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03/08/2013 - 11h00

P. D. James faz aniversário; conheça a dama do romance policial

da Livraria da Folha

Phyllis Dorothy James nasceu no dia 3 de agosto de 1920, em Oxford, Inglaterra. A autora trabalhou no Serviço de Segurança Britânico e na Polícia do Ministério do Interior. Iniciou a carreira literária aos 42 anos. Em 1991, recebeu da rainha Elizabeth o título de baronesa James de Holland Park.

France Presse
ORG XMIT: 340001_1.tif Literatura: a escritora britânica Phillys Dorothy James. File photo dated January 2001 shows British author P.D. James playing solitaire in her London home. AFP PHOTO
P.D. James, a aniversariante, em sua casa em Londres

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A atual dama do romance policial inglês, que assina "A Torre Negra", "Morte no Seminário", "Sala dos Homicídios" e "Mente Assassina", escreveu "Segredos do Romance Policial", um livro de não ficção publicado em 2012.

O livro conta a trajetória do gênero, iniciada por Edgar Allan Poe e consolidado por Conan Doyle. P. D. James percorre mais de um século de literatura para descreve as mudanças ocorridas ao longo do tempo.

Divulgação
Romance policial é um gênero literário que se difundiu universalmente
Romance policial é um gênero que se difundiu em todo o mundo

O volume traz os escritores mais famosos do gênero em língua inglesa e analisa as principais etapas e diferenças na criação das obras.

Em "O Crânio Sob a Pele", a detetive amadora Cordelia Gray tenta desvendar um caso em que ela é suspeita número um. Esta é a segunda vez que a jovem aparece em um título da autora, a primeira foi em "Trabalho Impróprio Para Uma Mulher", publicado em 1973.

No romance "Causas Nada Naturais", um autor de romances policiais aparece morto. Com as duas mãos cortadas na altura dos pulsos, o escritor perdera sua amada recentemente, depois de ela ter cometido suicídio. Apesar dos membros mutilados, as análises iniciais determinam que sua morte se deu por "causas naturais". Entretanto, um desconhecido resolve se passar pelo defunto.

Abaixo, leia trecho de "Causas Nada Naturais".

*

O cadáver sem mãos estava deitado no fundo de um pequeno barco à vela à deriva, não muito longe do litoral de Suffolk. Era o corpo de um homem de meia-idade, um cadáver pequeno e bem-apessoado, cujo sudário, um terno escuro risca de giz, caía com tanta elegância na morte quanto caíra em vida naquele corpo franzino. Os sapatos feitos à mão reluziam, a não ser por certo desgaste nos bicos, e o nó da gravata de seda estava intacto sob o pomo de adão saltado. O desafortunado viajante estava vestido com cuidadosa ortodoxia para a cidade; não estava vestido para aquele mar solitário; tampouco estava vestido para a morte.

Era início de tarde, em meados de outubro, e os olhos vítreos estavam voltados para cima, em direção a um céu de um azul surpreendente, pelo qual o leve vento sudoeste arrastava alguns retalhos esgarçados de nuvens. O casco de madeira do barco, sem mastro nem suportes para remos, batia de leve sobre as ondas do mar do Norte, fazendo a cabeça se mover e rolar como se dormisse um sono intranquilo. Mesmo em vida, aquele tinha sido um rosto pouco digno de nota, e a morte nada fizera senão lhe imprimir uma expressão vazia e triste. Os cabelos louros brotavam esparsos de uma testa alta e proeminente, e o nariz era tão estreito que a crista branca do osso parecia prestes a perfurar a pele; a boca pequena, de lábios finos, se abrira para revelar dois incisivos saltados que davam ao rosto inteiro o aspecto arrogante de uma lebre morta.

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Escritor aparece com as mãos cortadas neste thriller intrigante
Escritor aparece com as mãos cortadas neste thriller intrigante

As pernas, ainda imobilizadas pela rigidez cadavérica, estavam encaixadas de um lado e de outro da estrutura que protegia a bolina, e os antebraços tinham sido posicionados descansando sobre o banco. Ambas as mãos haviam sido cortadas na altura dos pulsos. A hemorragia fora branda. Em cada um dos antebraços, um filete de sangue traçara uma teia escura entre os pelos louros enrijecidos, e o banco estava manchado, como se houvesse feito as vezes de uma tábua de cortar. Mas era só isso; o resto do cadáver e as tábuas do barco não exibiam nenhum sangue.

A mão direita tinha sido removida com um corte limpo, e a extremidade curva do rádio reluzia, branca; mas a esquerda fora cortada com muito menos perícia, e as lascas serrilhadas de osso, afiadas como agulhas, despontavam da carne aberta. Ambas as mangas do paletó e os punhos da camisa tinham sido arregaçados para a carnificina, e duas abotoaduras de ouro gravadas com iniciais, agora soltas, cintilavam conforme iam girando devagar e refletindo o sol de outono.

O barco, cuja pintura gasta já estava descascando, flutuava como um brinquedo esquecido em um mar quase vazio. No horizonte, a silhueta dividida de uma embarcação de cabotagem descia Yarmouth Lanes; nada mais se via. Por volta das duas da tarde, um pontinho preto desceu cruzando o céu em direção à costa arrastando atrás de si sua cauda de fumaça, e o ar foi cortado pelo alarido de motores. Então o rugido se distanciou, e outra vez não se pôde ouvir nenhum barulho fora o da água batendo no casco do barco e o grito ocasional de uma gaivota.

De repente, o barquinho balançou com violência antes de se aprumar e ir virando devagar. Como se fosse capaz de sentir o forte puxão da correnteza em direção à costa, começou a se mover de maneira mais decidida. Uma gaivota de cabeça negra, que havia pousado de leve na proa e se encarapitado ali, rígida como uma carranca, ganhou o ar com gritos estridentes e começou a voar em círculos acima do cadáver. De forma lenta e inexorável, com a água a chapinhar junto à proa, o barquinho foi levando seu macabro carregamento em direção à margem.

Logo antes das duas da tarde nesse mesmo dia, Adam Dalgliesh, superintendente da Scotland Yard, subiu devagar com seu Cooper Bristol no passeio gramado em frente à igreja de Blythburgh e, no minuto seguinte, passou pela porta da capela norte e adentrou a brancura fria e prateada de um dos interiores de igreja mais belos de Suffolk. Estava a caminho de Monksmere Head, logo ao sul de Dunwich, para passar dez dias de férias de outono com uma tia solteira, sua única parente viva, e aquela era sua última parada no trajeto. Ele havia deixado seu apartamento na City antes de Londres acordar e, em vez de pegar o caminho direto até Monksmere passando por Ipswich, havia bifurcado ao norte em Chelmsford para entrar em Suffolk por Sudbury. Tomara café da manhã em Long Melford, depois pegara a direção oeste, rumo a Lavenham, para percorrer, em ritmo lento e descontraído, a paisagem verde e dourada do mais selvagem e pouco urbanizado dos condados ingleses. Seu humor teria estado totalmente condizente com o dia, não fosse uma preocupação que não o deixava em paz. Antes daquelas férias, ele vinha adiando propositalmente uma decisão pessoal. Antes de voltar para Londres, teria que decidir finalmente se pediria ou não Deborah Riscoe em casamento.

Texto baseado em informações fornecidas pela editora/distribuidora da obra.

 
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