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19/06/2015 - 16h57

Leia um trecho de 'Luxúria - Como Ela Mudou a História do Mundo'

da Livraria da Folha

Divulgação
Livro explica como a luxúria mudou a história da humanidade
Livro explica como a luxúria mudou a história da humanidade

Foi por causa da luxúria que os gregos consideravam a relação entre homens superior à entre homem e mulher, que os hebreus criaram o conceito de pecado, que papas descumpriram seus votos de castidade, que as mulheres foram tão estigmatizadas e perseguidas e que a pornografia se transformou em uma indústria bilionária.

O livro "Luxúria", escrito pelo jornalista Maurício Horta, faz parte da série "Os Sete Pecados", da editora LeYa, que procura compreender a trajetória e o desenvolvimento humano a partir da perspectiva dos pecados capitais. "Inveja" e "Luxúria" são os dois primeiros títulos da coleção.

Maurício Horta é jornalista formado pela USP e colaborou para diversas publicações, como a Folha e a revista "Superinteressante".

Abaixo, leia um trecho do livro.

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Quando os poetas Dante e Virgílio começaram a descer os nove círculos do inferno em A Divina Comédia, as primeiras pessoas que a dupla encontrou foram os sábios da Antiguidade. Dos pecadores, eram os mais inocentes. Afinal, tinham vivido virtuosamente; apenas tiveram o infortúnio de nascer antes de Cristo. Conforme os poetas seguiram para o segundo círculo do inferno, chegaram ao vale dos Ventos, onde padeciam "os que aos vícios da carne se entregavam". Se em vida os condenados pela luxúria haviam se deixado levar pelas paixões, agora era o terrível turbilhão que os prendia no inferno.

Em seguida, Dante e Virgílio atravessaram o lago de lama no qual glutões se atolavam no próprio vômito.

Depois, foram para a colina, onde avarentos e vaidosos lutavam eternamente entre si usando como arma terríveis pesos - por terem as mãos fechadas, os avarentos eram obrigados a empurrar com o peito. Os poetas seguiram para baixo até pararem junto a uma lagoa de águas lodosas. Lá, os condenados pela ira se debatiam, enquanto os condenados pela acídia (também conhecida como tristeza e preguiça) eram presos ao fundo do lodo, e ali se afogavam eternamente, formando bolhas que se viam na superfície da lagoa.

Esses eram apenas os menos graves dos pecados. Depois de atravessarem a cidade de Dite, os poetas encontrariam os recônditos do inferno, onde se puniam os piores pecados: aqueles cometidos conscientemente. Lá estariam o círculo da heresia, o círculo da violência, o círculo da fraude e, finalmente, o círculo da traição, onde vivia Lúcifer.

Para Dante - que era um poeta, não um homem da Igreja -, os pecados capitais estavam longe de ser os mais graves. E isso está de acordo com a tradição católica. Quando o papa Gregório I consolidou a lista de pecados capitais, ainda no século VI da nossa era, fez isso não por considerá-los atos ou pensamentos especificamente graves, pelo contrário. Vaidade, avareza, inveja, ira, gula, acídia e luxúria não podem sequer ser resumidos a um ato ou pensamento específico, diferentemente do que acontece com heresia, violência, fraude e traição. O que, então, torna os pecados "capitais" não é a gravidade, mas a capacidade de induzir o indivíduo a cometer outros pecados. Pecados capitais não são atos ou pensamentos "maus", mas sim uma predisposição presente em todos os indivíduos que os leva a cometer atos e pensamentos maus. Eles são a cabeça dos pecados.

Por exemplo, a luxúria, que é o tema deste livro, não é traduzida em atos sexuais específicos - como "fornicação" e "sodomia". Ela é mais bem-definida como a inclinação a ceder aos desejos do nosso corpo. E, ao ceder aos desejos da carne, acabamos ultrapassando a barreira do que a tradição cristã considera pecado.

A ideia de que luxúria é um pecado capital surgiu em um momento muito específico do Cristianismo, e teve consequências importantes na forma como as pessoas se relacionam no Ocidente. A história do Ocidente, por sua vez, também acabou modificando bastante o que consideramos luxúria e a importância que lhe damos.

Este livro tem três objetivos: explicar como sociedades anteriores ao Cristianismo contribuíram para a construção do conceito de luxúria; mostrar a influência do conceito de luxúria na formação das culturas do Ocidente, incluindo a brasileira; e descrever como, a partir da era moderna, o Estado, a Médicina, a sociedade civil e o mercado ora se associaram, ora competiram com a Igreja na disputa pela influência na vida sexual no Ocidente.

