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24/01/2014 - 10h47

Leia trecho de 'Foco: A Atenção e Seu Papel Fundamental para o Sucesso'

da Livraria da Folha

Em "Foco", Daniel Goleman defende que a capacidade de concentração é o fator que separa um profissional de sucesso do funcionário mediano. O autor apresenta casos e debate descobertas sobre as vantagens de quem consegue manter a atenção numa era de distrações intermináveis.

Indicado duas vezes ao prêmio Pulitzer, Goleman escreveu sobre psicologia e ciências para o jornal "The New York Times" por 12 anos. Entre outros livros, ele também assina o best-seller "Inteligência Emocional". Abaixo, leia um trecho de "Foco".

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A HABILIDADE SUTIL

Divulgação
Quando você lê um texto, normalmente fica distraído por mais de 40% do tempo
Quando você lê, fica distraído por mais de 40% do tempo, diz autor

Observar o segurança John Berger de olho nos clientes que percorrem o primeiro andar de uma loja de departamentos no Upper East Side de Manhattan é testemunhar a atenção em ação. Vestindo um terno preto discreto, camisa branca e gravata vermelha e o walkie-talkie sempre em punho, John se movimenta sem parar, o foco sempre em um ou outro cliente. Podemos dizer que ele é os olhos da loja.

É um desafio imenso. Há mais de cinquenta pessoas no andar a todo momento, indo de um balcão de joalheria a outro, examinando as echarpes Valentino, selecionando as bolsas Prada. Enquanto os clientes analisam os produtos, John analisa os clientes.

John parece fazer uma dança por entre os clientes, como uma partícula em movimento browniano. Por alguns segundos, fica parado atrás de um balcão de bolsas com os olhos grudados num possível comprador, então vai rapidamente para um ponto de observação ao lado da porta, apenas para em seguida mover-se furtivamente até um canto de onde consegue ter uma visão privilegiada de um trio potencialmente suspeito.

Enquanto os clientes veem apenas as mercadorias, indiferentes ao olhar atento de John, ele examina detalhadamente a todos.

Há um ditado na Índia que diz: "Quando um batedor de carteiras encontra um santo, tudo o que ele vê são os bolsos." Em qualquer aglomeração, o que John vê são os batedores de carteiras. O olhar dele vai de um lado a outro como um holofote. Sou capaz de imaginar seu rosto se transformando em um globo ocular gigantesco, lembrando um ciclope e seu único olho. John é a personificação do foco.

O que ele procura? "É um jeito de mexer os olhos ou um movimento do corpo" que lhe dão a indicação de haver a intenção de roubar, John me diz. Ou os clientes andando em bandos, ou aquele olhando ao redor furtivamente.

"Faço isso há tanto tempo que simplesmente reconheço os sinais." Quando se concentra num cliente entre os cinquenta, John consegue ignorar os outros 49 - e todo o resto. Uma proeza de concentração em meio a um mar de distração.

Essa consciência panorâmica, alternada com a constante vigilância por um sinal revelador, exige diversos tipos de atenção - a atenção seletiva,a alerta, a orientada e a que administra tudo isso -, todos baseados em teias de circuitos cerebrais distintamente singulares e cada um deles sendo uma ferramenta mental essencial.

O exame contínuo e atento de John em busca de algo extraordinário representa uma das primeiras facetas da atenção a serem estudadas cientificamente. A análise do que nos ajuda a ficarmos vigilantes se intensificou durante a Segunda Guerra Mundial, estimulada pela necessidade militar de operadores de radar capazes de se manterem em alerta máximo durante horas a fio.

No auge da Guerra Fria, me lembro de ter visitado um pesquisador que havia sido encarregado pelo Pentágono para estudar níveis de vigilância durante períodos de privação de sono de três a cinco dias - aproximadamente o tempo que os oficiais militares enfurnados em bunkers precisariam se manter acordados durante a Terceira Guerra Mundial. Felizmente, a experiência nunca precisou ser testada na prática, embora sua encorajadora descoberta tenha sido de que mesmo depois de três ou mais noites sem sono as pessoas ainda são capazes de prestar bastante atenção, caso suas motivações sejam fortes o suficiente (caso contrário, caem no sono imediatamente).

Muito recentemente, a ciência da atenção floresceu para muito além da vigilância. Essa ciência diz que nossa capacidade de atenção determina o nível de competência com que realizamos determinada tarefa. Se ela é ruim, nos saímos mal. Se é poderosa, podemos nos sobressair. A própria destreza na vida depende dessa habilidade sutil. Embora a conexão entre atenção e excelência permaneça oculta a maior parte do tempo, ela reverbera em quase tudo que tentamos realizar.

Essa ferramenta flexível se adapta a inúmeras operações mentais. Uma pequena lista de alguns pontos básicos inclui compreensão, memória, aprendizagem, percepção do que sentimos e por que, leitura das emoções dos outros e interação harmoniosa. Trazer à tona esse fator invisível de eficiência nos permite visualizar os benefícios de aprimorar essa faculdade mental e compreender melhor como fazer isso.

Através de uma ilusão de ótica da mente, costumamos registrar os produtos finais da atenção - nossas ideias boas e más, uma piscada de olhos reveladora ou um sorriso convidativo, o aroma do café recém-passado - sem percebermos o sinal da própria consciência.

Apesar da importância que ela tem para a forma como levamos a vida, a atenção, em todas as suas variantes, representa um recurso mental subestimado e pouco percebido. Meu objetivo aqui é realçar essa vaga e depreciada habilidade no contexto das operações mentais e destacar seu papel na experiência de uma vida satisfatória.

Nossa jornada começa pela exploração de alguns pontos básicos da atenção. A atenção vigilante de John é apenas um deles. A ciência cognitiva realiza um amplo conjunto de estudos sobre concentração, atenção seletiva e consciência aberta, e também sobre como a mente direciona a atenção para dentro a fim de inspecionar e gerenciar operações mentais.

Capacidades fundamentais derivam desses mecanismos básicos da nossa vida mental. A autoconsciência, por exemplo, promove a autogestão. A empatia, por sua vez, é a base da habilidade de se relacionar. São pontos fundamentais da inteligência emocional. Como veremos, a fraqueza desses pontos pode sabotar uma vida ou uma carreira, enquanto a força aumenta a realização e o sucesso.
Para além desses domínios, a ciência dos sistemas nos leva a dimensões mais amplas de foco ao observarmos as coisas ao nosso redor, nos sintonizando aos sistemas complexos que definem e restringem nosso mundo.

Esse foco externo nos impõe o desafio oculto que é nos ligarmos a esses sistemas vitais: como nosso cérebro não foi projetado para essa tarefa, nos atrapalhamos. No entanto, estar consciente desses sistemas pode nos ajudar a compreender o funcionamento de uma organização, uma economia ou os processos globais que sustentam a vida neste planeta. Tudo isso pode ser resumido em uma tríade: o foco interno, o foco no outro e o foco externo. Uma vida bem vivida exige que dominemos os três.

A boa notícia sobre a atenção vem dos laboratórios de neurociências e das salas de aula, onde descobertas apontam para as formas pelas quais podemos fortalecer esse músculo vital da mente. A atenção funciona como um músculo: pouco utilizada, ela definha; bem utilizada, ela melhora e se expande. Veremos como um treinamento inteligente pode desenvolver e refinar o músculo da nossa atenção e até mesmo reabilitar cérebros carentes de foco.

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FOCO
AUTOR Daniel Goleman
EDITORA Objetiva
QUANTO R$ 33,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

 
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