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17/11/2015 - 10h14

Biografia de Angela Maria recorda carreira e vida pessoal da cantora; leia trecho

da Livraria da Folha

Um dos grandes nomes da música brasileira, Angela Maria teve uma carreira longínqua: foram 65 anos ininterruptos de gravações e apresentações. A cantora também colecionou recordes ao longo da vida: milhares de discos vendidos, mais de 50 canções no topo das paradas, centenas de troféus e mais de 250 capas de revistas. Isso sem contar as inúmeras críticas que eram publicadas semanalmente na imprensa.

Divulgação
Cantora sobreviveu aos mais diversos modismos musicais e tornou-se um mito da cultura nacional
Biografia conta como cantora sobreviveu aos mais diversos modismos musicais e tornou-se um mito da cultura nacional

"Angela Maria: A Eterna Cantora do Brasil", biografia escrita pelo jornalista Rodrigo Faour, recorda os principais momentos da vida da artista. Sem deixar de lado os anos de glória como cantora mais popular do Brasil - e com o maior salário do rádio de sua época -, o autor revela como Angela Maria enfrentou uma infância miserável e uma terrível resistência dos pais religiosos.

O livro também traz informações sobre a vida pessoal da cantora, que, embora tenha sido ludibriada por maridos-empresários, conseguiu dar a volta por cima, superar as dificuldades (inclusive os modismos musicais) e tornar-se um mito da cultura nacional.

Rodrigo Faour também assina biografias de Dolores Duran, Cauby Peixoto e Claudette Soares. O livro "História Sexual da MPB", um estudo pioneiro sobre a evolução do comportamento cancioneiro brasileiro, originou um programa de TV no Canal Brasil. Ele é consultor do novo Museu da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro.

Abaixo, leia um trecho do livro.

*

De Abelim a Angela
[1929 1951]

Se a árvore genealógica da família de Angela Maria tivesse um nome, poderia ser o do próprio Pau-Brasil, pois nenhum seria mais representativo de nossa gente. Sua avó paterna, Rita Maria, era negra vinda da África e - naturalmente - escrava (posteriormente liberta). Já o avô, Marcos José, era português. Por sua vez, o avô materno, Belizário, era neto de alemão, e a avó, Idalina, índia. É claro que deu caldo! Daí surgiu uma família de mestiços, com várias nuances de tipos físicos e tons de pele. Ela é fruto, portanto, da mais perfeita união das raças brasileiras - branco europeu, negro africano e índio nativo. Deus sabe o que faz. É algo bem simbólico para alguém que, pouco antes de completar 22 anos, seria uma das vozes mais identificadas com a alma popular brasileira.

Foi na região norte do estado do Rio de Janeiro que nasceu Angela Maria - sendo registrada num lugarejo hoje chamado de Conceição de Macabu, na época ainda pertencente ao município de Macaé. Aliás, Angela não. Abelim Maria da Cunha. Foi em 13 de maio de 1929. Morena com traços de mulata, ela nasceu exatos 41 anos após a Abolição da Escravatura, no seio de uma família bastante pobre, retrato de um país ainda extremamente racista, com muito mais diferenças sociais que hoje e poucas chances de ascensão social para uma pessoa de posses modestas.

Décima filha do casal Albertino Coutinho Cunha (24/8/1886-15/8/1963) e Julita Maria da Cunha (16/5/1895-21/5/1979), era a sétima do sexo feminino que nascia (depois ainda nasceria outra, Arlete, a única com um nome mais, digamos, tradicional). É que ao todo eram onze e, salvo a caçula, seguindo um hábito de muitas famílias humildes brasileiras, tiveram a ideia de batizar os filhos com nomes parecidos. No caso, nomes bíblicos iniciados em "Ab". Começando por Abimael, o mais velho, que faleceu ainda pequeno, seguido de outros dez rebentos: Abigail (a mais velha), depois Abiail (Hila), Abiadil (Guinha), Abdnar, Abdiel (o filho homem mais velho que vingou), Abiadina (Dina), Abiezer (Zezé), Abdil (Adinho), a nossa Abelim e, finalmente, Arlete, a única que não teve um "B" depois do "A".

Imaginem a confusão que até hoje os irmãos fazem para se referir uns aos outros com nomes tão semelhantes! Mesmo com os respectivos apelidos, às vezes eles próprios se enrolam, mas se divertem também!

