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26/11/2010 - 16h22

Morre ícone da cultura gay de SP; conheça a biografia de Claudia Wonder

SÉRGIO RIPARDO
editor-assistente da Livraria da Folha

Um dos principais ícones da cultura e militância GLS do país morreu, nesta sexta-feira, aos 55 anos, após quase dois meses de internação no Centro de Referência e Treinamento DST/Aids, na Vila Mariana (SP). Cantora, compositora, atriz, Claudia Wonder escreveu "Olhares de Claudia Wonder - Crônicas e Outras Histórias", um dos raros títulos escritos por transgêneros assumidos no Brasil.

Sérgio Ripardo/Folha Online
Claudia Wonder e arquiteto Duilio Ferronato, em festa do MixBrasil em 2007
Claudia Wonder e arquiteto Duilio Ferronato, em festa do Festival Mix Brasil em 2007

O grupo editorial Summus, sua editora, divulgou que Claudia foi "vítima de uma infecção pelo fungo Cryptococcus neoformans encontrado principalmente nas fezes de pombos". O velório será na sede da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania (Pátio do Colégio, 148/184, centro paulistano), a partir das 18h.

O nome de batismo da paulistana Claudia Wonder é Marco Antonio Abrão. Ela começou sua carreira artística fazendo shows em boates e no teatro. Também atuou em filmes como "O Marginal" (em que contracenou com Tarcísio Meira) e "A Próxima Vítima". Nos anos 80, escreveu letras de música e foi vocalista da banda de rock Jardim das Delícias. Em seguida, formou a banda Truque Sujo.

No final dos anos 80, foi morar na Europa, onde ficou por 11 anos, trabalhando em shows. De volta ao Brasil, participou do CD "Melopéia", que traz sonetos do poeta Glauco Mattoso musicados por vários artistas. Também lançou outros discos, passou a escrever na mídia especializada e se dedicou à militância coordenando estudos sobre identidade de gênero na ONG Flor do Asfalto.

Em "Olhares de Claudia Wonder - Crônicas e Outras Histórias", o leitor encontra diversos textos da diva underground, como entrevistas com figuras do universo dos transgêneros, como Rogéria e Phedra Córdoba, além de crônicas sobre uma variedade de temas, do primeiro baile de travestis do Brasil aos transexuais do Islã.

O livro traz ainda fotos de Claudia como criança e na fase adulta, bem como histórias sobre sua saída do armário. Aos 16 anos, ela comunicou aos pais sua decisão pelo travestismo, deixou de tomar os remédios que o médico havia receitado para conter sua produção hormonal feminina.

Leia abaixo um trecho de "Olhares de Claudia Wonder - Crônicas e Outras Histórias", lançado em 2008.

Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. Conheça o livro "Escrevendo pela Nova Ortografia".

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Divulgação
Claudia Wonder relata suas experiências e faz confissões
Claudia Wonder relata suas experiências e faz confissões

Pode parecer estranho, mas o "armário" também abriga o segmento mais visível dos GLBT: as travestis e as transexuais!

Um dos assuntos mais discutidos pelos grupos organizados na tentativa de diminuir o preconceito contra esse segmento é a prostituição.

Sabemos que muitas trans recorrem a essa prática porque a sociedade não aceita a androginia e as dificuldades na hora de arrumar um emprego são muitas. Mas também sabemos que, sem referências para formar seu próprio ideal profissional e sem perspectivas no mercado de trabalho, é difícil para uma jovem trans deixar de acreditar que seu destino está fadado às calçadas da vida.

Eu sempre quis ser artista, e a Rogéria me serviu de referência desde a infância. Um dia vi a foto dela na revista "O Cruzeiro", vestida de homem e maquiadíssima. Ela segurava uma peruca na mão. Aquilo para mim foi a grande revelação. Lembro-me de que naquele momento pensei: "Quero ser igual a ela!"

A primeira trans que conheci pessoalmente foi Viviane. Ela fazia ponto perto de casa, na avenida do Cursino, no Jardim da Saúde, aqui em São Paulo. Fizemos amizade e com ela pude experimentar o prazer de vestir uma saia e sair por aí. Viviane era enfermeiro, mas depois de se tornar travesti perdeu o emprego e foi obrigado a se prostituir. Ela dizia que se eu me transformasse teria o mesmo destino, porque ninguém daria emprego a uma trans.

Os anos passaram e, apesar das dificuldades e do que disse Viviane, nunca desisti do meu ideal, e hoje tenho uma carreira artística consolidada, vivo do meu trabalho e do que gosto de fazer. Eu me sinto querida e respeitada.

No meu caso existia uma referência de sucesso, que era a Rogéria, e uma perspectiva no mercado de trabalho, o show business. Mas nem todas as trans querem estar no palco, e precisam de outras referências e outros ideais.

Infelizmente, as trans bem-sucedidas em outras áreas não se mostram, ficam no armário escondidas atrás de uma identidade feminina, "disfarçadas" de mulheres.

Não vemos na mídia nem no universo GLBT as engenheiras, as professoras universitárias, as médicas e todas aquelas profissionais que poderiam servir como uma referência fora dos chavões, como cabeleireiras, costureiras, artistas, putas; enfim, fora dos padrões em que estamos acostumados a ver as trans atuando.

E, podem acreditar, muitas vezes elas atuam onde menos imaginamos!

