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09/03/2011 - 18h04

Suspeite sempre dos especialistas, recomenda "A Lógica do Cisne Negro"

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Livro teoriza sobre impacto das coisas aleatórias no cotidiano e na história
Livro teoriza sobre impacto do aleatório no cotidiano e na história

Todos os cisnes são brancos. Essa era a ideia que ninguém contestava até a descoberta do cisne negro na Austrália. Imagine a surpresa para os ornitólogos. Bastou a existência de um único pássaro negro para derrubar a verdade da uma época. O caso do cisne negro é o ponto de partida usado pelo livro ao lado para discutir o efeito da aleatoriedade no cotidiano. Ou seja, histórias e personagens improváveis que, por obra da sorte ou do destino, se revelam como azarões e mudam o curso dos fatos. Você pode ser uma dessas exceções?

"A Lógica do Cisne Negro" foi escrito por Nassim Nicholas Taleb, que se dedica aos problemas relacionados à sorte, à incerteza, à probabilidade e ao conhecimento. Nasceu no Líbano, em uma família greco-ortodoxa, trabalhou como operador no pregão de Chicaco e em sua própria firma em Wall Street como operador de derivativos. É autor também do best-seller "Iludido pelo Acaso".

Dividido em 19 capítulos, "A Lógica do Cisne Negro" recomenda o ceticismo como reação às afirmações contundentes com pretensão de serem lidas como "definitivas". O autor lembra que há uma enorme diferença entre o que as pessoas realmente sabem e o quanto pensam que sabem.

"A raça humana é afetada por uma subestimação crônica da possibilidade do futuro desviar-se do curso vislumbrado inicialmente (além de outras parcialidades que, às vezes, exercem um efeito mais agravante). Para dar um exemplo óbvio, pense em quantas pessoas se divorciam. Quase todas estão familiarizadas com a estatística de que entre um terço e metade de todos os casamentos fracassam, algo que as partes envolvidas não previram ao estabelecer os laços. Obviamente, 'nós não', porque 'nos damos muito bem' (como se as outras pessoas que estabelecem laços se dessem mal)", escreve Taleb na página 187.

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O autor sustenta que uma nova tecnologia é capaz de provocar uma reviravolta em nossas convicções. Ele cita exemplos como a internet e a biotecnologia, fenômenos que, antes, as previsões científicas nem conseguiram medir o impacto dessas novas áreas na humanidade.

"Fazer previsões exige conhecimento sobre tecnologias que serão descobertas no futuro. Mas tal conhecimento iria permitir quase automaticamente que começássemos a desenvolver essas tecnologias imediatamente. Portanto, não sabemos o que saberemos", escreve Taleb ao comentar os limites para se prever o futuro.

"A Lógica do Cisne Negro" tenta alertar para o consumo de ideias preconcebidas e opiniões manipuladas. Para o autor, aceitar o conhecimento sem antes colocá-lo em xeque aumenta o risco de apenas repetirmos dogmas, reproduzindo injustiças.

"Somos feitos para seguir líderes que podem reunir as pessoas porque as vantagens de se estar em um grupo superaram as desvantagens de estar sozinho. Unirmo-nos na direção errada tem sido mais lucrativo para nós do que estar sozinho na direção certa. Aqueles que seguiram o idiota afirmativo em vez da pessoa sábia e introspectiva transmitiram alguns de seus genes para nós, o que fica aparente em uma patologia social: psicopatas angariam seguidores", observa Taleb ao analisar o "efeito manada" na tomada de decisões.

Leia um trecho de "A Lógica do Cisne Negro".

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Aristóteles Onassis, talvez o primeiro magnata midiatizado, foi famoso principalmente por ser rico - e por exibir isso. Grego étnico refugiado do Sul da Turquia, ele foi para a Argentina, ganhou um bom dinheiro importando tabaco turco e depois se tornou um magnata naval. Foi odiado quando casou com Jacqueline Kennedy, viúva do presidente americano John F. Kennedy, o que levou a cantora a cantora de ópera Maria Callas, com o coração partido, a isolar-se em um apartamento em Paris para aguardar a morte.

Se estudar a vida de Onassis, o que passei parte do princípio da vida adulta fazendo, você perceberá uma regularidade interessante: "trabalho", no sentido convencional, não era seu negócio. Ele nem se importava em ter uma escrivaninha, muito menos um escritório. Ele não era apenas uma pessoa que fechava negócios, o que não tornaria necessário ter um escritório, mas também administrava um império naval, que necessita de monitoração diária. Mas sua principal ferramenta era um bloco de anotações, que continha toda informação que precisava. Onassis passou a vida tentando socializar com os ricos e famosos, e a perseguir (e colecionar) mulheres. Geralmente, acordava ao meio-dia. Caso necessitasse de aconselhamento legal, convocava seus advogados a algum clube noturno em Paris às duas da manhã. Dizem que tinha um charme irresistível, o que o ajudava a tirar vantagem das pessoas.

