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04/07/2011 - 10h00

Alemã cria polêmica ao escrever usando partes de outras obras

da Livraria da Folha

Helene Hegemann estreou na literatura em 2010, com apenas 17 anos. Rapidamente ela conquistou o sucesso, tendo seu livro entre os mais comentados e comprados em seu país, a Alemanha.

Divulgação
Escritora rebateu acusações dizendo fazer intertextualidade
Escritora rebateu acusações dizendo fazer intertextualidade

O romance "Axolotle Atropelado", somado a pouca idade da autora, seria suficiente para atrair os olhares. Sua narrativa mistura o que realmente acontece com a protagonista e seus delírios ocorridos por conta do abuso de todo o tipo de drogas e álcool.

Pouco tempo depois de seu lançamento, o título foi ofuscado pela acusação de plágio. Helene respondeu publicamente que havia sim pego trechos de outras obras, além de músicas e diversas outras referências.

A jovem escritora defende que não fez plágio, mas sim o que no meio musical chama-se de sampler. Basicamente, trata-se de pegar algo pré-existente, seja letra ou melodia, e remodelá-la em um novo arranjo ou com nova letra.

Helene continuou a participar de prêmios e obteve mais visibilidade após a polêmica, mas abriu um debate a respeito de até onde vai a intertextualidade e onde começa o plágio.

Leia abaixo um trecho de "Axolotle Atropelado" :

*

Ok, a noite, de novo uma luta contra a morte, os farrapos de um sono torturado pelo medo, meu quarto de criança estremecido por orquestras regidas pelo destino e todas aquelas vozes de invasores no pátio dos fundos, gritando o meu nome sem parar. Nenhum barulho das ruas principais e nenhum gemido de monstros sofredores, tão feios e fortes, recém-libertados das suas amarras. Somente as claves da escuridão absoluta, os guinchos na cabeça, um tamborilar não ritmado, que merda. Antes tudo jorrava como vômito adolescente e agora é literatura suada.

Acordo desorientada, às quatro e meia da tarde, enrolada num lençol e acima de tudo, antes de tudo, entediada comigo mesma. Me encolho. Não sei como, tem sangue escorrendo do meu ouvido direito, trançando-se como uma coroa de louros na minha testa. Ilumina-se à minha frente algo que descubro ser a feiura da alta sociedade: dois cigarros, duas carreiras de ritalina que, por medida de higiene, foram cheiradas com uma nota fiscal em vez de usarmos notas de dinheiro, queijo parmesão ralado e uma suposta depressão nervosa de proporções preocupantes, causada provavelmente pela quetamina. Há vários meses tenho os sonhos mais loucos sobre diagnósticos de câncer. Não são pesadelos, mas algo que vai mais fundo, e sempre acordo aos gritos, porque são tantos os pensamentos que não dá mais para distinguir os meus dos pensamentos alheios. Diante de tantos excessos gastrointestinais aliados a surtos de medo, quero me jogar do terceiro andar, as em vez disso ligo a tevê na RTL II á passando um programa irado sobre animais. O programa termina como se fosse um episódio de televisão louco. De repente aparece um chacal esperto e depois mostram a manada de fuinhas que é quase dilacerada pelo chacal numa cena inteira. E o telespectador pensa cheio de amor: pois é, Deus me perdoe, mas essas merdas dessas fuinhas são tão estúpidas que de alguma maneira não mereciam nada mais do que virar comida de chacal.

Consigo me masturbar assistindo a filmes pornô hardcore de qualidade superior ou então olhando primeiro para as unhas dos dedos da mão e depois para o espelho. Meus apêndices cutâneos se transformaram num encadeamento de eczemas incrustados e os meus cílios estão caindo.

Neste instante tudo volta a ficar em silêncio.

Não um sopro de sociabilidade com o qual se abre uma rota marítima firme, mas apenas um sóbrio vento de merda de início de verão. Não fui à escola. Cinco minutos antes do intervalo do almoço eu estava debaixo das cobertas, com um medo mortal, taquicardia e a cada passo lutando contra a dor de cabeça que ricocheteava dentro do meu crânio, se bem que, na verdade, naquele momento eu deveria estar pensando:

Tudo bem, hoje, só pra variar, vou ter contato com um tomate, afinal tenho que retirá-lo do meu sanduíche, no qual foi enfiado por um progenitor cioso de sua responsabilidade.

