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18/05/2017 - 13h48

'Todos os Homens do Presidente' reconstitui investigação sobre caso Watergate

da Livraria da Folha

Divulgação
Com escândalo, classe política americana sofreu uma importante crise de credibilidade diante dos cidadãos
Com escândalo, classe política americana sofreu uma importante crise de credibilidade diante dos cidadãos

No dia 8 de agosto de 1974, diante da iminência de um julgamento político, o presidente Richard Nixon anunciou pela televisão sua decisão de renunciar. Com o escândalo de Watergate, a classe política americana sofreu uma importante crise de credibilidade diante dos cidadãos.

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Nixon foi substituído por Gerald Ford, nomeado vice-presidente no ano anterior. Nixon foi o único presidente da história dos Estados Unidos que renunciou ao seu cargo.

"Todos os Homens do Presidente" reconstitui a investigação feita pelos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein do caso Watergate. No livro, os repórteres descrevem como ajudaram a revelar uma poderosa rede de espionagem e sabotagem montada dentro da Casa Branca contra políticos do Partido Democrata.

Sucesso de público e crítica quando foi lançado, pouco antes da renúncia do presidente, o livro ganhou uma adaptação cinematográfica estrelada por Robert Redford e Dustin Hoffman.

Abaixo, leia um trecho do livro.

*

O Garganta Profunda

Woodward tinha uma fonte no Poder Executivo que dispunha de acesso a informações no CRP e na Casa Branca. Ninguém mais sabia quem ele era. Só podia ser contatado em ocasiões muito importantes. Woodward prometera que jamais revelaria sua identidade ou seu cargo a ninguém. Além disso, concordara que nunca o citaria, nem mesmo como fonte anônima.

Conversariam apenas para confirmar e situar melhor as informações obtidas em outra parte.

Na terminologia da imprensa, isso significava que as conversas se davam "em sigilo ou bastidor profundo" [on deep background].* Um dia, explicou esse acordo ao secretário de Redação, Howard Simons. Woodward chamava a fonte de "meu amigo", mas Simons o apelidou de "Garganta Profunda" [Deep Throat], título de um famoso filme pornográfico. O apelido pegou.

No começo, Woodward e Garganta Profunda falavam por telefone, mas, conforme se intensificavam as tensões do caso Watergate, aumentava também o nervosismo de Garganta Profunda. Ele não queria mais falar por telefone e disse que poderiam se encontrar de vez em quando em algum lugar.

Garganta Profunda não queria usar o telefone nem para marcar os encontros. Propôs que Woodward abrisse as cortinas do apartamento, como sinal. Garganta Profunda verificaria todos os dias; se as cortinas estivessem abertas, os dois se encontrariam naquela noite. Woodward, porém, gostava de deixar o sol entrar de vez em quando e sugeriu outro sinal.

Anos antes, Woodward encontrara na rua uma bandeirola vermelha. Com uns trinta centímetros de largura, estava presa em uma vareta, o tipo de alerta usado na ponta da carga de um caminhão quando ela se projeta da traseira. Woodward levou a bandeirola para casa, e um amigo a fincou em um vaso na sacada. Estava lá desde esse dia.

Quando Woodward tinha alguma pergunta urgente para fazer, recuava o vaso para o fundo da sacada. De dia, Garganta Profunda verificava a posição do vaso. Se tivesse mudado de lugar, encontraria Woodward por volta das duas da manhã, em uma garagem subterrânea previamente combinada. Woodward saía de seu apartamento no sexto andar e descia pela escada dos fundos, que dava para um beco.

Caminhando e pegando dois ou mais táxis até a garagem, ele podia ficar razoavelmente seguro de que ninguém o seguira. Na garagem, os dois podiam conversar por uma hora ou mais sem ser vistos. Se fosse difícil apanhar um táxi, como costuma acontecer de madrugada, Woodward levava quase duas horas para chegar lá a pé. Em duas ocasiões, eles tinham combinado um encontro e o homem não apareceu - experiência deprimente e assustadora, pois Woodward ficou esperando por mais de uma hora, sozinho em uma garagem subterrânea no meio da noite. Uma vez, Woodward achou que estava sendo seguido - dois homens bem-vestidos permaneceram atrás dele por cinco ou seis quarteirões, mas então ele enveredou por uma viela e não os viu mais.

Se Garganta Profunda quisesse um encontro - coisa rara -, o procedimento era outro. Todas as manhãs, Woodward verificava a página 20 do New York Times, que era entregue em seu apartamento antes das sete da manhã. Se Garganta Profunda quisesse vê-lo, haveria um círculo em volta do número da página e, em um dos cantos inferiores, o desenho dos ponteiros de um relógio indicando o horário do encontro. Woodward nunca soube como Garganta Profunda pegava seu exemplar do jornal.

A posição dele no Executivo era extremamente delicada. Nunca dissera a Woodward nada que fosse incorreto. Fora ele quem o avisara, em 19 de junho, de que Howard Hunt estava certamente envolvido em Watergate. Durante o verão, contara a Woodward que o FBI estava louco para saber onde o Post obtinha suas informações. Acreditava que podiam estar seguindo Bernstein e Woodward e recomendara que tivessem cuidado ao usar o telefone. No último encontro, comentara que, para a Casa Branca, o que estava em jogo em Watergate era muito mais do que se imaginava. Nem o FBI entendia o que estava acontecendo. No entanto, a fonte fora deliberadamente vaga a respeito disso, fazendo referências veladas à CIA e à segurança nacional que Woodward não entendera.