Quem conheceu "Ziquinha", "Lim", "Mulherzinha" e "Neguinha" - estes eram seus apelidos sapecas na infância - jamais poderia imaginar o que lhe reservava o destino. Até porque, além de pobrezinha, Abelim tinha a língua presa e falava de um modo gozado. Às vezes os parentes chamavam as pessoas para ouvi-la falar do seu jeitinho particular e riam muito. Mas, mesmo assim, ela gostava de recitar versinhos de criança: "Sou pequenina, da perna grossa / Vestido curto, papai não gosta."

O irmão Abdiel, que veio ao mundo em 5 de setembro de 1923, portanto seis anos antes de Abelim, conta que inicialmente a família morava num trecho da fazenda do coronel Picanço, espécie de xerife daquela região de São Fidélis - situada a 335 km ao norte da cidade do Rio de Janeiro, às margens do rio Paraíba do Sul, próximo a Campos dos Goytacazes. "Cheguei a ser candeeiro de boi, aquele que vai na frente da boiada com uma vara comprida comandando o gado", diz. "Esse coronel mandava em tudo, o que ele dizia era para ser seguido. Naquela época, trabalhador não recebia dinheiro, apenas um vale para fazer compras. E a gente morava num corredor de casas de tijolos, com chão de terra batida, dentro da fazenda. Eram várias casinhas, umas do lado das outras."

Um parêntese: a irmã mais velha, Abigail, também morava nas terras dessa fazenda do coronel Picanço, e seu marido trabalhava para ele na lavoura.

"Alguns anos depois é que fomos morar em Puca, do outro lado da ponte, num lugarejo de São Fidélis", conclui Abdiel.

Nascida quatro anos depois de Abdiel e dois anos antes de Abelim, em 11 de maio de 1927, Zezé (Abiezer, pronuncia-se "Abiezér") explica que todos os irmãos nasceram e passaram boa parte da infância em São Fidélis, a cerca de 80 km de Macaé, na beira do rio Paraíba do Sul. O motivo pelo qual Abelim (Angela) foi registrada em outra cidade é um mistério que nenhum dos parentes vivos sabe explicar.

Seu pai morava num casebre com a mulher, ela (Zezé), Abelim (Angela), os irmãos Abdiel e Abdil e a recém-nascida Arlete. "Angela, já pequenininha, gostava de cantar. Naquela época não tinha água encanada em casa, as pessoas costumavam lavar a louça na beira do rio. Como ela via as senhoras fazendo isso, cismava que tinha que levar também a bacia pra beira do rio pra lavar a louça. Pegava então uma das menorzinhas que achava e ia pra lá também, cantando uma música que nunca me esqueci: 'A mulatinha do cabelo sarará / Quando ela passa começa a se requebrar...' A gente saía correndo atrás dela... Mamãe brigava porque era perigoso mesmo, ela podia cair no rio e até morrer porque tinha uns três aninhos", ri.

"A gente morava numa casinha. Para dizer a verdade, era um barraco na beira do rio", continua Zezé. Apesar de o pai ter uma rocinha de feijão no quintal da casa, a família não morava exatamente no meio da roça como sua irmã Abigail. "Era num bairro de São Fidélis, já não era no território do coronel Picanço. A gente tinha que atravessar uma ponte para chegar à cidade. Morávamos do lado do rio, devido à pobreza. O comércio assim era longe. Era preciso caminhar um bocado para chegar."

Outra lembrança de Zezé é que Abidil - cujo apelido é Adinho - e sua irmã famosa eram muito ligados e levados. "Eles pintavam! Ela gostava muito desse nosso irmão, e eram mesmo da pá virada! [Risos.] Uma vez, tinha uma feira perto de casa, eles pegaram aquela linguiça que vem em gomos e saíram correndo, e o dono quando percebeu veio atrás deles. Quando chegaram em casa, a nossa mãe ficou uma fera. Nessa época era surra na base do chinelo e cinto. Mas tanto eu quanto os mais levados a respeitávamos muito. Só um olhar da minha mãe ou do meu pai era o suficiente pra gente saber se estávamos ou não agradando", relembra. Já Abdiel - que também foi levado - concorda com Zezé em relação à autoridade deles e conta que levou muita surra tanto do pai quanto da mãe. "Minha mãe era a melhor mãe do mundo. Realmente, bastava um olhar só dela e acabou, a gente ficava quieto. Surra de mãe era na base do chinelo, agora de pai era na base da correia dobrada ou vara de marmelo. Apanhei muito. Quando a coisa era séria, um começava e outro terminava", ri.
[...]

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ANGELA MARIA: A ETERNA CANTORA DO BRASIL
AUTOR Rodrigo Faour
EDITORA Record
QUANTO R$ 68,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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