Uma hora depois do término das aulas estou de pé em frente ao espelho, de pernas abertas, no fluxo vazio das lembranças do sorriso empapado de suor da noite anterior e da força daqueles ritmos dançantes repetitivos que surge de suas próprias cinzas.

Quero construir um orfanato no Afeganistão e ter muitas roupas. Não necessito apenas de comida e de um teto sobre a minha cabeça, preciso de três mansões com acabamento em branco titânio, totalmente mobiliadas, até onze prostitutas diariamente, pelo menos, um uniforme soviético felpudo e da Chanel, chique, envolvente, que recorde a elegância dos dourados anos 1920. Assim, deixam de existir expressões do tipo experiência própria e borderline. E não existe ninguém que aja como se te conhecesse melhor do que você mesma, pois tudo o que conta é o dinheiro. E agora nós temos. De repente, percebo como todos olham para mim. Vou para a varanda, fumando o quinto cigarro, e encho a cara simplesmente até que o dinheiro finalmente tenha ido todo embora. Minha existência é composta momentaneamente por ataques de tonteira e pelo fato de que ela foi meio dilacerada por uma instalação de tetas de vaselina, hiper-real, mas um pouco maldiluída por Rohypnol.

Digo:

- Assim que começarmos a fazer algo pelos outros e não para nós mesmos, nos libertamos da nossa prisão interior. Alice se odeia, mas isso é que é legal, vejo que ela está pirando e ficando cada vez mais autodestrutiva. Tenho muito medo de que um dia, de repente, eu não consiga mais raciocinar. Quero fazer tudo para poder continuar a te conhecer. Se você não quiser mais foder comigo, tudo bem. Você sumiu da minha vida. Não significa que eu vá ficar aqui o tempo todo, me autoatormentando com autorreflexões, não faço ideia, na verdade deveria existir alguma outra coisa, um momento irracional, um daqueles momentos nos quais você me encara, imóvel, com esses olhos totalmente sem cor, e sempre vejo neles que você fica pensando quantas pessoas estão agora entre nós. Você ainda se lembra disso? Como precisávamos sempre pensar quantos metros nos separavam uma da outra? E como eu te disse, em algum momento, quando finalmente ficamos a sós, o quanto aquilo era perfeito para mim? Aqueles momentos em que ficamos olhando para o mar. Que eram tão perfeitos que eu nem precisava desfrutá-los. Sinto que estou enlouquecendo. Não consigo mais distinguir entre sonhos e o que você chama de realidade. Porque tudo parece ser igual. O vento, sua pele, tudo o que é tridimensional.

Debaixo do chuveiro, gotas, que tentam atingir a forma esférica pela influência da tensão superficial, batem em mim em câmera lenta.

Ao contrário do que se supõe, uma gota d'água não tem em momento algum o formato de uma gota, aquela bosta bidimensional que é redonda de um lado e termina pontuda no outro.
Para me secar, arranco um lençol turquesa de um grande cesto de roupa suja, onde ficou por dois meses com duas peças de roupa totalmente vomitadas. Será que esse vômito é de um completo desconhecido, que me surpreendeu num banheiro unissex bem movimentado? Será meu esse vômito? Será que isso me aproxima de mim mesma de alguma maneira? Pelo jeito estou realmente começando a esquecer os detalhes mais importantes.

Estou em pé no corredor, numa depressão mortal, em cima de um tapete meio verde acinzentado, imundo, coalhado de buracos de brasa e deixado ali por algum motivo incompreensível em tempos imemoriais. Meu Deus, é tudo um horror.

1. Perdi a minha história de retalhos, marcada por sexo anal, lágrimas e violação de cadáveres.

2. Estou com uma inflamação em carne viva na garganta.

3. Minha família, um monte de pessoas afundadas ainda em alguma fase onipotente da primeira infância, com mania de aparecer. Num caso mais extremo, redigem um texto pop-cultural sobre a pergunta por que a vanguarda apesar disso faz a dança do ventre, mas seria só isso.

*

Axolotle Atropelado
Autor: Helene Hegemann
Editora: Intrínseca
Páginas: 208
Quanto: R$ 39,90
Onde comprar: Pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

 
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