Saltar para o conteúdo principal
 
04/09/2012 - 20h00

Livro defende que culto ao corpo é herança greco-romana

da Livraria da Folha

O culto ao corpo e a busca pelas formas perfeitas são apenas algumas das heranças greco-romanas apontadas por Simon Goldhill, professor de grego na Universidade de Cambridge, em "Amor, Sexo e Tragédia". O interesse pelo MMA (sigla para Artes Marciais Mistas, em inglês), lembra o autor, é similar ao comportamento dos romanos que rumavam ao Coliseu para ver os gladiadores.

Siga a Livraria da Folha no Twitter
Conheça nossa página no Facebook
Professor extrai lições de caráter da cultura grega
Visite a estante dedicada à filosofia

Os ginásios na Roma e na Grécia antiga, segundo Goldhill, apresentam padrões semelhantes às academias de hoje. "O corpo perfeito oferecia ao cidadão grego um modelo difícil de ser seguido. O condicionamento físico requeria treinamento e isso significava principalmente ir ao ginásio. O ginásio era uma das principais características da cultura grega. Você poderia ter certeza de estar em uma cidade grega caso avistasse um teatro, um simpósio, um debate político --e um ginásio. Era um lugar fundamental para se pensar sobre o corpo, e também para utilizá-lo.

Outros elementos podem ser vistos na política --palavra de origem grega--, como nos conceitos de democracia e república, e até na psicanálise, como complexo de Édipo. A edição procura mostrar como o pensamento ocidental, mesmo separado por séculos, se fundamenta no mundo clássico.

Abaixo, leia um trecho do exemplar.

Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. Conheça o livro "Escrevendo pela Nova Ortografia".

*

1 O corpo perfeito

Divulgação
Quando você vai à academia, está fazendo algo que era moda na Grécia antiga
Ir à academia, por exemplo, é algo que era moda na Grécia antiga

Quando Clark Gable tirou a camisa no filme Aconteceu naquela noite (1934), duas coisas extraordinárias ocorreram. Em primeiro lugar, a indústria do vestuário foi alterada para sempre. Como ele não estava usando uma camisa por baixo, milhares e milhares de homens decidiram também nunca mais usar uma, e no período de um ano uma série de fabricantes de roupas pediu falência. Em segundo lugar, milhares de pessoas ficaram boquiabertas diante do torso nu do galã, considerado o mais sensual dos homens.

Para uma geração moderna de espectadores de cinema, é quase impossível recapturar o choque e o erotismo daquele momento. Hoje não há quase nenhuma parte do corpo masculino que não possa ser vista na tela ou nas revistas, e é provável que nós estejamos mais acostumados com o torso de Russel Crowe que com o nosso. Em Casablanca (1942), Humphrey Bogart não tira a camisa. Nos filmes de guerra ou de faroeste -o filé-mignon da indústria cinematográfica -, um soldado ou um caubói é sempre ferido, mas de maneira arquetípica o ferimento se dá apenas no braço. É um clichê do gênero. A manga da camisa pode se rasgar, um momento dramático é assegurado, mas o corpo é mantido recatadamente coberto. Um índio enfurecido ou outro "nativo" pode ter um torso bronzeado e nu, mas não um de nossos rapazes. Quando Noël Coward naufraga na maravilhosamente patriótica aventura naval Nosso barco, nossa alma (1942), ele nunca desabotoa nem mesmo o primeiro botão de sua camisa.

Só no final dos anos 1960 e 1970 é que as coisas começaram a mudar sistematicamente. Filmes de guerra como M*A*S*H (1970) - uma resposta cínica, engraçada e ousada ao conflito no Vietnã - são típicos. O filme mostrava o corpo lacerado, carnal, ensangüentado e exposto. Desde então, seja em histórias de amor ou de heroísmo, o corpo é cada vez mais exibido. De Rocky a Gladiador, o herói agora tem de estar com o torso nu.

Essa não é a primeira vez que a imagem do herói transita entre o coberto e o desnudo (ou vice-versa). A história de Perseu e Andrômeda é um dos mitos gregos representados com mais freqüência pela pintura, sobretudo a cena em que Andrômeda, acorrentada a uma rocha, esperando ser devorada por um monstro marinho, é salva por Perseu, que aterrissa para matar a fera e casar-se com a moça. Em pinturas antigas, é Perseu que aparece nu - como em geral aparecem os heróis gregos -, com exceção de um capacete, sandálias aladas e, muitas vezes, uma capa esvoaçante. Normalmente, Andrômeda aparece envolta em uma comportada toga.

Mas no Renascimento, quando a história volta a ser popular para artistas europeus, o Perseu clássico aparece vestido com uma armadura ou uma túnica, e Andrômeda se torna cada vez mais exposta, até que os longos cabelos e as sedas esvoaçantes sirvam apenas como moldura para a exibição de seu corpo despido.

Ticiano realça tanto a desnuda Andrômeda que os olhos do observador quase não percebeu o arrebatador Perseu, que, em segundo plano, está completamente vestido. Para ser heróico, Perseu precisa agora de sua armadura, ao passo que o corpo feminino se apresenta vulnerável - tanto para os olhos masculinos como para os do monstro marinho. A idéia de uma nudez aceitável ou normal foi radicalmente transformada.

Existe uma história das formas de exposição do corpo masculino. Não é apenas uma questão de quanto do corpo pode ser mostrado, mas também de que aparência o corpo deve tomar: um torso em Gladiador ou em Rocky não se parece com o de Clark Gable. Imagens do corpo estão por todo lado - de imagens de homens em filmes, na televisão ou em revistas, ao corpo dos que teorizam sobre a medicina, às representações de escritores, ao sistema legal, à arte erudita e à arte suja da grafite. Todas essas imagens corporais nos ditam como ser, como pensar sobre nós mesmos, como nos enxergar. Mas de onde se originam tais representações do corpo perfeito?

A resposta mais simples é a Grécia. Desde o Renascimento e sua redescoberta da arte clássica vigora uma longa tradição de tomar a escultura grega como o ideal de corpo masculino. O torso delgado porém musculoso, a elegante simetria da figura, o equilibrado giro da cabeça ou a curva da forma atlética produziram uma imagem tão fortemente arraigada na imaginação ocidental que é difícil considerá-la de uma nova maneira ou através de um prisma histórico. Para qualquer um que freqüenta uma academia de ginástica, que se preocupa com a balança, com a forma ou com seu tônus muscular - ou simplesmente para alguém que sabe o que é um belo corpo - existe uma história que remonta à Grécia antiga e que modifica o modo como o próprio corpo é visto.

*

"Amor, Sexo e Tragédia"
Autor: Simon Goldhill
Editora: Zahar
Páginas: 300
Quanto: R$ 12,90 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.

Texto baseado em informações fornecidas pela editora/distribuidora da obra.

 
Voltar ao topo da página