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05/04/2012 - 20h30

Leia trecho de 'Nunca Houve um Homem como Heleno'

da Livraria da Folha

"Nunca Houve um Homem como Heleno", do jornalista Marcos Eduardo Neves, narra a vida, as glórias e as polemicas do grande ídolo do Botafogo antes de Garrincha. A história de Heleno de Freitas (1920-59) também chegou aos cinemas com Rodrigo Santoro no papel principal. Leia um trecho do exemplar.

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Reprodução
Nascido em uma família rica, Heleno conheceu a glória e o fundo do poço
Nascido em família rica, Heleno conheceu o fundo do poço

1. Gilda!
1947

Adentrou o gramado o Fluminense, perfilando-se defronte às sociais. Seus atletas foram aplaudidos com frenesi. O Botafogo, ao fim do trote, tomou a tradicional chuva de vaias. Fazia parte do espetáculo.

Heleno de Freitas, o ídolo da massa alvinegra, batia bola para se aquecer. A aristocrática social de Álvaro Chaves não o perdoava, xingando-o sem cessar sempre que por lá colocava os pés. Afinal, jogara na base tricolor, era um "traidor". O centroavante, titular da seleção brasileira, seguia tranquilamente se exercitando. E com um quê de narcisismo. Bem ou mal, adorava ser reconhecido.

Quando o Botafogo saía de casa para enfrentar times pequenos, os zagueiros o cutucavam:

- Lá vem o "viadinho" de Copacabana.

Tudo porque deixava o vestiário com as pernas brilhando da massagem de aquecimento, encharcadas de óleo. E um penteado à base de gomalina que, aliado à beleza física, dava-lhe um ar de Rodolfo Valentino de chuteiras. Era uma vedete.

Ao dar o pontapé inicial, rolando para Otávio, Heleno escutou um grito diferente:

- Gilda!

Reconheceu a voz - era um amigo seu, tricolor, do "Clube dos Cafajestes"-, sorriu, aceitou o desafio.

Começava o jogo.

Aquele berro despertou a argúcia da torcida pó de arroz, a do Fluminense, assim chamada com desdém pelas massas rivais por causa de seu perfil aristocrático. Gilda remetia à personagem de Rita Hayworth no filme homônimo de Charles Vidor, que estreara cinco dias antes na cidade. Não havia apelido melhor. Gilda era mulher linda, glamourosa e temperamental. Capaz de derrubar homens cantando e jogando suas luvas para eles. Atributos que se encaixavam, exceto pelas luvas e melodias, em Heleno de Freitas de forma perfeita. Não tardou em virar coro da multidão.

- Gilda! Gilda! Gilda! - os torcedores do time da casa já começavam a incomodar. Heleno não podia pegar na bola que escutava a saudação. Começava a ser travada uma espécie de guerra psicológica, que, embora tentasse disfarçar, o desestabilizava emocionalmente.

Corajoso, impetuoso, Heleno seguia lutando, louco para fazer um gol. Quando errava um chute, não escapava da gozação:

- Gilda! Gilda! Gilda! - a massa se divertia, aliviava o espírito.

Sujo, no empurra-empurra da área, nos escanteios, segurava os colhões de adversários, artimanha que aprendera com os argentinos.

- Gilda! Gilda! Gilda!

Num lance, atracou-se com o meia Orlando Pingo de Ouro.

- Gilda! Gilda! Gilda!

Assim que o juiz Mário Vianna virou as costas para os dois, Orlando deu uma cotovelada em Heleno. Irascível, o goleador alvinegro se vingou sem medir consequências. Com força diabólica, arrancou o cordão do pescoço dele.

- Gilda! Gilda! Gilda!

A torcida teimava em não se calar. Nas arquibancadas e sociais, uma festa só. Ainda mais com o resultado nitidamente dando certo. Ainda que o Botafogo estivesse vencendo, Heleno estava a um passo da insalubridade.

Maliciosos, o teste psicológico perduraria por todo o segundo tempo. Heleno se martirizava a cada "Gilda!". As provocações minavam-lhe mais e mais os nervos já desgastados. E não era só "Gilda!". Marchinha de carnaval da época, o público esgoelava-se cantando "Helena, Helena, vem me consolar!", música de Antonio Almeida. O centroavante reagia.
Ou correndo até a lateral do campo para ensaiar passos de Carnaval, ou distribuindo "bananas" para as arquibancadas.

- Escandalosa! - berrava um ou outro. Mas "Gilda! Gilda! Gilda!" era o som que tomava conta do ambiente. E de seu espírito atormentado. O ídolo reagiria de forma agressiva. Agressiva e pornográfica. Sabendo que a alta burguesia das Laranjeiras concentrava nas cadeiras várias senhoras de família, Heleno fez que ia mostrar a genitália para as sociais.

- Uh! Cafajeste! - respondiam. E tacavam veneno, em perfeita sincronia:

- Gilda! Gilda! Gilda!

"Houve um instante em que a torcida tricolor gritou com todas as suas forças: 'Gilda! Gilda!' Heleno olhou o placar, meditou, e só depois de concluir a jogada colocou o indicador e o médio em V, como que antecipando a conquista do segundo gol. E teve sorte, porque Teixeirinha fez o segundo."

O Botafogo ganhou de 2 × 1. O outro gol foi assinalado por Geninho. Ironizando os tricolores - fez sinais de que espalhava pó de arroz pelo rosto -, Heleno de Freitas, a melhor figura em campo, saiu do gramado nos ombros da torcida.

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"Nunca Houve um Homem Como Heleno"
Autor: Marcos Eduardo Neves
Editora: Zahar
Páginas: 328
Quanto: R$ 36,00 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.

Texto baseado em informações fornecidas pela editora/distribuidora da obra.

 
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