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27/06/2013 - 15h40

Leia trecho de 'Do Fascismo à Democracia', de Norberto Bobbio

da Livraria da Folha

Do cientista político italiano Norberto Bobbio (1909-2004), "Do Fascismo à Democracia" reúne 12 ensaios escritos ao longo de 32 anos de análise da história política da Itália. Abaixo, leia um trecho.

Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. Conheça o livro "Escrevendo pela Nova Ortografia".

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Prefácio à edição brasileira
Michelangelo Bovero

Divulgação
Reúne 12 ensaios escritos por Norberto Bobbio em um período de 32 anos
Reúne 12 ensaios escritos por Bobbio em um período de 32 anos

CREIO QUE ESTA SEJA A primeira tradução em outra língua que não o italiano da coletânea de ensaios de Norberto Bobbio que organizei em 1997, sob o título Do fascismo à democracia.

São ensaios dedicados à história política e político-cultural italiana da primeira metade do século XX. Portanto, não seria implausível considerar que os acontecimentos e os personagens dos quais Bobbio trata aqui possam chamar a atenção exclusivamente do leitor italiano, e que, fora da Itália, a tradução de um livro como este corra o risco de não suscistar grande interesse, senão de alguns especialistas de história contemporânea, além, naturalmente, dos estudiosos do pensamento de Bobbio, particularmente difundidos na América Latina, e dos apaixonados leitores das suas obras, espalhados por todo o mundo e sempre atentos a extrair ensinamentos gerais, mesmo que indiretos, de seus escritos, qualquer que seja o tema.

De meu ponto de vista, ao contrário, a fecundidade e a atualidade das análises de Bobbio contidas nestes ensaios vão muito além dos limites histórico- geográficos de seu objeto específico. Por isso, parece-me que deva ser considerada mais que oportuna esta tradução em língua portuguesa, proporcionada pela mesma editora brasileira que há poucos anos foi a primeira a publicar, e em tempo curtíssimo, considerando o edifício da obra, uma ótima tradução da substanciosa Teoria generale della política [Teoria geral da política], de Bobbio.

A relevância para um público não apenas italiano deste livro dedicado à história política italiana possui acima de tudo uma razão objetiva. Os acontecimentos que conduziram à gênese e à afirmação do fascismo, depois à difusão da resistência contra o regime, e por fim à instauração da democracia constitucional na Itália, são por muitos aspectos e em muitos sentidos paradigmáticos. Exemplar, infelizmente, foi, em primeiro lugar, o próprio fascismo: um modelo banido, verdadeira praga política do século XX, que carrega a marca original made in Italy e que conheceu inúmeras imitações e adaptações em todas as partes do mundo.Omodo pelo qual Bobbio reconstrói a natureza do regime e da ideologia fascista, isto é, do protótipo italiano da antidemocracia, oferece um parâmetro para a análise comparativa de muitos fenômenos análogos.

Mas também a agregação das forças antifascistas italianas em uma única frente de oposição ao regime, e sobretudo a sua convergência no projeto comum de refundar a convivência política tendo por base o pluralismo ideológico, representa uma história exemplar: a história do nascimento, ou renascimento, de uma comunidade democrática. Enfatizo que, exatamente a partir da reflexão sobre a experiência italiana, Bobbio extraiu um modelo teórico da gênese da democracia cujos momentos essenciais são especificados em uma série de pactos entre sujeitos políticos com interesses e aspirações ideais diferentes.

A formulação conclusiva do pacto de convivência política é a Constituição. Pois bem, também a constituição italiana de 1948, que foi a primeira a ser elaborada no imediato pós-guerra por obra de uma Assembléia constituinte eleita por sufrágio universal e pelo método proporcional - e cujas características e origem Bobbio reconstrói em um capítulo deste livro -, pode ser considerada a seu modo exemplar: tanto é verdade que foi assumida como ponto de referência e, por muitos aspectos, exatamente como um modelo, por exemplo, pelos redatores da Constituição espanhola pós-franquista.

O mais forte motivo de interesse não circunscrito deste livro não é contudo objetivo, mas sim, subjetivo: quero dizer, reside não no seu objeto, mas no modo pelo qual o seu autor o enfrenta. Do fascismo à democracia não é apenas um livro de história, assim como Bobbio não é sobretudo um historiador, a não ser talvez no sentido no qual Hegel, referindo-se a si mesmo, interpretava a figura do filósofo como um "historiador pensante" e definia a filosofia como "o próprio tempo captado em pensamentos". Também em ocasiões, como esta, em que assume o papel de historiador de instituições e de ideologias, a contribuição peculiar de Bobbio não reside tanto na reconstrução da realidade dos fatos, acontecimentos e personagens, mas na construção de categorias analíticas de vasto alcance para interpretar a realidade e dela colher o significado essencial. Destes ensaios dedicados à história da Itália emerge um modelo interpretativo e valorativo de horizonte mais amplo, aplicável portanto também a realidades historicamente distintas daquela oferecida pelo estudo de caso inicial.