Quando morei na Suíça, eu era sempre convidada a participar de encontros e do núcleo transexual da Associação 360 graus, que é o maior grupo GLBT da Suíça francesa, e fica em Genebra. Lá pude conhecer trans de várias nacionalidades e com aspirações diferentes, como Ane, uma italiana, formada em Engenharia Nuclear, com especialização em Construção.

Ceyhan, minha amiga turca, era jornalista em Istambul, até que um partido islâmico quebrou todo o seu jornal e a ameaçou de morte. Hoje ela está asilada na Suíça, é artista plástica e tem um trabalho maravilhoso chamado "Minha alma nunca", que foi apresentado em várias capitais do mundo, inclusive na Bienal de São Paulo, em 2002, em conjunto com o cineasta Kutlug Ataman, seu compatriota.

Pascale, uma travesti suíça que é "demolidora" - tradução ao pé da letra para a profissão de quem desmancha automóveis. Ela é mecânica e tem um desmanche!

Iyabo Abade, transexual africana, é jogadora de futebol feminino na Nigéria. Iyabo foi a maior artilheira do campeonato nacional feminino nigeriano de 1999, com trinta gols marcados. foi convocada para jogar na seleção nacional do seu país, mas foi afastada. Por causa de rumores sobre sua identidade sexual, foi submetida a exames médicos e não passou no teste de feminilidade. A Federação Nigeriana de Futebol (NFA) pagou sua operação para mudança de sexo e ela voltou ao trabalho, mas não como jogadora e sim como treinadora da seleção feminina do seu país.

Pois é, como podemos ver, quando se trata de vocação profissional, o universo trans também é bem diversificado.

Com experiência, também pude perceber que muitas das trans inseridas no mercado de trabalho se transformaram depois de estabelecidas. Conseguiram o trabalho como "hominho" e, à medida que conquistaram a confiança dos patrões, iam incorporando os signos da feminilidade. Mas apresentar-se num departamento pessoal com roupas femininas e documento masculino é certeza de porta na cara!

O Brasil precisa de leis que garantam a cidadania das pessoas trans, assim como o governo dos Estados Unidos, que multa em 150 mil dólares qualquer empresa que recuse emprego a uma pessoa por discriminação à sua identidade de gênero.

Muito mais que leis, porém, o que precisamos aqui no Brasil é que as trans bem-sucedidas saiam do armário e mostrem que são profissionais respeitadas. Justamente o que elas não querem fazer!

Em contato com algumas delas por e-mail, quando fiz uma reportagem a respeito descobri que elas não querem aparecer porque não desejam ser identificadas como trans, e se negam a pertencer ao "mundo gay".

Esse medo é tão intenso que existem trans que não fazem sexo há mais de dez anos porque têm receio de ser descobertas e perder a paz no meio onde vivem. Será que existe paz na mentira? E seria esse armário tão necessário? São as perguntas que eu deixo no ar.

Eu moro nos Jardins, em meio a uma vizinhança paulistana bem conservadora, mas garanto que o nosso relacionamento é dos melhores. Acredito que minha busca de dignidade faz que todos me vejam com respeito. E sem precisar estar no armário ou dizer qualquer palavra, sou tratada como eu gosto. Dona Claudia. E ponto!

Trans derrubam preconceito no trabalho

Acreditar que transgêneros só trabalham como cabeleireiros, artistas ou prostitutas é um estereótipo, ou seja, uma idéia preconcebida. Entretanto, nem sempre isso acontece, pois, com muita luta, essas pessoas também se destacam em outras profissões.

Em todas as grandes cidades do Brasil e do mundo, existem transgêneros. São pessoas que mudaram a aparência do corpo, do masculino para o feminino, ou o contrário. A definição do transgênero também engloba os transexuais, que não só mudaram o gênero físico, ou seja, a aparência corporal, como também mudaram o sexo, por meio de operação médica.

Esses dois exemplos continuam, erroneamente, sendo chamados pela grande maioria de travestis. Errado porque, com o avanço da ciência na hormonioterapia e siliconização, essas pessoas deixas de simplesmente travestir-se com roupas do sexo oposto. Elas tomaram a forma física e passaram a viver como o outro sexo.

Com a transformação, a pessoa "transgênero" conquista sua liberdade interior, mas ao mesmo tempo perde sua liberdade exterior. Uma das situações em que essa perda é sentida mais nitidamente é na hora de escolher uma profissão.

Geralmente, as trans são conhecidas por trabalhar como costureiras, cabeleireiras, dubladoras ou prostitutas. Mas, isso é só um estereótipo que se criou por não se ter idéia da verdadeira realidade, pois no Brasil e no mundo existem muitas trans que escolheram profissões que fogem do padrão imaginado pelo coletivo.

As histórias de vida e experiências profissionais de cada uma delas têm diferenças, mas também pontos em comum. Seriam histórias como quaisquer outras não fosse a constante luta de cada uma delas contra o preconceito e a discriminação. Apesar dessas dificuldades, todas conquistaram papéis de destaque no ramo que escolheram.

Fórmulas de sucesso? Pode ser que existam, mas tudo também depende de uma enorme vontade própria, vontade de ser vitoriosa e de ser feliz. Fé em si mesma!

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"Olhares de Claudia Wonder - Crônicas e Outras Histórias"
Autora: Claudia Wonder
Editora: Edições GLS
Páginas: 184
Quanto: R$ 39,90
Onde comprar: 0800-140090 ou na Livraria da Folha

 
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