Vamos além do relato curioso. Pode ser que haja aqui um efeito de ser "enganado pela aleatoriedade", de se criar uma ligação causal entre o sucesso de Onassis e seu modus operandi. Pode ser que eu nunca venha a saber se Onassis era talentoso ou sortudo, se bem que estou convencido de que o charme lhe abria portas, mas posso submeter seu modus a um exame rigoroso observando pesquisas empíricas sobre a ligação entre informação e compreensão. Portanto, a afirmação "conhecimento adicional sobre as minúcias dos negócios diários pode ser inútil e na verdade até tóxico" é indireta, mas muito eficazmente testável.

Mostra a dois grupos de pessoas uma imagem borrada de um hidrante, suficientemente borrada para que não consiga reconhecer o que é. Para um grupo, aumenta a resolução lentamente, em dez etapas. Para o segundo, faça isso mais rápido, em cinco etapas. Pare em um ponto em que os dois grupos vejam uma imagem idêntica e peça que identifiquem o que estão vendo. Os membros do grupo que viu menos etapas intermediárias provavelmente reconhecerão o hidrante muito mais rápido. Moral da história? Quanto mais informação você der a uma pessoa, mais hipóteses ela formulará ao longo do processo e terá um desempenho pior. As pessoas veem mais interferências aleatórias e as confundem com informações. O problema é que as ideias são pegajosas: quando criamos uma teoria, não é provável que mudemos de ideia -- assim, aqueles que retardam o desenvolvimento de teorias saem-se melhor. Quando se desenvolve opiniões baseadas em evidências fracas, tem-se dificuldade em interpretar informações posteriores que contradigam essas opiniões, mesmo que as informações novas sejam obviamente mais exatas. Dois mecanismos estão em jogo aqui: o viés confirmatório que vimos no Capítulo 5 e a perseverança da crença, a tendência a não se reverter opiniões que já foram formadas. Lembre-se de que tratamos ideias como propriedades e que temos dificuldade em abrir mão delas. O experimento do hidrante foi realizado pela primeira vez nos anos 1960, tendo sido reproduzido diversas vezes desde então. Também estudei esse efeito usando a matemática da informação: quanto mais conhecimento detalhado se obtém através da realidade empírica, mais se verá a interferência (ou seja, a curiosidade) e mais ela será confundida com a informação real. Lembre-se que somos influenciados pelo sensacional. Ouvir as notícias no rádio a cada hora é muito pior para você do que ler uma revista mensal, porque o intervalo mais longo permite que se filtre um pouco a informação.

Em 1965, Stuart Oskamp forneceu a psicólogos clínicos arquivos sucessivos, cada um contendo um volume de informação crescente sobre pacientes. A capacidade de diagnóstico dos psicólogos não aumentou com o suprimento adicional de informação. Eles só ficaram mais confiantes em relação ao diagnóstico original. Deve-se reconhecer que não se pode esperar muito de psicólogos dessa geração, mas essas descobertas parecem valer para todas as disciplinas.

Finalmente, em outro experimento revelador, o psicólogo Paul Slovic pediu a corretores de apostas que selecionassem entre 88 variáveis em corridas de cavalos já ocorridas aquelas que consideravam úteis no cálculo das probabilidades. Essas variáveis incluíam toda sorte de informações estatísticas sobre desempenhos passados. Os corretores receberam as dez variáveis mais úteis e depois lhes pediram que previssem o resultado de corridas. Então, receberam mais dez informações e pediram-lhes que previssem novamente. O aumento no conjunto de informações não levou a um aumento na exatidão das previsões; a confiança nas escolhas feitas, no entanto, aumentou notavelmente. A informação provou ser tóxica. Lutei durante boa parte de minha vida contra a crença comum da pessoa de nível cultural médio de que "mais é melhor" - mais é melhor às vezes, mas não sempre. Essa toxicidade do conhecimento ficará evidente em nossa investigação do suposto expert, o especialista.

O problema do especialista ou a tragédia do terno vazio

Até agora não questionamos a autoridade dos profissionais envolvidos e sim a habilidade deles de calcular os limites do próprio conhecimento. A arrogância epistêmica não obstrui habilidades. Um encanador quase sempre saberá mais sobre encanamentos do que um ensaísta teimoso e do que um operador de mercado matemático. Um cirurgião especializado em hérnias raramente saberá menos sobre hérnias do que uma dançarina do ventre. Mas suas probabilidades, por outro lado, estarão erradas - e o ponto perturbador é que se pode saber muito mais nesse quesito do que o especialista. Independentemente do que digam, questionar o índice de erros do procedimento de um especialista é uma boa ideia. Não questione o procedimento, mas somente a confiança. (Como alguém que foi lesado pelo sistema médico, aprendi a ser cauteloso e insisto que todos também o sejam: se você entrar em um consultório médico com algum sintoma, não dê ouvidos ao médico quando ele disser que a probabilidade de que não seja câncer.) Separei os dois casos a seguir. O caso moderado: arrogância na presença de (alguma) competência, e o caso grave: arrogância combinada com incompetência (o terno vazio). Existem algumas profissões em que você sabe mais do que os especialistas, que são, infelizmente, pessoas por cujas opiniões você paga - em vez de eles pagarem a você para ouvi-los. Quais são elas?