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11/10/2017 - 09h01

'Para fazer mais do mesmo na TV, fico com o meu canal', diz Regina Volpato

WILLIAM MAGALHÃES
da Livraria da Folha

Divulgação
Entrevistas são com pessoas que bancam quem são, não ficam escondendo o rosto com a mala cheia de dinheiro', Regina.
Em livro de crônicas, apresentadora Regina Volpato escreve sobre como lidar com novos caminhos ao longo da vida

A ideia era para ser um bate-papo rápido sobre o lançamento de "Mudar Faz Bem", livro de estreia de Regina Volpato, recém-publicado pela Planeta.

Mas a conversa fluiu por cerca de 40 minutos e na pauta, como não poderia deixar de ser, as mudanças enfrentadas pela repórter, apresentadora e agora youtuber, conhecida do grande público por comandar o programa "Casos de Família".

"Sempre aberta para a vida", Regina não se furtou a responder nenhuma das perguntas feitas pela reportagem, com a classe, fineza, respeito e educação que lhe são peculiares.

O livro surgiu por um convite da própria editora, mas sua história começa alguns anos antes. Regina estava à frente da atração do SBT. Na época se comunicava com fãs principalmente por e-mail e mantinha um blog. Um dia recebeu a mensagem de um jovem estudante convidando-a para participar do projeto 'Esqueça um Livro'. Ela aceitou, participou da iniciativa e a vida seguiu.

Anos depois recebeu outro e-mail do mesmo rapaz. Já formado e trabalhando como editor na Planeta, Felipe Brandão fez a proposta para que Regina escrevesse um livro. Juntos, decidiram que a obra seria de crônicas. "Porque talvez fosse mais fácil para mim. Não sei os próximos, mas este primeiro eu não ia ter fôlego para um romance ou mesmo para um livro de contos".

Próximos? Sim. Regina conta que gostou tanto da experiência de trabalhar sozinha que já pensa em mudar de área de atuação. Anda se perguntando o que vai escrever depois. "Não sei se eu vou querer continuar na frente das câmeras a vida toda". Diz que hoje não se vê indo morar em um lugar bem pequenininho para escrever, mas "vai que eu mude de ideia".

Sua intenção com as crônicas era que a leitura fosse fácil, mas não descartável. "De palavras fáceis e um raciocínio simples". "Sabe música que às vezes a gente escuta, coisas que a gente lê e que de repente, sem que você se dá conta assim, vem e fala 'ei, olha isso, aquela frase me define agora'? Eu queria que fosse assim. Uma leitura gostosa, mas que ficasse e continuasse dentro das pessoas, igual quando a gente assiste a um filme".

A recepção dos leitores tem sido maravilhosa, comenta, e transforma suas redes sociais em um "fervo". Regina faz o exercício de não acreditar só em elogios "porque nem tudo são flores". Esperava comentários do tipo "'gosto muito de você, mas não gostei do tema', 'gosto muito de você, mas achei que hoje você não está bem'" que fãs mais críticos fazem para ela sobre os vídeos em seu canal, que possui quase 52 mil inscritos. Algo na linha "'gosto de você, mas para ser escritora falta um tanto'. Não veio".

Enquanto a dedicação exclusiva à escrita não é certeza, é em seu canal no Youtube que hoje se sente realizada. A conversa com a Livraria da Folha, por telefone, acontece na tarde de uma quarta-feira, um dia depois de ela gravar cinco entrevistas para disponibilizar na plataforma. A transição da televisão aberta para a web não foi simples. Regina se viu em crise com a profissão.

"Estava achando tudo fútil, sem fundamento, mais do mesmo, uma reprodução de padrões e valores que eu não acreditava mais. E assim: se eu não acredito o que eu estou fazendo aqui?", relata.

Depois de deixar a emissora de Silvio Santos, Regina trabalhou na Rede TV!, onde ficou até o final de 2013. O canal seria inaugurado no começo de 2016. O período foi marcado por dúvidas. Não sabia se iria continuar como jornalista. "Foram anos muito difíceis para processar essa mudança que as pessoas foram tomar conhecimento no canal. O povo vê a gente linda, maquiada, penteada, não vê a gente triste, chorando, sem saber o que fazer da vida", pondera.

