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19/10/2017 - 09h01

'Esperando Godot' ganha edição em capa dura; leia trecho

da Livraria da Folha

Divulgação
Considerada obra máxima de Samuel Beckett, peça deriva da atmosfera conturbada do pós-guerra
Considerada obra máxima de Samuel Beckett, peça deriva da atmosfera conturbada do pós-guerra

Nada a fazer. A não ser esperar Godot. Este é o drama de Vladimir e Estragon, os personagens de "Esperando Godot". A obra máxima do dramaturgo irlandês Samuel Beckett ganha agora uma nova edição pela Companhia das Letras.

Com acabamento em capa dura, o livro traz textos críticos inéditos em português dos especialistas Ronan McDonald e Steven Connor, além de posfácio do professor e crítico Fábio de Souza Andrade, que também assina a tradução.

Escrita em 1949 e levada aos palcos pela primeira vez em 1953, a peça é marcada pela desilusão do pós-Guerra.

Na trama, duas figuras clownescas, Vladimir e Estragon, esperam por um sujeito que talvez se chame Godot. Sua chegada, que parece iminente, é constantemente adiada.

A ação da peça se dá em cenário que pouco muda, em uma estrada onde se vê uma árvore e uma pedra.

Dividido em dois atos, "Esperando Godot" revolucionou a narrativa e o teatro do século 20.

Vencedor do Nobel de literatura de 1969, Samuel Beckett nasceu em Dublin em 1906. Escreveu poesia, peças de teatro e romances. É autor de romances como "Molloy" e "Malone Morre", além das peças "Fim de Partida", "Dias Felizes", entre outros. Morreu em 1989.

Leia abaixo

*

Estrada no campo. Árvore. Entardecer.
Sentado sobre uma pedra, Estragon tenta tirar a bota. Faz força com as duas mãos, gemendo. Para, exausto; descansa, ofegante; recomeça. Mais uma vez.
Entra Vladimir.

ESTRAGON (desistindo de novo) Nada a fazer.

VLADIMIR (aproximando-se a passos curtos e duros, joelhos afastados) Estou quase acreditando. (Fica imóvel) Fugi disso a vida toda. Dizia: Vladimir, seja razoável, você ainda não tentou de tudo. E retomava a luta. (Encolhe-se, pensando na luta. Vira-se para Estragon) Veja só! Você, aqui, de volta.

ESTRAGON Estou?

VLADIMIR Que bom que voltou. Pensei que tivesse partido para sempre.

ESTRAGON Eu também.

VLADIMIR Temos que comemorar, mas como? (Pensa) Levante que lhe dou um abraço. (Oferece a mão a Estragon)

ESTRAGON (irritado) Daqui a pouco, daqui a pouco.

Silêncio.

VLADIMIR (magoado, com frieza) Pode-se saber onde o senhor passou a noite?

ESTRAGON Numa vala.

VLADIMIR (espantado) Numa vala! Onde?

ESTRAGON (sem indicar) Logo ali.

VLADIMIR E eles não bateram em você?

ESTRAGON Bateram, mas não demais.

VLADIMIR Os mesmos de sempre?

ESTRAGON Os de sempre? Não sei.

Silêncio.

VLADIMIR Quando paro para pensar... estes anos todos... não fosse eu... o que teria sido de você...? (Com firmeza) Não seria mais do que um montinho de ossos, neste exato momento, sem sombra de dúvida.

ESTRAGON (ofendido) E daí?

VLADIMIR (melancólico) É demais para um homem só. (Pausa. Com vivacidade) Por outro lado, qual a vantagem de desanimar agora, é o que eu sempre digo. Deveríamos ter pensado nisso milênios atrás, em 1900.

ESTRAGON Chega. Ajude aqui a tirar esta porcaria.

VLADIMIR De mãos dadas, pular do alto da torre Eiffel, os primeiros da fila. Éramos gente distinta, naquele tempo. Agora é tarde demais. Não nos deixariam nem subir. (Estragon luta com a bota) O que você está fazendo?

ESTRAGON Tirando minha bota. Nunca aconteceu com você?