No escurinho das ruínas

O sexo já andou de mãos dadas com a religião: transar fazia parte dos cultos. Mesmo assim, as leis contra o adultério são tão antigas quanto a civilização, e bárbaras como se civilização não houvesse. E a prostituição já foi tão importante que chegou a ser estatizada. Com vocês, o sexo na Babilônia, no Egito, na Grécia e em Roma. E na Bíblia também. Em pelo menos um ponto os caçadores e coletores nômades do Paleolítico se pareciam bastante com o homem urbano de hoje: dificilmente tinham mais de dois filhos. O motivo era bastante simples: assim como hoje, filhos eram bocas caras demais para sustentar. E, na falta de anticoncepcionais, o que garantia essa prole restrita era um índice severo de mortalidade infantil, que reduzia a média de crianças sobreviventes a duas por mulher. Nessas condições, evoluímos do surgimento dos primeiros hominídeos mais ou menos modernos, como o Homo erectus, entre 1,7 milhão e 2 milhões de anos atrás, até outro dia.

Mas eis que, por volta de 10000 a.C., os humanos começaram a produzir ferramentas mais especializadas do que a pedra lascada, como anzóis e flechas. Com elas, puderam ficar cada vez mais tempo no mesmo lugar. Em vez de saírem para caçar, foram capazes de viver, por exemplo, da pesca. E, ao deixarem o nomadismo, começaram lentamente a cultivar plantas comestíveis e a domesticar animais.

No momento em que se assentaram de vez, saíram do Paleolítico e entraram de cabeça no Neolítico - o que começou a ocorrer há dez milênios no Oriente Próximo, nos atuais Iraque e Jordânia, e pouco mais tarde nos vales dos rios Amarelo (China), Nilo (Egito), Indo e Ganges (subcontinente indiano) e nas Américas.

Primeiro, organizaram-se em comunidades produtoras de alimentos e passaram a controlar o ambiente à sua volta. Isso não só diminuiu o número de mortes violentas, tão comuns entre nômades, como também aumentou a produção. Com mais alimentos, a expectativa de vida e o número de filhos por mulher aumentaram. É aí que começa a primeira revolução sexual da humanidade - uma revolução que, em vez de ampliar, diminuiu a liberdade sexual.

Para os caçadores e coletores nômades, filhos em excesso representavam um fardo. Já para os agricultores, filhos eram mais braços para o trabalho, e filhas, uma moeda de troca para a aliança com outras famílias de agricultores. Os machos no Paleolítico buscavam maximizar as oportunidades sexuais demonstrando para as fêmeas de seu bando que tinham aptidões e vigor. O mais saudável, talentoso e poderoso teria mais parceiras; o menos dotado ficava sozinho. No Neolítico, eles se viram presos a uma comunidade sedentária, a laços de fidelidade, a trocas de dotes. Estavam, finalmente, casados.

Quando esse casamento surgiu, pouco tinha a ver com amor ou tesão. O que estava em jogo não era mais o interesse biológico de um casal se reproduzir, mas os benefícios propiciados a um grupo maior de pessoas. Quando sogros uniam o filho de um com a filha de outro, expandiam a sua rede familiar - ou seja, quem se casava não eram os indivíduos, mas as famílias. Esse casamento transformava dois desconhecidos em parentes, e isso os levava a estender a relação de cooperação da família a novas fronteiras. As famílias que tinham propriedades buscavam casamentos que garantissem a integridade de seu patrimônio e que também pudessem estendê-lo. Alianças de sangue se tornavam alianças políticas, das quais os exemplos mais perfeitos são as dinastias reais europeias.

É claro que muitas pessoas se apaixonavam, e que essas paixões entravam em conflito com os interesses de suas famílias. Afinal, o humano era o mesmo ser romântico e lascivo de sempre. Mas o fato é que, fundamentalmente, o casamento não tinha a ver com amor, mas com economia. A unidade básica da sociedade que evoluiu da agricultura era importante demais e deveria ser definida por interesses objetivos e materiais, não por algo tão irracional e efêmero quanto o amor. A afeição e o tesão eram fruto evolutivo de milhões de anos de vida errática, não das grandes necessidades materiais do novo homem agricultor. Que os homens viessem eventualmente a fazer sexo com prostitutas e amantes - ou mesmo arranjassem mais esposas, caso fossem ricos - não era problema. O que importava era que o casamento permanecesse intacto; e a mulher, fiel. O Código de Hamurabi, uma das primeiras "Constituições" de todos os tempos, em vigor na Mesopotâmia de 1750 a.C., era a mais completa tradução desse conceito.

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LUXÚRIA
AUTOR Maurício Horta
EDITORA LeYa
QUANTO R$ 27,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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