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06/02/2016 - 09h00

Leia prefácio de 'Em Defesa do Preconceito' escrito por Reinaldo Azevedo

da Livraria da Folha

Divulgação
Para Dalrymple, o ideal é aceitar que todos sejamos livres-pensadores, questionando tudo aquilo que aprendemos
Para Dalrymple, o ideal é aceitar que todos sejamos livres-pensadores, questionando tudo aquilo que aprendemos

No livro "Em Defesa do Preconceito", o psiquiatra e escritor britânico Theodore Dalrymple defende a necessidade de também termos ideias preconcebidas, apontando que a verdadeira razão para o surgimento desse ideal de liberdade de pensamento é que não queremos ter nossas ações restritas.

Ele explica que, influenciados pelo racionalismo de Descartes e Mill, rejeitamos qualquer autoridade sobre nosso comportamento moral, seja essa autoridade a religião, a história ou as convenções sociais. Consequentemente, isso faz com que percamos importantes reguladores de comportamentos antissociais.

Dalrymple é conhecido por discutir temas polêmicos. Em "Nossa Cultura...ou o que Restou Dela", ele apresenta sinais da degradação do Ocidente, da política à literatura, em 26 ensaios que abordam o colapso dos valores e o significado de barbárie e como ela invadiu o Ocidente.

Abaixo, leia o prefácio completo do livro. O texto foi escrito por Reinaldo Azevedo, que assina "Objeções de um Rottweiler Amoroso" e "O País dos Petralhas 2".

*

O Preconceito Faz do Lobo o Homem do Lobo
Reinaldo Azevedo

Mesmo o leitor que já conhece Theodore Dalrymple, um dos pseudônimos do inglês Anthony Daniels, vai se surpreender com a força de "Em Defesa do Preconceito". É um daqueles livros que reorganizam a nossa experiência. Impossível enxergar do mesmo modo alguns temas da cultura e da política depois de passar por seus 29 pequenos e precisos ensaios, numa prova de que a profundidade não é incompatível com a concisão.

Muitos de nós conhecemos o Dalrymple de Nossa Cultura... ou o que Restou Dela, A Vida na Sarjeta - O Círculo Vicioso da Miséria Moral e Podres de Mimados - As Consequências do Sentimentalismo Tóxico, todos publicados por esta notável É Realizações, que faz um trabalho civilizatório no país ao pôr para circular livros e autores que o obscurantismo politicamente correto havia resolvido banir do nosso universo de referências.

O autor daqueles três livros está aqui presente, com seu humor ferino, sua ironia sempre delicada, um olhar desconfiado para as verdades estabelecidas por coletivos, a prosa atraente de quem quer ser compreendido, o inconformismo de quem prefere provocar o dissenso a ser aceito - características todas que fazem dele um pensador raro e essencial no nosso tempo. Mas este livro é um pouco diferente.

Crente na máxima latina segundo a qual verba mouent, exempla trahunt - as palavras movem, mas os exemplos arrastam (ou empurram) -, Dalrymple ancora, naqueles outros textos, percepções, provocações e releituras na sua experiência de psiquiatra que conheceu a face pobre da dor de existir - na Inglaterra ou em países da África. As pessoas que vivem mais ou menos à margem do sistema produtivo o levaram a questionar as deformações geradas pelas generosidades viciantes do estado contemporâneo.

Desta feita, é um pouco diferente. "Em Defesa do Preconceito" submete ao olhar clínico da razão os comportamentos e escolhas dos que estão do lado de cá da linha, tocando a máquina do mundo; dos que não vivem da caridade pública e sustentam a tal máquina viciosa; das pessoas, em suma, normais e socialmente integradas.

E notem que escrevo essas palavras sem apelar àquela prática hedionda que consiste em enjaular os vocábulos em aspas para tentar lhes mudar, inverter ou relativizar o sentido. Sim, existe um senso de proporção, de razoabilidade e de plausibilidade, que plasma esse universo da normalidade, sem o qual a vida em sociedade se torna impossível. Existe, mas está sob permanente ataque. O homem contemporâneo é convidado todos os dias a abandonar as ideias preconcebidas que o livram do caos e de um mundo sem hierarquia.

São os preconceitos, leitores, que fazem do lobo o homem do lobo.

Só podemos dispensar o monstro leviatânico porque decidimos partilhar alguns conhecimentos preconcebidos até mesmo sobre a nossa própria natureza. Pensem no desastre civilizatório que adviria de cada homem exercitar a própria vontade e se entregar a seus impulsos.

A estupidez da xenofobia, da misoginia e do racismo, entre outros medos, ódios e estereótipos negativos, tornaram-se sinônimos de "preconceito". Como aprendemos, em boa hora, que tais manifestações são moral e eticamente condenáveis, então o nosso norte passou a ser não ter preconceito nenhum. E foi assim que um saudável senso de justiça e de igualdade acabou abrindo a vereda para a terra do vale-tudo, como a xícara trincada de chá do poema de Auden (1930-1997) conduzia à terra dos mortos: And the crack in the tea-cup opens / A lane to the land of the dead.

Há uma possibilidade de você estar lendo este prefácio na livraria, para saber se vai ou não levar o livro. Sugiro uma rápida vista d'olhos nos títulos dos pequenos ensaios. Dalrymple está falando com você, escrevendo para você. São as ideias que você, seus amigos e familiares expressam na escola, em casa, no trabalho e em reuniões sociais que serão submetidas a um teste de estresse lógico, histórico e filosófico. Sem nunca abandonar o didatismo exemplar, este é um livro de ideias. Por isso, ele tem um caráter estruturante, que ajuda a conformar o pensamento. Se os exemplos são sempre muito convincentes, os conceitos é que sobrevivem para formar a história do pensamento.

