colaboração para a Livraria da Folha
| Jair Bertolucci/Divulgação/TV Cultura |
![]() |
| O jornalista e escritor Zuenir Ventura |
O escritor e jornalista Zuenir Ventura morou dez meses na favela do Vigário Geral, no Rio de Janeiro, e o resultado dessa experiência ele registrou no livro "Cidade Partida" (Companhia das Letras). Nele, o autor de clássicos como "1968: o Ano que Não Terminou" (Planeta), retrata o Rio de Janeiro como uma cidade dividida entre a sociedade civil e os bandidos. Algo que o governo fluminense tenta resolver mais uma vez através do confronto direto.
| Divulgação |
|
| Zuenir Ventura morou dez meses na favela do Vigário Geral |
No livro, Zuenir Ventura descreve dois mundos paralelos: o da favela, onde a violência impera; e o da sociedade, que se mobiliza em marchas pela paz. O autor faz o relato, por vezes pessoal, da situação de conflito deflagrado na cidade. E diz que a solução para o problema deveria ser a inclusão da população das favelas à sociedade.
Leia Trecho de "Cidade Partida"
*
Quando começo a atacar a suculenta sopa de entulho, sobre uma mesa tosca, aproxima-se um jovem mulato, alto, magro, que reconheço logo. Pouco antes, ao passar pela rua principal da favela, vira-o numa esquina com uma pistola na mão, explicando alguma coisa a alguém com a naturalidade de quem mostra um maço de cigarros. O que mais me chamara a atenção era o cano muito fino e demasiadamente longo da pistola, formando o que, para meu inexperiente gosto, era um deselegante design.
Não havia se mostrado constrangido quando nos aproximamos. Apenas encolheu a barriga, guardou a arma na cintura, estendeu a mão agora livre e disse 'satisfação'. Em seguida, andou alguns passos com o grupo, olhando para a frente, inteiramente desinteressado dos que seguiam ao lado.
'É um dos chefes do bicho', me haviam dito.
Só agora entendia o sentido que se dava ali à palavra bicho. À tarde, quando a ouvira pela primeira vez aplicada a um excêntrico crioulo que passava com um filhote de leão na coleira, achei que se tratava de alguém do jogo do bicho. Não, bicho é o mesmo que movimento, o mesmo que tráfico.
João - assim se chamava o traficante - aproximou-se de onde eu estava sentado, a meio metro do chão, numa cadeira improvisada. O volume da arma ficava na altura dos meus olhos, coberto por uma camisa de meia para fora da bermuda cinza. Nenhuma grife, nem no tênis branco. Ele tinha a mania de falar balançando os braços caídos, impulsionando-os até que as mãos espalmadas se tocassem na frente. Parecia fazer aquele movimento de braços que as torcidas fazem nos estádios, só que ao contrário, para baixo e tirando fino em um revólver.
Aquele magricela alto, de no máximo 22 anos, batendo palmas espaçadas, era uma representação do poder local. Se alguém tivesse dúvida, não precisava nem olhar para o alto relevo formado pela arma, sob a camisa, mas para seus olhos. A sua autoridade era exercida com o olhar. Ele sabe distribuí-lo com a parcimônia de uma concessão. Nesses quinze minutos de papo descontraído, ele só olhou para mim uma vez, lá de cima. Foi quando Zé lhe disse, apontando para mim: 'Ele conheceu o Raul'.
O jovem traficante se transformou e abandonou um pouco a pose. Aproveitei para lhe perguntar que música preferia, e ele desfilou o nome de umas quatro para demonstrar conhecimento. 'Mas a que eu gosto mesmo é 'Metamorfose ambulante'', respondeu finalmente, contando que o filho de pouco mais de um mês, quando começa a chorar, 'é só colocar uma música do Raul que ele dorme'.
Eu já devia esperar por aquilo. A paixão musical do jovem bandido tinha que ser Raul Seixas. Aliás, não só dele. Todo mundo na favela parece conhecer de cor as letras do Maluco Beleza. Raul já tinha sido responsável por uma situação muito engraçada dias antes, quando eu estava sentado na calçada de um botequim no Maracanã, o Loreninha, com jovens estudantes ou ex-estudantes da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.
