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28/11/2013 - 16h22

Jack Kerouac retrata suas memórias sobre o irmão mais velho, morto aos nove anos

da Livraria da Folha

Em uma cidadezinha do Estado de Massachusetts, nos EUA, Jack Kerouac, aos quatro anos, testemunhou a doença e a morte de seu irmão mais velho, Gerard, que tinha nove anos. Por morrer prematuramente, os moradores do local passam a vê-lo como uma espécie de santo.

No livro "Visões de Gerard", escrito em 1956 e publicado em 1963, Kerouac mistura suas memórias a ilusões, como o sonho de Gerard com Nossa Senhora. O autor apresenta um relato e uma reflexão sobre a existência humana e seu fim.

Kerouac, o escritor que definiu a geração beat, morreu aos 47 anos, em 21 de outubro de 1969, de cirrose hepática, resultado de um longo histórico de abuso de álcool. Uma das mais originais manifestações culturais do século 20, o movimento beat se propagou por meio de um grupo de jovens escritores.

"On The Road", sua obra-prima, chegou a ser considerada a bíblia para o movimento de contracultura, inclusive para os hippies, anos mais tarde. O sucesso lhe era desconfortável, e ele chegou a buscar o isolamento do mundo.

Abaixo, leia um trecho de "Visões de Gerard".

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Divulgação
Um livro poético e arrebatador sobre o mistério da existência
Um livro poético e arrebatador sobre o mistério da existência

Gerard Duluoz nasceu em 1917 um menino pequeno e doente com um coração reumático e várias outras complicações que o mantiveram doente pela maior parte da vida que acabou em julho de 1926, aos 9 anos idade, e as freiras da St. Louis de France Parochial School estavam ao lado da cama prestando atenção às últimas palavras dele porque tinham ouvido as impressionantes revelações celestiais que ele tinha feito durante o catequismo sem nenhum outro incentivo a não ser que era a vez dele de falar, o Santo Gerard, com o rostinho puro e tranquilo, o olhar contristado, a santidade do pequenino manto de cabelos caindo pela testa e afastado pela mão acima dos olhos sérios e azuis - eu não faria mais nenhum oblóquio nem amaldiçoaria a maldita terra, mas apenas obsecrações se eu conseguisse manter a salvo comigo aquele rosto fixo na memória e impedir que fugisse de mim - Porque durante os quatro primeiros anos da minha vida, enquanto ele viveu, eu não era Ti Jean Duluoz, eu era Gerard, o mundo era o rosto dele, a flor daquele rosto, a disposição pálida e recurvada, a partitude do coração e a santidade e os ensinamentos de ternura que ele me ofereceu, e a minha mãe o tempo inteiro me lembrando de prestar atenção à bondade e aos conselhos dele - Verões que ele havia passado deitado à tarde, no jardim, com a mão nos olhos, vendo as nuvens brancas passarem, aqueles perfeitos fantasmas do Tao que se materializam e depois viajam e depois vão embora, desmaterializados, em um enorme vazio planetário, como a alma das pessoas, como as pessoas substanciais de carne, como as chaminés de tijolo à vista um tanto substanciais em Lowell Mills ao longo do rio nas tardes tristes de domingo com o sol ardendo vermelho enquanto o grande e carrancudo Emil Pop Duluoz o nosso pai lia as tirinhas do jornal em mangas de camisa no canto perto do vaso com as plantas do tempo e da casa - Afagando a cabeça do pequeno e doentio Gerard, "Mon pauvre ti Loup, meu pobre lobinho, você nasceu para sofrer" (sem nem imaginar que faltava tão pouco tempo para os sofrimentos acabarem, tão pouco tempo para a chuva, o incenso e as obscuridades lacrimosas do funeral que seria realizado do outro lado da rua na igreja subterrânea de St. Louis de France na Boisvert com a West Sixth).

Para mim os quatro primeiros anos da minha vida são permeados de cinza pela memória de um rosto sério e bondoso se inclinando por cima de mim e sendo eu e me abençoando - O mundo uma ninhada de santidade Duluoz e ele a mãe galinha, Gerard, que me ensinou a ser bom para os animaizinhos e me levou pela mão em breves passeios esquecidos.

"Allo zig lain - ziglain - zigluu -", dizia ele para o nosso gato com uma vozinha aguda de gato maluco e o gato olhava de volta para ele como quem não quer nada com um olhar vazio como se a língua dos gatos fosse verdadeira mas os gatos também entendiam que as palavras eram portentos de bondade e os olhos deles o seguiam enquanto ele andava pela casa cinzenta e de repente eles o abençoavam de maneira inesperada pulando no colo dele ao entardecer, naquela hora silenciosa em que a água borbulha no fogão com as batatas irlandesas e o silêncio preenche os ouvidos nas casas para anunciar a eterna presença abençoada de Avalokitesvara sorrindo nas sombras que enxameiam por trás das poltronas estofadas e dos abajures com borlas, um

Ventre de Fertilidade Exuberante o mundo e todas as coisas tristes risíveis, e Gerard o menor e o último a desreconhecer o fato aposto se estivesse aqui para abençoar o meu lápis enquanto eu tomo fôlego para contar essa dolorosa história para um mundo que precisa de pessoas delicadas e amorosas como ele.

"O céu é todo branco" (le ciel yé tout blanc, no pequeno patois infantil em que falávamos o nosso francês nativo), "os anjos são como cordeiros, e as crianças e os pais ficam juntos para sempre" dizia ele, e eu: "Sont-ils content? Eles são felizes?"

"Não poderiam ser outra coisa senão felizes -"

"Qual é a cor de Deus? -"

"Blanc d'or rouge noir pi toute - Branco de vermelho ouro preto e tudo -" é a tradução.

O Gatinho chega perto e esfrega o nariz úmido e os dentinhos contra o dedo estendido de Gerard, "Quequecequer, Ploo pli?" - Quem me dera recordar o aconchego e o Amor desses dois irmãos abandonados em um passado agora tão distante do meu objetivo doentio que eu não poderia ganhar essas virtudes curativas nem se eu tivesse a ponte, agora que perdi todas as moléculas de antes sem nem ao menos ter um gostinho da iluminação.

Ele me entrouxa com o casaco e o chapéu, vai me mostrar como brincar no pátio - Enquanto isso a fumaça sopra triste dos telhados vermelhos ao entardecer de inverno na Nova Inglaterra e as nossas sombras na grama marrom e congelada são como lembranças do que deve ter acontecido um milhão de éons de éons atrás na Mesma Luz Intensa Ligada do Nirvana-Samsara.

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"Visões de Gerard"
Autor: Jack Kerouac
Editora: L&PM Editores
Páginas: 144
Quanto: R$ 24,90 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.

Texto baseado em informações fornecidas pela editora/distribuidora da obra.

 
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