Saltar para o conteúdo principal
 
08/05/2014 - 20h09

Bertrand Russell defende o valor do ceticismo

da Livraria da Folha

Domínio Público
Sua dedicação ao pacifismo tornou-o um símbolo pela busca da paz
Bertrand Russell, um dos mais expressivos filósofos do século 20

Uma das características mais marcantes do pensamento de Bertrand Russell é o ceticismo. O primeiro "mandamento" do filósofo era: "Não tenha certeza absoluta".

"Ensaios Céticos" é uma coletânea que debate guerras doutrinárias, busca pela felicidade, liberdade e educação.

Os textos, a maioria deles escritos na década de 1920, defendem o valor do ceticismo. Para ele, a inteligência seria o único remédio capaz de sanar os problemas do mundo.

O filósofo inglês, conhecido por seus trabalhos em lógica e filosofia analítica, recebeu o prêmio Nobel de Literatura em 1950. Russell morreu no dia 2 de fevereiro de 1970, aos 97 anos. Fumou excessivamente a vida toda.

Abaixo, leia um trecho de "Ensaios Céticos".

Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. Conheça o livro "Escrevendo pela Nova Ortografia".

*

INTRODUÇÃO

Divulgação
Coletânea de ensaios sobre assuntos que continuam atuais e polêmicos
Coletânea de ensaios sobre assuntos que continuam atuais

Gostaria de propor para apreciação favorável do leitor uma doutrina que pode, temo, parecer bastante paradoxal e subversiva. A doutrina, nesse caso, é a seguinte: não é desejável acreditar em uma proposição quando não existe nenhum fundamento para supô-la verdadeira. Devo, é claro, admitir que se essa opinião se tornasse comum transformaria completamente nossa vida social e nosso sistema político; uma vez que ambos são no momento irrepreensíveis, esse fato poderia exercer pressão contra eles. Estou, também, ciente (o que é mais grave) de que tenderiam a diminuir os ganhos dos futurólogos, corretores de apostas, bispos, entre outros, que vivem das esperanças irracionais daqueles que nada fizeram para merecer sorte aqui ou em outro mundo. Sustento, apesar dessas graves proposições, que é possível elaborar um argumento de meu paradoxo, e tentarei apresentá-lo.

Em primeiro lugar, gostaria de me defender da idéia de ser considerado um extremista. Sou um Whig, com amor britânico pelo compromisso e pela moderação. Conta-se uma história sobre Pirro de Élida, fundador do pirronismo, antiga designação do ceticismo. Ele sustentava que nunca sabemos o suficiente para estarmos certos se um curso de uma ação é mais sábio do que outro. Na juventude, em uma tarde, durante um passeio, viu seu professor de filosofia (de quem absorvera seus princípios) com a cabeça presa em um buraco, incapaz de sair. Depois de contemplá-lo por algum tempo, prosseguiu, argumentando que não havia fundamento suficiente para pensar que faria algo de bom ao retirar o velho homem do buraco. Outros, menos céticos, o salvaram, e acusaram Pirro de não ter coração. O professor, no entanto, fiel a seus princípios, louvou-o por sua coerência. Não advogo um ceticismo heróico como esse. Estou preparado para admitir as crenças triviais do senso comum, na prática, se não na teoria. Estou, também, preparado para admitir qualquer resultado bem estabelecido pela ciência não como verdadeiro, com certeza, mas como provável o bastante para proporcionar uma base para a ação racional. Se for anunciada a ocorrência de um eclipse da lua em determinado dia, acho que vale a pena observar se está acontecendo. Pirro pensaria o contrário. Nesse sentido, pode-se dizer que defendo uma posição intermediária.

Existem assuntos sobre os quais há concordância entre os pesquisadores; as datas dos eclipses podem servir de ilustração. Existem outros assuntos sobre os quais os especialistas discordam. Mesmo quando todos os especialistas concordam,
também podem estar enganados. Há vinte anos, a visão de Einstein da magnitude da de flexão da luz pela gravitação teria sido rejeitada por todos os especialistas, e ainda assim provou estar certa. Mas a opinião dos especialistas, quando unânime, deve ser aceita pelos leigos como tendo maior probabilidade de estar certa do que a opinião contrária. O ceticismo que advogo corresponde apenas a: (1) quando os especialistas estão de acordo, a opinião contrária não pode ser tida como certa; (2) quando não estão de acordo, nenhuma opinião pode ser considerada correta por um não-especialista; e (3) quando todos afirmam que não existem bases suficientes para a existência de uma opinião positiva, o homem comum faria melhor se suspendesse seu julgamento.

Essas proposições podem parecer moderadas; no entanto, se aceitas, revolucionariam de modo absoluto a vida humana.

As opiniões pelas quais as pessoas estão dispostas a lutar e seguir pertencem todas a uma das três classes que esse ceticismo condena. Quando existem fundamentos racionais para uma opinião, as pessoas contentam-se em apresentá-los e esperar que atuem. Nesses casos, as pessoas não sustentam suas opiniões de forma apaixonada; o fazem com calma, e expõem suas razões com tranqüilidade. As opiniões mantidas de forma passional são sempre aquelas para as quais não existem bons fundamentos; na verdade, a paixão é a medida da falta de convicção racional de seu defensor. Opiniões sobre política e religião são quase sempre defendidas de forma apaixonada. Com exceção da China, um homem é considerado uma pobre criatura a menos que possua opiniões fortes sobre tais assuntos; as pessoas detestam os céticos muito mais do que detestam os advogados apaixonados com opiniões hostis às suas próprias. Acredita-se que as reivindicações da vida prática demandem opiniões sobre essas questões, e que, se nos tornássemos mais racionais, a existência social seria impossível. Penso o contrário, e tentarei deixar claro por que tenho essa crença.

[...]

*

ENSAIOS CÉTICOS
AUTOR Bertrand Russell
EDITORA L&PM
QUANTO R$ 13,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

 
Voltar ao topo da página