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09/02/2016 - 15h50

'Dilma não apenas não sabe como diz como não sabe o que diz', afirma jornalista

da Livraria da Folha

Divulgação
Com humor, jornalista documenta e interpreta muito do que Dilma falou publicamente na última década, em entrevistas para os jornalistas ou em discursos
Com humor, jornalista interpreta muito do que Dilma falou publicamente na última década, em entrevistas para os jornalistas ou em discursos

Para o jornalista Celso Arnaldo Araujo, a presidente Dilma Rousseff coleciona falas destrambelhadas, vícios de linguagem e expressões vazias. É o que escreve em "Dilmês: O Idioma da Mulher Sapiens", livro que apresenta uma "análise sintática e política" da língua falada pela presidente.

"Dilma não apenas não sabe como diz como não sabe o que diz - seja numa reunião do G20 em São Petersburgo, seja num encontro com bonequeiras no Vale do Jequitinhonha", opina.

Com humor, ele documenta e interpreta muito do que Dilma falou publicamente na última década, seja em entrevistas para os jornalistas ou em seus discursos. Está tudo no livro : das gafes que ficaram famosas e originaram memes, como a "saudação à mandioca", até uma lista das 63 melhores frases da presidente.

"Ao longo dos últimos seis anos, Dilma promoveu a deformação contumaz de ditos, aforismos e máximas populares, e exibiu uma incapacidade dramática de reproduzir frases célebres cunhadas por outros e consagradas através dos tempos e das mentes", acrescenta.

Em 'Dilmês', jornalista interpreta discursos de Dilma, lista gafes e relembra memes

O autor explica que acompanha os discursos da presidente Dilma Rousseff desde 2009, quando passou a notar que havia algo de errado em sua maneira de se expressar.

Celso Arnaldo Araujo trabalhou 27 anos na revista "Manchete", pela qual conquistou duas vezes o Prêmio Esso. É autor do livro "Dr. Zerbini: O Operário do Coração", biografia do médico pioneiro nos transplantes no Brasil. Desde 2009 acompanha e escreve colunas sobre os discursos de Dilma Rousseff.

Abaixo, leia um trecho do livro.

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Dilma fala: "Pra mim sê pré"

Trazida dos subterrâneos da gigantesca máquina de governo do lulopetismo, onde fizera fama pela rudeza e a sem-cerimônia com que tratava seus auxiliares, a presidenciável Dilma Vana Rousseff foi esculpida grosseiramente por Lula com o cinzel de sua aberrante popularidade. Na época, com o mesmo instrumento, Lula provavelmente teria conseguido consagrar à sua sucessão a improvável Weslian Roriz - a dona de casa que assumiu a candidatura do marido, Joaquim Roriz, quando ele ficou legalmente impossibilitado de
concorrer ao governo do Distrito Federal. A sub-rogada Weslian é aquela que, num debate com os candidatos de Brasília, estabeleceu entre suas metas: "Eu quero defender toda aquela corrupção."

Palavras sem nexo, com a intenção de significar exatamente o oposto de seu sentido lato, também tinham ecoado meses antes em nível federal - aliás, global - pela boca da Weslian de Lula, Dilma Rousseff. Então ministra-chefe da Casa Civil, e já em plena pré-campanha, a mulher que era apresentada como o contraponto de Lula - ele, um dirigente sem estudo, instintivo, saído das massas; ela, uma intelectual com doutorado em Brasil - representou o Brasil no COP 15, Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, em Copenhague, marcando sua presença com uma declaração mais catastrófica que qualquer tragédia meteorológica, e que assim resumia nossa carta de princípios em relação à ecologia: "O meio ambiente é, sem dúvida nenhuma, uma ameaça ao desenvolvimento sustentável, e isso significa que é uma ameaça pro futuro do nosso
planeta e dos nossos países."

Se a corrupção de Weslian era digna de ser defendida, o meio ambiente de Dilma merecia a repulsa do planeta, por seu aspecto ameaçador. A não ser por risos frouxos, ninguém contestou a primeira, pois de Weslian não se esperava nada, já que sua "candidatura" sempre foi um escárnio. Já a patética censura de Dilma ao meio ambiente de início causou perplexidade - era certamente um ato falho que, no dia seguinte, o mais tardar, mereceria a devida errata dela ou da Casa Civil. Até hoje, seis anos depois, esses derrisórios 12 segundos circulam pela rede virtual sem nenhum reparo oficial - nessa condição, são hoje incluídos em toda e qualquer antologia que se faça das sandices do dilmês.

Ninguém percebeu, mas, naquele 14 de dezembro de 2009, dez meses antes da eleição que consagraria a primeira mulher na Presidência da República, o dilmês já revelava uma de suas facetas mais características - além de asneiras quase ofensivas, uma absoluta ausência de autocrítica.

Nos seis anos seguintes, Dilma Rousseff não só produziria e repetiria sistematicamente os mais estapafúrdios conceitos e raciocínios jamais formulados por uma figura pública no país como nunca, em tempo algum, em relação a termo algum, faria qualquer retratação ou reparação de alguma de suas frases sem nexo.

Essa dramática e fenomenal falta de autopercepção do recém-dito, apanágio do dilmês, culminou com a decisão da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, ainda em 2010, de transcrever no Portal do Planalto todos os discursos e entrevistas de Dilma, na íntegra, sem alterar uma única vírgula - mantendo inclusive equívocos de nomes e números, eventual e timidamente reparados por uma corrigenda entre parênteses. O dilmês - ao vivo e no círculo palaciano - foi assimilado e absorvido quando tudo no país parecia dar certo graças ao pacote de bondades do lulopetismo.

Nesse cenário, as destrambelhadas falas da presidente eram, no máximo, sintomas desculpáveis da inadequação de uma supergerente, uma "doutora" habituada a círculos mais fechados e superiores, diante da súbita superexposição à mídia e ao contato com as ruas. Só no segundo mandato, quando ficara para trás o Brasil Maravilha vendido por meio de um linguajar de baixíssima extração mental e semântica, a verdadeira gênese do dilmês seria posta em xeque: Dilma não apenas não sabe como diz como não sabe o que diz - seja numa reunião do G20 em São Petersburgo, seja num encontro com bonequeiras no Vale do Jequitinhonha. Seus múltiplos, intransponíveis e incorrigíveis vícios de linguagem e o vazio absoluto de suas mensagens não se limitam às falas próprias.

Ao longo dos últimos seis anos, Dilma promoveu a deformação contumaz de ditos, aforismos e máximas populares, e exibiu uma incapacidade dramática de reproduzir frases célebres cunhadas por outros e consagradas através dos tempos e das mentes. Uma das mais famosas citações de Machado de Assis, "Preso por ter cão, preso por não ter cão", de O alienista, foi aliterada por ela como "Muitas vezes você é criticado por ter o cachorro e, outras vezes, por não ter o mesmo cachorro".

O mesmo ataque seria feito, reiteradamente, a frases intocáveis de Nelson Rodrigues.

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DILMÊS: O IDIOMA DA MULHER SAPIENS
AUTOR Celso Arnaldo Araujo
EDITORA Record
QUANTO R$ 30,90 (preço promocional *)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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