Era o meu primeiro contato com o grupo de Vigário Geral e, para descontrair, resolvêramos conversar tomando cerveja naquele pé-sujo frequentado por eles. Havia uma galera de doze rapazes e moças: professores de biologia, uma recém-formada em pedagogia e um sociólogo.
Ao ouvir que a preferência musical de todos aqueles jovens era Raul Seixas, resolvi me mostrar dizendo que conhecera o compositor e que era amigo de seu principal parceiro, o escritor Paulo Coelho. Para quê? Eles se levantaram, começaram a bater palmas e a cantar: 'Viva a sociedade alternativa, viva a sociedade alternativa'.
Encabulado diante daquele grupo alegre, extrovertido, bagunceiro, começava a aprender que aquelas efusões exageradas eram comuns entre eles.
Agora, ali na quadra, a algazarra e os maus modos voltam a lembrar a cada instante que, se Dioniso era também o deus da bagunça, aquela era uma festa dionisíaca. O hedonismo dessa gente costuma incomodar o nosso bom gosto bem comportado. Uma lembrança é inevitável: a da entrevista de um dos participantes do famoso arrastão de 1992, um molecote de dezesseis anos:
- Por que vocês fizeram isso? - perguntou o repórter.
- De sacanagem. Pra arrepiar os bacanas.
O baile agora come solto, depois que o grupo local do Teatro do Oprimido apresentou o seu espetáculo sobre a falta de água na favela. Enquanto assisto à garotada dançar funk, alguém chega por trás e me sopra no ouvido:
- Diferente da geração de 68, né?
Nada mais me surpreendia, desde a descoberta da turma da UERJ - que, pela aparência, provocaria pânico se resolvesse descer junta numa praia da Zona Sul. Naquela noite do botequim, sentando à minha direita no chão, um rapaz miudinho falava o tempo todo, não deixando que eu prestasse atenção nos demais. Para fazê-lo calar-se, disse em tom de brincadeira:
- Você fala como intelectual, cara!
Ele olhou para mim e deu um sorriso que antegozava o efeito do que iria dizer.
- Intelectual, sim, mas orgânico, como diria Gramsci.
Era o sociólogo Caio Ferraz.
Agora aparecia ali na quadra esse outro inesperado rapaz, Valmir, falando de 68. A julgar pela amostragem, aquela favela era um antro de intelectuais.
Quem desfaz a ilusão logo é Renato, que está com Valmir. Ambos são amigos de infância de Caio. Os três nasceram por volta de 1968. 'Somos sobreviventes de uma geração que ficou quase toda no meio do caminho Éramos mil, hoje somos quantos?'
Ele, o autor dessas declarações, tem o físico e o pescoço grosso de um atleta. O rosto anguloso, largo, e a pele clara lembram um italiano de anúncio publicitário. Mas Renato nasceu e foi criado em Vigário Geral. Ali passou quase toda a juventude cuidando do Galinheiro, o abatedouro de aves do local.
Há três anos ele vive na Alemanha e está aqui de férias. A sua trajetória não é comum no lugar. Filho de um pai e uma mãe que já carregavam cada um três casamentos antes de se conhecerem, Renato tinha tudo para cair no tráfico, como a maioria de seus amigos. Aos quinze anos, ele lia o que lhe caía nas mãos, em geral jornal velho. Um dia viu o anúncio de um curso profissionalizante de teatro na Fundação Calouste Gulbenkian e se inscreveu.
Sua vida mudou. Estimulado pelos atores Marcos Antonio e Maria Teresa, que ministravam o curso, ele começou a ler Shakespeare e Brecht. "Lia e não entendia nada', ele confessa agora. Um ano depois, porém, já trabalhava numa montagem de Romeu e Julieta e em seguida descobria Nelson Rodrigues. Não parava de fazer cursos: de canto, dança, leitura dinâmica. 'Fazia tudo que pudesse aumentar meu repertório como artista.' Tinha dezessete anos quando fez concurso para a Escola Nacional de Circo, na praça da Bandeira. Passou, casou-se com uma colega de turma, formaram-se e receberam logo um convite para trabalhar na Alemanha.
