado pela relação peso/superfície ao ser comprimida com simetria por explosivos cuidadosamente distribuídos. O resultado: uma explosão de 22 quilotons. Embora boa parte da cidade estivesse protegida por colinas, cerca de 70 mil pessoas perderam a vida. Há quem diga que uma explosão sobre o mar, ou mesmo sobre o porto de Tóquio, poderia ter levado os japoneses à rendição com menos perdas de vida - e, se isso não acontecesse, outra bomba já estava pronta. Mas a intenção era aterrorizar ao máximo uma nação e para alcançar tal objetivo não há nada que se compare a um ataque nuclear à população civil.

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"O Bazar Atômico"
Autor: William Langewiesche
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 192
Quanto: R$ 33,30 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.

Texto baseado em informações fornecidas pela editora/distribuidora da obra.

 
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