No dia em que os indiciamentos foram formalizados, Woodward quebrou a regra do contato telefônico. Garganta Profunda parecia nervoso, mas ouviu enquanto Woodward lia o rascunho de uma matéria. Dizia que os investigadores federais tinham recebido informações de funcionários da campanha de Nixon, segundo os quais havia membros do alto escalão no Comitê de Reeleição do Presidente envolvidos no financiamento da operação de Watergate.

- Está leve demais - afirmou Garganta Profunda. - Pode bater bem mais forte.

A contadora estava certa sobre o dinheiro no cofre de Stans. Tinha financiado o grampeamento de Watergate e "outras atividades de coleta de informações", disse ele. Os principais assessores de John Mitchell eram apenas "alguns daqueles" que controlavam os fundos secretos. Não quis dizer se o ex-procurador-geral tivera conhecimento prévio da tentativa de grampeamento.
As transcrições das conversas gravadas haviam chegado a alguns dos mesmos assessores de Mitchell que tinham liberado os fundos de espionagem, afirmou ele.

Depois da conversa, Woodward leu suas anotações para Bernstein, que datilografou um novo lide:

"Os fundos para a operação de espionagem em Watergate eram controlados por vários assessores principais de John N. Mitchell, ex-diretor da campanha do presidente Nixon, e ficavam depositados em uma conta especial do Comitê de Reeleição do Presidente, conforme apurou o Washington Post."

A matéria também informava: os fundos dispunham de mais de 300 mil dólares destinados a projetos políticos de natureza delicada; Gordon Liddy estava entre os beneficiados com o dinheiro dos fundos; os registros referentes à conta tinham sido destruídos; a renúncia de Hugh Sloan resultara de suas suspeitas sobre Watergate. Talvez mais importante do que os detalhes específicos da história fosse o significado mais geral: os indiciamentos de Watergate não haviam encerrado a conspiração. E alguns dos funcionários do CRP tinham as respostas para muitas das perguntas restantes.

Perto do fechamento da edição de domingo, às 18h30, Woodward telefonou para DeVan Shumway em busca da resposta do CRP. Meia hora depois, Shumway ligou de volta com um pronunciamento.

- Houve e há fundos de caixa neste comitê usados para várias finalidades legítimas, como o reembolso de despesas de viagens. Entretanto, nenhum atual contratado deste comitê utilizou verbas [para finalidades] ilícitas ou impróprias.

A declaração, tomada ao pé da letra, não negava explicitamente o que havia sido noticiado.

Naquela tarde, o candidato democrata, George McGovern, deu uma entrevista coletiva e qualificou a investigação de Watergate de "acobertamento. [...] O que está em causa aqui não é apenas a vida política desta nação, mas a própria moral de nossos líderes em uma época em que os Estados Unidos precisam desesperadamente revitalizar seus critérios morais", disse ele. "E é por isso que prosseguirei com esse caso em todos os cantos deste país."

No dia seguinte, 17 de setembro, os dois repórteres voltaram à casa da contadora. Era uma tarde de domingo, e ela não estava disposta a conversar com nenhum jornalista, sobretudo depois que o Post publicara na primeira página fatos de que apenas ela e poucos outros do comitê de Nixon tinham conhecimento.

Por outro lado, preferia que não ficassem ali parados na porta, suplicantes, pedindo-lhe que ouvisse algumas informações que tinham. Deixou que entrassem. Queriam que ela lhes dissesse exatamente quem eram "L", "M" e "P". Liddy ou LaRue? McCord? Mitchell? Magruder? Porter? Quanto receberam? E os outros da lista?

A contadora estava assustada e parecia querer voltar atrás. No entanto, chamava Bernstein pelo primeiro nome.

No começo, Woodward ficou calado. Bernstein ia soltando cifras. Parou em 700 mil dólares.

- No mínimo; sobraram 350 mil na reserva de caixa.

O gelo parecia rompido. O "L" era de Liddy? Ou LaRue ou alguém mais com a mesma inicial também tinha recebido algum dinheiro?

Ela não quis dizer.

Eles disseram que sabiam que Liddy era o único "L" que recebia daquela reserva secreta.

Ela confirmou.

Estava-se criando um acordo tácito. Ela parecia disposta a confirmar ou negar as declarações, caso os repórteres mantivessem o tom informal e sinalizassem querer apenas confirmações, e não informações de primeira mão. Para que as pessoas acreditassem que Sloan e Stans eram inocentes, disseram eles, era essencial que as notícias do Post fossem exatas. Era nisso que ela podia ajudar.

* A imprensa americana distingue as informações vindas das fontes em quatro níveis: on the record, off the record, on background e on deep background. Usa-se a primeira expressão para informações oficiais em que a fonte é identificada e sua fala pode ser citada entre aspas, indicando quais foram exatamente as palavras empregadas por ela na conversa com o jornalista. Off the record diz respeito a informações que não podem ser usadas para publicação. Informações on background ou for background são informações de bastidor que podem ser publicadas, dependendo de acordo com a fonte, que muitas vezes pede que não seja identificada, mas pode permitir que seu cargo ou sua função sejam mencionados. On deep background é informação de sigilo ou bastidor profundo, que pode ser usada, mas sem atribuição. A fonte, nesses casos, não é identificada de nenhuma forma. No Brasil, de modo geral, usam-se apenas as noções de on the record (oficial) e off the record (não oficial ou sem registro). O Manual da Redação da Folha define três tipo de off: off simples (obtido pelo jornalista e não cruzado com outras fontes), off checado (informação off cruzada com o outro lado ou com pelo menos duas outras fontes independentes) e off total (informação que, a pedido da fonte, não pode ser publicada, mas que é útil para orientar o trabalho de apuração jornalística). [N.E.]

*

TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE
AUTOR Bob Woodward e Carl Bernstein
TRADUÇÃO Denise Bottmann
EDITORA Três Estrelas
QUANTO R$ 39,95 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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