É difícil fazer uma hierarquia dos ensaios. Parece-me que aqueles - do XI ao XVIII - em que ele disseca o pensamento de John Stuart Mill, expresso no tratado "Sobre a Liberdade", atingem o estado da arte. Dalrymple considera Mill uma das fontes inspiradoras do "preconceito contra o preconceito", um "dos padrastos das ideias ruins", citando Lorde Acton. Para o autor, "toda a política social ocidental resume-se a uma espécie de notas de rodapé em Mill, mas cujas consequências ele não teria de modo nenhum aprovado". E é preciso ler o livro para entender por quê.

Mill é a origem, ainda que os contemporâneos não saibam disso, de boa parte dos enganos e desenganos tanto das novas esquerdas quanto de certa crença cega no individualismo que se pretende libertário. Ora, na trilha de Mill, de um lado e de outro, vemos a pregação da soberania da vontade nas questões que, aparentemente ao menos, dizem respeito apenas à pessoa.

Os que sustentam, por exemplo, que "uma mulher é o Rei Sol do seu próprio corpo" (a expressão é de Dalrymple) para defender o direito ao aborto se esquecem, é claro, de que o feto - e isso não depende da vontade nem é matéria de mera opinião - não é apenas parte do seu corpo, "mas um ser distinto, em formação". E ele ironiza: "Até que a partenogênese se torne regra", o feto é produto de outra pessoa também. E o ensaísta lembra que, num mundo minimamente decente, é certo que, quando menos, o pai também tenha direito a uma opinião.

O autor disseca a bobagem influente que Mill nos legou como herança, segundo a qual o costume obstrui o progresso e o desenvolvimento moral, de sorte que a rebeldia passa a ser vista como um bem em si, independentemente dos postulados sobre os quais esteja assentada e de qual seja o seu propósito.

Ora, se toda verdade deve ser questionada, também essa sentença não pode escapar do que enuncia e, pois, anuncia uma verdade acima de questionamentos. É possível sair desse paradoxo cretino estabelecendo uma hierarquia das perguntas e das contestações. Num laboratório ou na vida, nem todas as questões são pertinentes; nem todas as verdades estabelecidas são falseáveis. Há, desde sempre, a categoria das hipóteses e dos dissensos que nem errados conseguem ser. A tessitura que nos permite acordar todos os dias equipados para enfrentar o mundo, não como sonâmbulos da tábula rasa, nos é dada, evidencia Dalrymple de maneira magistral, pelos preconceitos, pelas ideias preconcebidas.

No capítulo XVII, com brilhante simplicidade, o autor disseca o espinhoso tema dos direitos. Ele aponta uma deformação do pensamento, cuja raiz é Mill, "que torna tudo o que não é proibido um direito", pois, "obviamente, a pessoa terá o direito de fazer aquilo que ninguém tem o direito de proibir". E ele emenda: "De súbito, o mundo fica repleto de direitos, e novos direitos são descobertos todos os dias (...)".

Ora, não é o que se vê na Inglaterra de Dalrymple ou em nossa terra? Ele aponta duas distorções hoje evidentes. A primeira se revela com a transformação do direito negativo em direito positivo. Cito o exemplo dado por ele: o fato de ninguém poder proibir uma mulher de ter um filho se transforma no direito a um filho, independentemente do quanto isso possa custar à sociedade e ao sistema de saúde. Qualquer restrição ao tratamento contra a infertilidade é vista como uma agressão, como se uma fertilidade original houvesse sido solapada do casal, pela qual a sociedade deve necessariamente responder. Vivemos a era do "quero, logo tenho o direito". Ou, digo eu, "quero, logo existo".

A segunda deformação decorrente do direito como exercício da vontade, para "satisfazer os egos", é o que Dalrymple chama de "negação da reciprocidade limitadora". Em que consiste? Um direito só pode ser experimentado como tal se for exercido sem limites. O seu vizinho tem o direito de ouvir música e sabe que você não pode impedi-lo. Mas ele só experimenta o pleno gozo desse prazer discricionário se ignorar a sua existência. Na equação, inexiste o outro; nada há à direta do sinal de igualdade.

Ora, transportemos essas questões para a política. Parece-me certo e prudente que defendamos o direito de todos a um julgamento justo - isto é, conforme as regras que são de domínio público. Eu lhe proponho uma questão, leitor, e talvez você encontre respostas neste livro.

Um terrorista que resolva usar a favor de sua causa o nosso sistema judicial, sem qualquer compromisso com a "reciprocidade limitadora" - e que, portanto, use as garantias individuais com que fizemos o melhor de nós mesmos com o objetivo de solapar as bases da nossa cultura de tolerância -, merece ter os benefícios aos quais ele próprio poria fim se chegasse ao poder? Ou ainda: é justo que ele tente nos eliminar em nome de seus valores, contando, para tanto, com as garantias que lhe oferecemos em nome dos nossos?

A resposta me parece clara.

"Sem preconceito, não há virtude", adverte e demonstra Dalrymple. Num mundo em que todas as escolhas fossem válidas e moralmente equivalentes e em que todas as motivações fossem aceitáveis, não haveria valores a preservar nem hierarquia possível - valores, note-se, que nos levaram a fazer do lobo que somos o homem que aprendemos a ser.

Uma verdade de uma clareza solar desperta escândalo no nosso tempo: num mundo em que nada houvesse a conservar, nada haveria a mudar. A anarquia não é a ausência de poder; é, e será sempre, o poder do mais truculento. E este, por óbvio, não vê nenhuma razão para ser sábio.

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EM DEFESA DO PRECONCEITO
AUTOR Theodore Dalrymple
TRADUTOR Maurício G. Righi
EDITORA Editora É Realizações
QUANTO R$ 33,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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