Renato e Olga são artistas da Europa Park, espécie de Disneylândia de Baden-Baden. Trabalham como acrobatas, palhaços, equilibristas, parece que com sucesso. Já ganharam o suficiente para comprar dois apartamentos em Copacabana e uma casa para a mãe dele em Vigário, do lado de 'fora', na parte urbanizada.
Quando viu nos jornais alemães o noticiário da chacina com a foto dos mortos, teve um choque: 'Dos 21 assassinados, eu só não conhecia um'. Ele vai lembrando: 'Edmílson, o que morreu carregando a marmita, estudou comigo três anos; o Clodoaldo acampava comigo, o Amarildo era meu companheiro'.
Renato é o mais velho de sete irmãos. Um deles, irmão por parte de mãe, se envolveu com drogas e foi assassinado por traficantes de maneira tão atroz que ele não gosta de recordar. 'Pra você ver: ele era o que sempre teve melhores condições financeiras. Nem na favela morava, morava com o pai, que era de classe média', diz Renato sem encontrar explicações para a opção do irmão. Pelo menos nesse caso, não se pode dizer que as motivações eram sociais.
Às onze horas, alguém avisa: 'Olha lá, os caras já chegaram'. A passarela que liga as duas partes de Vigário Geral, sobre a linha férrea, fica quase em cima da quadra. Seu verde exagerado parece querer compensar a falta dessa cor na paisagem local. Além de principal entrada, é um ponto estratégico. De lá é fácil atingir com um tiro qualquer um que esteja na quadra. De baixo, só se vêem lá em cima, na escuridão, alguns vultos empunhando armas. Aquela cena se repete desde a chacina. Eles chegam mais ou menos às onze horas e ficam até de madrugada. São soldados da PM que estão ali a pretexto de proteger a comunidade. Em tese, seria para evitar uma nova chacina.
A PM lá em cima como se estivesse numa torre tomando conta de um campo de concentração, os traficantes ali ao lado do orelhão, armados, os aviões passando tão baixo e os trens tão perto que os ruídos se confundem, o funk fazendo a trilha sonora - tudo isso lembra uma montagem pós-moderna feita com pedaços incongruentes de vários mundos e épocas.
Todos são revistados ao entrar ou sair. Nessas ocasiões, as agressões policiais são comuns. A adolescente negra, bonitinha, que há pouco interpretava um dos papéis principais na peça do Teatro do Oprimido, foi bolinada na véspera quando era revistada. O rapaz, na rodinha, conta com bom humor que levou dois tapas na cada de um PM. 'Em vez de me dar por satisfeito, resolvi reagir. Aí levei uma surra', relata rindo.
À meia-noite, resolvemos ir embora. Subimos lentamente os 45 degraus e fomos parados pela patrulha de quatro PMs postados na ponta da passarela. Zé, com seu jeito de hippie deslocado no tempo, pobre e feio, é logo barrado. Ele já perdeu a conta das vezes em que, ao se identificar como professor de biologia, despertou reações como esta: 'Tenente, esse moleque aqui tá dizendo que é professor, que que eu faço com ele?'.
Nessa noite, o soldado já tinha enfiado a mão na bolsa que Zé carrega sempre a tiracolo - um modelo de pano, colorido e cheio de franjas que a mãe fabrica especialmente para ele - quando o chefe do policiamento deu uma contra-ordem e mandou que seus subordinados suspendessem a revista. Alguma coisa o fizera mudar de ideia. Talvez ele tivesse percebido que aqueles quatro rapazes - Valmir, Renato, Rogério e Zé - não formavam propriamente um grupo de desordeiros, com aquele burguês careca no meio.
*
"Cidade Partida"
Autor: Zuenir Ventura
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 280
Quanto: R$ 38,80 (preço promocional, por tempo limitado)
Onde comprar: Pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha
Leia mais
Especial
Livraria