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12/03/2015 - 14h00

'On the Road', traduzido por Eduardo Bueno, ganha nova edição

da Livraria da Folha

Em abril de 1951, inspirado por jazz, benzedrina e café, Jack Kerouac escreveu a primeira versão de "On the Road" num rolo de papel para telex em três semanas. O livro foi publicado anos mais tarde, mas só ganhou notoriedade nos EUA em setembro de 1957, quando Gilbert Millstein elogiou o texto em uma crítica publicada no jornal "The New York Times".

"Após ler a resenha", conta a escritora Joyce Johnson, "Jack foi dormir no anonimato pela última vez. Quando o telefone nos despertou na manhã seguinte, ele era famoso".

A tradução do jornalista Eduardo Bueno, que se tornou uma espécie de embaixador beatnik, chegou em 1984. Publicado originalmente pela editora Brasiliense, o título vendeu mais de 200 mil cópias. Bueno conheceu a obra-prima de Kerouac em 1975, quando comprou "En el Camino" em uma livraria de Buenos Aires.

"On the Road", traduzido no Brasil como "Pé na Estrada", é o relato autobiográfico das peregrinações do autor pelo interior dos Estados Unidos na década de 1950. Kerouac mantinha diversas anotações em suas viagens, que serviram como base para o texto.

Kerouac nasceu em 12 de março de 1922, em Lowel, e surpreendeu a literatura norte-americana por seu modo de escrever, com longos períodos sem pontuação. O escritor morreu aos 47 anos, em 21 de outubro de 1969, de cirrose hepática, supostamente o resultado de um longo histórico de abuso de álcool.

Abaixo, leia trecho de "On the Road".

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PARTE UM

Divulgação
"Jack foi dormir no anonimato pela última vez", relembra Joyce Johnson
"Jack foi dormir no anonimato pela última vez", relembra Johnson

ENCONTREI DEAN PELA PRIMEIRA VEZ NÃO MUITO depois que minha mulher e eu nos separamos. Eu tinha acabado de me livrar de uma doença séria da qual nem vale a pena falar, a não ser que teve algo a ver com a separação terrivelmente desgastante e com a minha sensação de que tudo estava morto. Com a vinda de Dean Moriarty começa a parte da minha vida que se pode chamar de vida na estrada. Antes disso eu tinha sonhado muitas vezes em ir para o Oeste conhecer o país, mas não passavam de planos vagos e eu nunca dava a partida. Dean é o cara perfeito para a estrada simplesmente porque nasceu na estrada quando seus pais estavam passando por Salt Lake City em 1926, a caminho de Los Angeles, num calhambeque caindo aos pedaços. As primeiras notícias sobre ele chegaram através de Chad King, que havia me mostrado algumas cartas que ele escrevera num reformatório do Novo México. Fiquei ligadíssimo nas cartas por causa do jeito ingênuo e singelo com que elas pediam a Chad para lhe ensinar tudo sobre Nietzsche e todas aquelas maravilhas intelectuais que Chad conhecia. Certa vez Carlo e eu falamos a respeito das cartas e nos perguntamos se algum dia iríamos conhecer o estranho Dean Moriarty. Tudo isso foi há muito tempo, quando Dean não era do jeito que ele é hoje, quando era um delinquente juvenil envolto em mistério. Então chegaram as notícias de que Dean havia se mandado do reformatório e estava vindo para Nova York pela primeira vez; falava-se também que ele tinha acabado de casar com uma garota chamada Marylou.

Um dia eu vagabundeava pelo _campus_quando Chad e Tim Gray me disseram que Dean estava hospedado numa daquelas espeluncas sem água quente no East Harlem, o Harlem espanhol. Tinha chegado na noite anterior, pela primeira vez em Nova York, com sua gostosa gata linda Marylou; eles saltaram do ônibus Greyhound na rua 50, dobraram a esquina procurando um lugar onde comer e deram de cara com a Hector's, e a partir de então a cafeteria Hector's se transformou para sempre num grande símbolo de Nova York para Dean. Eles gastaram dinheiro em belos bolos enormes com glacê e bombas de creme.

O tempo inteiro Dean estava dizendo para Marylou coisas do tipo: "Então, garota, cá estamos nós em Nova York, e embora eu não tenha te contado tudo que estava passando pela minha cabeça quando a gente atravessou o Missouri, especialmente na hora em que passamos pelo reformatório de Booneville, que me lembrou do meu problema na prisão, é absolutamente imprescindível dar um tempo em todos os detalhes pendentes do nosso caso e, de uma vez por todas, começar a pensar em planos específicos para nossa vida profissional...". E assim por diante, do jeito que ele falava naquele tempo.