Greg Salibian/Folhapress
Regina Volpato, autora do livro "Mudar Faz Bem"
Regina Volpato, autora do livro "Mudar Faz Bem"

Os vídeos iniciaram com a série "Prazer, Eu Sou" em que entrevista anônimos de valor. "É gente que fala o próprio nome com prazer. Pessoas que bancam quem são. Que tem orgulho de dizer 'Prazer, eu sou o William' (exemplificando com o nome do repórter) não fica escondendo a cara com a mala cheia de dinheiro no apartamento".

A iniciativa veio por um questionamento. Por que sempre as mesmas figuras na TV? "Nada contra celebridades. Tudo contra só ter isso. Tudo contra a gente só ver aquilo. Parece militância, mas não é. Loiro, brancos, héteros, [cabelos] lisos. Por que só isso? Por que eu não posso ter uma trans maravilhosa e que pode ser bonita ou feia, dependendo do meu ponto de vista ou do seu, como uma fonte de inspiração?", indaga.

O novo rumo na carreira é o que tem feito Regina recusar convites que surgem para projetos na TV. Pede para que nem falem com ela sobre valores, porque não é sobre isso. "É óbvio que eu vou ouvir se aparecer um projeto atraente, seja para internet, para televisão aberta ou fechada, rádio. A gente está na pista pra jogo, né bem?". Não encontrou nada até agora que despertasse sua vontade. "Não me desafiaram. É sempre mais do mesmo. E para fazer mais do mesmo eu vou fazer o meu canal que eu acho que é inovador, que eu posso me experimentar, que eu me divirto".

A maneira carinhosa com que fala sobre entrevistados como Pirula, Carmen Silva, Iran Giusti, Dani Moreno, Maite Schneider, Flávia Monteiro e Fabiana Cozza revela o quanto Regina é marcada pelos encontros em seu canal. As gravações são em sua casa. "Depois que o povo vai embora me dá uma mistura de alegria com angústia porque é uma ciranda emocional".

Para relaxar, no final do dia que antecedeu a entrevista, uma taça de vinho e Gilberto Gil com o disco "Refazenda", na vitrola. "Ele me leva às lágrimas".

Do signo de Peixes com ascendente em Leão, Regina está solteira, em uma fase de brindar consigo mesma. "Fui feliz casada, mas no meu atual estágio de vida assim, ser casada é bom, mas ser solteira é maravilhoso. Ma-ra-vi-lho-so, porque nada se compara ao prazer de ter a liberdade que eu tenho".

"Fazia tempo que eu não trabalhava tanto quanto no ano passado e a primeira metade desse ano", avalia. Cada momento sozinha é precioso. "Entendo relacionamento como um compromisso e a gente tem que ponderar, tem que levar em consideração o outro. Às vezes fazer coisa em função do outro. Seja ao invés de dormir à tarde, por exemplo, ir a um aniversário de família". "Estou muito realizada, feliz, sossegada, por não ter que fazer concessão neste sentido para ninguém. É tudo do jeito que eu quero, na hora que eu quero".

O período de trabalho intenso coincide com o tempo em que Regina se dedicou à escrita do livro e a outros quadros de seu canal como o "Repensando" e o "Bem Natural". Super organizada, como se define, conta que se programou para escrever um determinado número de crônicas por semana. Em dias que estava mais inspirada escrevia mais de uma, o que compensava quando as ideias não fluíam. Entregou os originais em janeiro deste ano, dois meses antes do prazo dado pela editora.

O tema "mudanças" pode ter facilitado. Tanto na vida profissional como na pessoal teve de encará-las. "Algumas eu promovi, outras aconteceram e todas foram muito difíceis". Mudar de objetivo, terminar relacionamento, começar relacionamento, são alguns dos exemplos que cita. "Para mim, mudança é parte de um processo de transformação. E mudar não é ser leviana, impaciente, inconsequente, fugir das frustrações".

Esse deslocamento requer primeiro uma constatação de que algo não está bom. "Sempre quero acreditar que está bom, que eu estou feliz e que está tudo certo. Só que às vezes, quando eu constato que não está bom, não estou feliz e não está tudo certo é sempre muito sofrido e me dá uma certa preguiça, porque eu sei do movimento que eu vou ter que provocar para que a situação seja alterada".

Regina atenta para os impactos que a decisão de mudar pode causar. "Tenho contas pra pagar, tenho uma filha para sustentar então nunca foi fácil lidar com a mudança. E mais. É difícil de a gente se libertar até do que a gente não gosta", observa.

