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05/08/2018 - 16h13

Manual do mau jornalismo, 'Número Zero' é último livro publicado de Umberto Eco

da Livraria da Folha

A história de "Número Zero", de Umberto Eco, gira em torno de um grupo de redatores que prepara um jornal com o objetivo de chantagear, difamar e prestar serviços duvidosos ao editor.

Divulgação
Trama gira em torno de um grupo de redatores que prepara um jornal com o objetivo de chantagear, difamar e prestar serviços duvidosos ao editor
Trama gira em torno de um grupo de redatores que prepara um jornal com o objetivo de difamar e chantagear

Ambientada em 1992, a trama traz uma aventura que se desenrola na Europa do fim da Segunda Guerra Mundial até os dias de hoje.

No livro, fatos concretos como a loja maçônica P2, o assassinato do papa João Paulo I, o golpe de Estado de Junio Valerio Borghese, a CIA e os terroristas vermelhos manobrados pelos serviços secretos são recontados por um redator paranoico, vagando por Milão, que reconstitui 50 anos de história sobre o cenário diabólico do cadáver de um pseudo-Mussolini.

O livro, considerado um manual do mau jornalismo, provoca o leitor, que pode não conseguir determinar se os fatos apresentados são inventados ou a descrição da realidade.

Reconhecido pela crítica como um mestre do romance histórico, Umberto Eco nasceu em Alexandria, na Itália, no dia 5 de janeiro de 1932. Escritor e teórico, ele foi professor de semiótica na Universidade de Bolonha, dedicou-se a estudos sobre a filosofia da linguagem, teoria literária e sociologia da cultura. O autor morreu na sexta-feira (19), aos 84 anos, em Milão. A causa da morte não foi revelada.

O italiano ganhou popularidade mundial graças ao livro "O Nome da Rosa", que teve mais de 10 milhões de cópias vendidas e foi traduzido para cerca de 30 línguas. O livro é primeira obra em que colocou em prática suas teorias sobre a literatura, tendência que permaneceria em seus outros romances. O romance foi adaptado para o cinema em 1986 com Sean Connery e Christian Slater no elenco.

O escritor não era grande fã da adaptação. Em 2011, ele afirmou ao jornal inglês "The Guardian": "Um filme não pode fazer a mesma coisa que um livro. Um livro como aquele era um sanduíche com peru, salame, tomate, queijo e alface. Mas o filme precisa escolher só o queijo e o alface, eliminando todo o resto: o lado teológico, o lado político etc".

Umberto Eco também assinou "História da Beleza", "Cemitério de Praga", "Histórias das Terras e Lugares Lendários", entre outros.

Abaixo, leia um trecho de "Número Zero".

*

Hoje de manhã não saía água da torneira.

Blop blop, dois arrotinhos de recém-nascido, mais nada.

Bati na porta da vizinha: na casa dela, tudo normal. Deve ter fechado o registro geral, disse ela. Eu? Não sei nem onde fica, faz pouco tempo que moro aqui, sabe, e volto para casa só à noite. Meu Deus, mas quando o senhor viaja uma semana não fecha a água e o gás? Eu não. Mas que imprudência, me deixe entrar, vou lhe mostrar.

Abriu o gabinete da pia, mexeu em alguma coisa, e a água chegou. Está vendo? Tinha fechado. Desculpe, sou tão distraído. Ah, vocês, single! Sai de cena a vizinha, mais uma que agora fala inglês.

Nervos sob controle. Não existe poltergeist, só em filme. E não é que eu seja sonâmbulo, porque mesmo se fosse sonâmbulo não saberia da existência daquele registro, senão o teria usado desperto, porque o chuveiro vaza e estou sempre correndo o risco de passar a noite em claro, ouvindo o tempo todo aquela goteira, parece que estou em Valldemossa. Na verdade, muitas vezes acordo, me levanto e vou fechar a porta do banheiro e a outra, entre o quarto e a entrada, para não ficar ouvindo aquele pinga-pinga danado.

Não pode ter sido, sei lá, um contato elétrico (o manípulo do registro, como diz a própria palavra, funciona manualmente), nem um rato, que mesmo se tivesse passado por lá não teria força para movimentar o bregueço. É uma roda de ferro das antigas (tudo neste apartamento conta no mínimo cinquenta anos), ainda por cima enferrujada. Portanto, era preciso uma mão. Humanoide. E não tenho chaminé por onde pudesse passar o orangotango da rua Morgue.

Raciocinemos. Cada efeito tem uma causa, pelo menos é o que dizem. Descarto o milagre, não vejo por que Deus se preocuparia com o meu chuveiro, nem é o mar Vermelho. Logo, para efeito natural, causa natural. Ontem à noite, antes de me deitar, tomei um Stilnox com um copo d'água. Logo, até aquele momento ainda havia água. Hoje de manhã já não havia. Logo, meu caro Watson, o registro foi fechado de madrugada - e não por você. Alguma pessoa, algumas pessoas estiveram em minha casa e recearam que eu despertasse não com o barulho delas (seus passos eram abafadíssimos), mas com o prelúdio da goteira, que também as incomodava, e elas talvez até se perguntassem como é que eu não acordava. Portanto, sendo espertíssimas, fizeram o que a minha vizinha também teria feito, fecharam a água.

Que mais? Os livros estão arrumados na sua desordem normal, os serviços secretos de meio mundo poderiam ter passado por aqui, folheando página por página, e eu não teria percebido. Bobagem olhar as gavetas ou abrir o armário da entrada. A quem queira descobrir algo hoje em dia, só há uma coisa a fazer: vasculhar o computador. Para não perderem tempo, talvez tenham copiado tudo e voltado para casa. E só agora, depois de abrirem mil vezes cada documento, perceberam que no computador não havia nada que pudesse interessar-lhes.

O que esperavam encontrar? É evidente - quero dizer, não vejo outra explicação - que procuravam algo referente ao jornal. Não são burros, terão achado que eu deveria ter feito anotações sobre todo o trabalho que estamos fazendo na redação - e que, se sei alguma coisa sobre o caso de Braggadocio, devo ter escrito em algum lugar. Agora terão imaginado a verdade, que guardo tudo num disquete. Naturalmente esta noite também terão visitado o escritório, e disquete meu que é bom não acharam nenhum. Portanto, estão concluindo (mas só agora) que devo guardá-lo no bolso. Imbecis que nós somos, estarão dizendo, deveríamos ter procurado no paletó. Imbecis? Babacas. Se fossem espertos não acabariam fazendo serviço tão porco.

Agora tentarão de novo, e pelo menos até a carta roubada hão de chegar, mandam uns falsos punguistas me roubar na rua. Por isso, preciso ser rápido antes que tentem outra vez, enviar o disquete para um endereço de posta-restante e depois vejo quando o retiro. Mas cada bobagem que me passa pela cabeça, já mataram um e Simei deu no pé. Para eles não adianta saber se eu sei e o que sei. Por via das dúvidas me eliminam, e a coisa acaba aí. Nem posso ir pôr nos jornais que daquele caso eu não sabia nada, porque só de dizer isso já mostro que sabia.

Como foi que eu acabei nesta embrulhada? Acho que a culpa é do professor De Samis e do fato de eu saber alemão.

*

NÚMERO ZERO
AUTOR Umberto Eco
TRADUTOR Ivone Benedetti
EDITORA Record
QUANTO R$ 38,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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