Como procurei enfatizar na introdução à edição italiana do volume, a estrutura elementar do modelo aqui proposto por Bobbio consiste na dúplice equação entre fascismo e antidemocracia e entre democracia e antifascismo, que permite revelar a essencial negatividade lógica e axiológica do fascismo, cuja identidade se resume na negação total da democracia. Ao apresentar esta meritória edição em língua portuguesa, permito-me indicar (apenas por acenos e alusões) algumas direções ulteriores de análise e reflexão, nas quais poderia mostrar-se novamente fecundo e iluminador recorrer ao modelo conceitual construído por Bobbio nestas páginas.

Há algum tempo vêm se difundindo no mundo formas de agir político que os estudiosos designam de modo essencialmente negativo: "antipolítica". Mesmo que o conceito seja ainda nebuloso - seria necessário um Bobbio que o tomasse em exame e o redefinisse -, o termo designa a visão e a estratégia de partidos e movimentos que visam a agregar consenso em torno de fórmulas demagógicas neopopulistas.NaEuropa, muitos atores políticos de direita, expressões do "chouvinismo do bem-estar" produzido pela globalização, vêm obtendo sucessos notáveis com métodos antipolíticos. Na América Latina são de fato alguns sujeitos - (supostos e atribuídos) de esquerda - que se voltam às vítimas da globalização, assumindo os esquemas da assim denominada antipolítica. Eu estaria tentado, para designar a ambos, os de direita e de pseudo-esquerda, a adotar novamente o termo mais explícito "antidemocracia"; também para sugerir que, não obstante o consenso eleitoral obtido por esses atores políticos, trata-se de uma caricatura, aliás, de um arremedo de democracia: de uma democracia aparente que reveste e traveste formas incipientes de autocracia eletiva. E recorrendo ao modelo de Bobbio - à custa de causar arrepios em historiadores profissionais, que mal suportam o uso extensivo do termo fascismo para designar realidades históricas distintas daquela originária italiana, e decididamente hostilizam a acepção genérica do mesmo termo no qual estão compreendidos vários tipos de regimes ditatoriais ou autoritários -, eu proporia caracterizar o variado fenômeno ao qual estamos assistindo emmuitas partes do mundo, em diversos graus e formas, como fascismo pós-moderno: que, da mistura entre repressão violenta e engano demagógico própria do fascismo histórico, privilegia (até agora?) o segundo ingrediente; que fomenta a hiperpersonalização da política e por vezes dá expressão a figuras grotescas do poder carismático; que visa ao fortalecimento do executivo enfraquecendo vínculos e controles; que age em formas tendencialmente (mas por vezes claramente) eversivas da ordem consolidada nas arquiteturas constitucionais. Nos últimos anos de sua vida ativa, o próprio Bobbio sublinhou a analogia entre o Partido Fascista e Forza Itália, o partido pessoal inventado por Berlusconi, apontando em ambos a natureza essencialmente "eversiva".

Em um dos ensaios incluídos no presente volume, escrito em 1983, depois de ter recordado o juízo irônico de Marx, segundo o qual certos fenômenos históricos se apresentam duas vezes, primeiro como tragédia, depois como farsa, Bobbio observava que o fascismo fora a um só tempo tragédia e farsa: "o tribunal especial e o salto através do círculo de fogo...". Assim concluía, à época, que o fascismo não poderia se repetir. Hoje, um observador desencantado da realidade não teria muitas hesitações em julgar tal conclusão no mínimo apressada. E se fosse particularmente pessimista, proporia a hipótese de que talvez se tenha aberto um novo ciclo de tragédias e farsas, talvez com os termos invertidos: em suma, levantaria a dúvida de que muitos episódios políticos farsescos, de fascismo pós-moderno, dos quais somos, em variada medida (e não apenas na Itália), espectadores - que não se divertem -, poderiam preceder novas tragédias.

Um escritor do século XIX, Vincenzo Gioberti, dedicou uma obra ao enaltecimento do Primato morale e civile degli italiani [Primado moral e civil dos italianos]. Nas mais recentes estações políticas, tive com freqüência a tentação de inverter a retórica giobertiana, denunciando o primado imoral e incivil dos italianos, que no início do século XX ofereceram ao mundo o modelo do fascismo, e, não satisfeitos, no fim do milênio, quase como prefiguração grotesca do apocalipse, levaram à ribalta uma variante inédita da antidemocracia, baseada na idiotização midiática dos cidadãos. Bobbio costumava repetir que a Itália é um laboratório político. Permito-me acrescentar: por vezes parece o laboratório de Frankenstein. Produz monstros. E porque muitos produtos made in Italy demonstraram saber alcançar estrondoso sucesso, recomendo a todos continuarem a observar atentamente o que sai do nosso laboratório. Para o bem, e para o mal. Produzimos também coisas boas. Aqui, como conclusão, só posso recomendar - também como meio para nos dotarmos de anticorpos contra os perigos de uma nova forma de antidemocracia travestida de democracia eleitoral, de um fascismo pós-moderno - a leitura deste volume: um produto da melhor cultura italiana. Digo-o sem fingimentos, com o orgulho do aluno.

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"Do Fascismo à Democracia"
Autor: Daniela Versiani
Editora: Campus Elsevier
Páginas: 312
Quanto: R$ 59,50 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.

Texto baseado em informações fornecidas pela editora/distribuidora da obra.

 
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