Fui à tal espelunca sem água quente com a rapaziada e Dean abriu a porta de cueca. Marylou estava saltando do sofá, Dean tinha expulsado o inquilino do apartamento para a cozinha, provavelmente para que fizesse café, enquanto ele dava prosseguimento às questões amorosas, já que, para ele, sexo era a primeira e única coisa sagrada e realmente importante na vida, ainda que ele tivesse que suar e blasfemar para ganhar o pão e assim por diante. Dava para perceber isso pela maneira como ele parava curvando a cabeça, sempre olhando para baixo, assentindo como um boxeador novato ao receber instruções, fazendo você pensar que ele estava escutando cada palavra, cuspindo milhões de "sins" e "claros" o tempo inteiro. A primeira impressão que tive de Dean foi a de um Gene Autry mais moço - esperto, esguio, olhos azuis, com um genuíno sotaque de Oklahoma -, um herói de suíças do Oeste nevado. Na verdade ele tinha trabalhado num rancho, o de Ed Wall, no Colorado, antes de casar com Marylou e vir para o Leste. Marylou era uma loira linda, com enormes cachos de cabelos derramando-se num mar de ondas douradas. E ela ficava ali sentada, na beira do sofá, com as mãos pousadas no colo e os olhos caipiras azuis-esfumaçados fixos numa expressão assustada porque estava num pardieiro cinzento e maligno de Nova York do tipo que tinha ouvido falar lá no Oeste, e ela ficava ali pregada, longilínea e magricela como uma daquelas mulheres surrealistas das pinturas de Modigliani num quarto sem graça. Embora fosse uma gatinha, ela era terrivelmente estúpida e capaz de coisas horríveis. Aquela noite todos nós bebemos cerveja, jogamos queda de braço e conversamos até o amanhecer e, de manhã, enquanto fumávamos em silêncio baganas dos cinzeiros na luz opaca de um dia sombrio, Dean levantou-se nervosamente, andou em círculos, pensativo, e decidiu que a melhor coisa a fazer era mandar Marylou preparar o café e varrer o chão: "Em outras palavras, garota, o que estou dizendo é: temos mais é que entrar na dança rapidinho, do contrário, a gente fica aí numa flutuante, sem cair na real, e nossos planos jamais se cristalizarão". Aí, eu caí fora.

Durante a semana seguinte Dean tentou persuadir Chad King, insistindo para que ele o ensinasse a escrever de qualquer jeito. Chad disse que eu era escritor e que ele deveria me procurar se quisesse algum conselho. Neste meio tempo, já havia descolado um emprego num estacionamento, brigou com Marylou num apartamento em Hoboken - só Deus sabe por que eles foram parar lá - e ela ficou tão furiosa e tão profundamente vingativa que o denunciou à polícia inventando uma acusação completamente falsa, confusa e histérica - e Dean teve que se mandar de Hoboken. Portanto, já não tinha onde morar. Veio direto a Paterson, Nova Jersey, onde eu estava morando com minha tia, e certa noite, enquanto eu estudava, houve uma batida na porta, e lá estava Dean, curvando-se cerimoniosamente, balançando a cabeça na escuridão do hall e dizendo: "O-lá! Tá lembrado de mim - Dean Moriarty? Vim pedir que você me ensine a escrever"

"E onde anda Marylou?", perguntei, e Dean disse que ela aparentemente tinha batalhado um punhado de dólares e voltado para Denver - "a piranha!". E então saímos para tomar umas cervejas, já que não poderíamos conversar como queríamos na frente de minha tia, que estava sentada na sala lendo seu jornal. Ela deu uma só olhada para Dean e concluiu que ele era doido.

No bar eu disse para Dean: "Porra, cara, sei muito bem que você não me procurou só porque tá a fim de virar escritor e, afinal de contas, o que é que eu teria a te dizer a não ser que você tem que pegar essa onda com a mesma fissura com que um viciado se droga?". E ele disse: "Sim, é claro, entendo exatamente o que você quer dizer e também já tinha pensado nesses problemas, mas o caso é que eu almejo a realização de todos esses fatores que parecem depender da dicotomia de Schopenhauer para qualquer concretização íntima...". E assim por diante, coisas que não entendi e ele ainda menos. Naqueles dias ele realmente não sabia o que estava falando; para dizer a verdade, era apenas um jovem marginal deslumbrado com a maravilhosa possibilidade de se tornar um verdadeiro intelectual, e gostava de falar com sonoridade, usando, de modo confuso, as palavras que ouvira da boca de "verdadeiros intelectuais"; mas ele não era tão ingênuo assim no resto todo, sabe como é? E só precisou de alguns meses com Carlo Marx para ficar completamente por dentro de toda a gíria. De qualquer forma, nos entendíamos noutros níveis de loucura e concordei que ele ficasse na minha casa até arranjar um emprego e, além do mais, combinamos que algum dia iríamos juntos para o Oeste. Era o inverno de 1947.

[...]

*

ON THE ROAD - PÉ NA ESTRADA
AUTOR Jack Kerouac
TRADUTOR Eduardo Bueno
EDITORA L&PM Editores
QUANTO R$ 29,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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