VLADIMIR Sapatos a gente tira todos os dias, cansei de explicar. Por que você não me ouve?

ESTRAGON (cansado) Me ajude!

VLADIMIR Dói?

ESTRAGON Dói! Ele quer saber se dói!

VLADIMIR (colérico) Tirando você, ninguém sofre. Eu não conto. Queria ver se estivesse no meu lugar, o que você diria.

ESTRAGON Doeu?

VLADIMIR Doeu! Ele quer saber se doeu!

ESTRAGON (apontando com o indicador) De qualquer modo, você bem que poderia fechar os botões.

VLADIMIR (inclinando-se) É verdade. (Abotoa-se) Nunca descuide das pequenas coisas.

ESTRAGON O que você queria? Você sempre espera até o último minuto.

VLADIMIR (sonhador) O último minuto... (Medita) Custa a chegar, mas será maravilhoso. Quem foi que disse isso?

ESTRAGON Por que você não me ajuda?

VLADIMIR Às vezes até sinto que está vindo. Então fico todo esquisito. (Tira o chapéu, examina o interior com o olhar, vasculha-o com a mão, sacode-o, torna a vesti-lo) Como se diz? Aliviado e ao mesmo tempo... (busca a palavra) apavorado. (Enfático) A-PA-VO-RA-DO. (Tira o chapéu mais uma vez, examina o interior com o olhar) Essa agora! (Bate no chapéu, como quem quer fazer que algo caia, examina o interior com o olhar, torna a vesti-lo) Enfim... (Com esforço extremo, Estragon consegue tirar a bota. Examina seu interior com o olhar, vasculha-a com a mão, sacode-a, procura ver se algo caiu ao redor, no chão, não encontra nada, vasculha o interior com a mão mais uma vez, olhar ausente) E então?

ESTRAGON Nada.

VLADIMIR Deixe ver.

ESTRAGON Não há nada para ver.

VLADIMIR Tente calçar de novo.

ESTRAGON (tendo examinado o pé) Vou deixar tomando um ar.

VLADIMIR Eis o homem: jogando nos sapatos a culpa dos pés. (Tira o chapéu, examina o interior com o olhar, vasculha-o com a mão, sacode-o, bate nele, sopra no interior, torna a vesti-lo) Alarmante, isto está ficando alarmante. (Silêncio. Estragon mexe o pé, separando os dedos para que respirem melhor) Um dos ladrões foi salvo. (Pausa) É uma estatística razoável. (Pausa) Gogô?

ESTRAGON O quê?

VLADIMIR E se nos arrependêssemos?

ESTRAGON Do quê?

VLADIMIR Ahnnn... (Reflete) Não precisamos entrar em detalhes.

ESTRAGON De termos nascido?

Vladimir rompe numa gargalhada, prontamente contida, levando as mãos ao púbis, rosto contraído.

VLADIMIR Nem rir ousamos mais.

ESTRAGON Terrível privação.

VLADIMIR Apenas sorrir. (Seu rosto abre-se num sorriso máximo que se fixa, dura um certo tempo, depois se desfaz repentinamente) Não é a mesma coisa. Enfim... (Pausa) Gogô?

ESTRAGON (irritado) O quê?

VLADIMIR Você já leu a Bíblia?

ESTRAGON A Bíblia...? (Pensa) Devo ter passado os olhos.

VLADIMIR (espantado) Na escola sem Deus?

ESTRAGON Sei lá se era com ou sem.

VLADIMIR Deve estar confundindo com La Roquette.

ESTRAGON Pode ser. Lembro dos mapas da Terra Santa. Coloridos. Bem bonitos. O mar Morto de um azul bem claro. Dava sede só de olhar. É para lá que vamos, eu dizia, é para lá que vamos na lua de mel. E como nadaremos. E como seremos felizes.

VLADIMIR Você devia ter sido poeta.

ESTRAGON E fui. (Indicando os farrapos com um gesto) Não está na cara?

Silêncio.

[...]

*

ESPERANDO GODOT
AUTOR Samuel Beckett
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 42,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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