O processo envolve estratégia e planejamento, pondera. "Eu me lanço na possibilidade de uma outra realidade melhor, mas eu não conheço qual ela é. Seguramente vão ter riscos e não vai acontecer como eu planejei. E não acontecer como eu planejei para o bem e para o mal. Às vezes é pior, às vezes é muito melhor".

Conclui o raciocínio afirmando que "mudar é sempre muito trabalhoso e é um processo constante". Ciente de que as coisas são transitórias aproveita a "fase ótima" de sua vida. "As coisas não ficam imóveis e imutáveis o tempo todo. Quando a fase é ruim, isso serve de consolo e quando é boa, serve de alerta".

Falamos também sobre a saída do "Casos de Família". Esta mudança, conta, foi promovida por ela, que sentia que sua contribuição ali já havia sido dada. "Foi conversada com a emissora, foi anunciada, porque eu tinha um contrato e antes que o contrato acabasse eu avisei que sairia, até para que se programassem, decidissem se iam continuar com o programa e terem tempo de se organizar".

Incomoda falar sobre o programa?, pergunto. "Não. Nem um pouco. Não me incomoda nem me envergonha. De jeito nenhum", responde. Ainda assiste? "Nunca assisti. Nem quando eu fazia". O que a Regina Volpato gosta de assistir? Noticiário. A RAI para treinar o italiano e a CNN para o inglês. Gosta do "Café Filosófico" e de esporte. "Já assisti muita novela, não assisto mais."

SBT/Divulgação
Regina Volpato na época em que apresentava o 'Casos de Família
Regina Volpato na época em que apresentava o 'Casos de Família'

Recomenda, a pedido, a série "Human", que pode ser encontrada no Youtube como "Human o filme". O projeto traz depoimentos de anônimos intercalados com imagens aéreas sob as lentes de Yann Arthus-Bertrand. "É de uma beleza e de uma poesia. É maravilhoso". Também adorou "Black Mirror". "Acho que define muito o que a gente já está vivendo".

Sobre preferências literárias, conta que terminou, dias antes da conversa, o livro de poesia "Outros Jeitos de Usar a Boca", de Rupi Kaur, e revela as predileção por clássicos como "Os Irmãos Karamázov". "'Os Miseráveis' foi um livro que me marcou profundamente". Diz que detestou e foi um sacrifício ler "Guerra e Paz", de Leon Tolstói, mas leu inteiro. Também tentou ler "A Divina Comédia" em italiano. Não conseguiu. A leitura foi difícil, mas se deu bem com a tradução brasileira que gostou bastante.

Regina relembra a infância ao comentar sobre sua relação com o público LGBT. Fala que quando criança tinha como referência amigos gays de seus pais. "Mas assim, não eram amigos gays. Eram amigos." Os programas que incluíam de restaurantes a missas eram os mesmos que a família fazia com quem os visitasse em Rio Preto, no interior de São Paulo.

Da São Paulo dos anos 80, Regina recorda de Cher e Abba, trilha sonora constante na república próxima à estação da Luz, onde os "tios" moravam com mais amigos em uma casa belíssima, colorida, com plumas e purpurina. A alegria no entanto passou a dar lugar à desconfiança e conversas à boca miúda após a morte do tio Milton, "o mais legal, o mais inteligente, o mais bem-humorado, o mais incrível de todos", em decorrência de complicações causadas pela Aids.

Foi aí que Regina percebeu o diferença no tratamento e o preconceito que ainda hoje fazem parte da experiência homossexual. "Chamo de comunidade LGBT, porque se convencionou chamar assim. Mas para mim, são pessoas".

Outra referência era Cidão, que trabalhava como babá na casa de uma família vizinha que tinha filhos gêmeos. Do tipo "caminhoneira", ela era bem recebida na casa de Regina, que costumava frequentar. "No ambiente que eu cresci era assim".

"Até hoje não entendo porque que o gosto, jeito ou desejo por homem ou por mulher pode mobilizar tanto ódio e incomodar tanto. Não faz sentido", diz Regina. "As pessoas ainda se incomodam muito com sexualidade. Então, ter alguém que fala assim, abertamente, acaba chamando mais atenção", avalia.

TV Bandeirantes/Divulgação
Regina Volpato foi apresentadora do canal BandNews
Regina Volpato foi apresentadora do canal BandNews

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MUDAR FAZ BEM
AUTORA Regina Volpato
EDITORA Planeta
QUANTO R$ 30,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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