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22/11/2017 - 10h11

Leia trecho de "O Sofrimento É Opcional", de Monja Coen

da Livraria da Folha

Divulgação
Episódios de depressão vividos pela autora serviram de inspiração para as reflexões presentes na obra
Episódios de depressão vividos pela autora serviram de inspiração para as reflexões presentes na obra

Em "O Sofrimento É Opcional", a Monja Coen, um dos principais nomes do budismo no Brasil, esclarece como a prática da religião pode auxiliar no tratamento da depressão.

Considerada um dos males do século 21, a depressão atinge mais de 320 milhões de pessoas no mundo segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Na obra, publicada pela Bella Editora, a autora narra a trajetória de Sidarta Gautama, que atingiu o nirvana tornando-se Buda.

Ela conta também ter se sentido deprimida durante o processo de escrita. "Houve dias em que não queria fazer nada, apenas dormir. Parecia impossível escreve-lo. Fiquei contagiada, reconhecendo que a depressão é comum a todos nós, que há níveis diferentes, que algumas pessoas só passam por depressões profundas uma vez na vida e outras vivem casos recorrentes."

Nascida em São Paulo (SP), em 1947, Cláudia Dias Baptista de Souza, a Monja Coen, é autora de livros como "108 Contos e Parábolas Orientais" e "A Sabedoria da Transformação", entre outros.

Leia abaixo um trecho do livro "O Sofimento É Opcional".

*

Buda e a depressão

"O meu ensinamento é sobre o sofrimento e sua transformação." - Buda

Sidarta Gautama, o príncipe indiano da Antiguidade, teria entrado em depressão na sua juventude? Teria sido o contato profundo com o seu sofrimento e o sofrimento do mundo que o fez procurar as causas deles e os meios de superá-los?

Sidarta vivia em seu castelo, cercado de mimos e festas. Nada lhe faltava. Mulher amada, servos e servas, filho saudável. Seu reino estava em paz e todos, felizes. Certo dia, porém, o príncipe ouviu uma canção questionando a vida e o sofrimento. Tudo, então, se modificou dentro dele. "Porque o mundo está doente, eu estou doente. Porque as pessoas sofrem, eu sofro", declarou mais tarde. Muito mais tarde.

Qual seria, afinal, o sofrimento de Buda? Qual seria o sofrimento do mundo? O que é a depressão? Muitos a qualificam como o mal do século. Mas se trata de um mal apenas deste século ou de um velho conhecido da humanidade, que recebeu nomes diferentes ao longo das eras? Não seria a tuberculose, no Romantismo, resultado da depressão?

Como nossa respiração se altera em momentos de tristeza? Qual é a postura física de um deprimido? Como ele caminha, como fala? E sobre o que fala? De que modo percebe o mundo? Por que só vê as dores, e não as cores e belezas? Que vícios mentais, que estímulos neurais causam tantos pensamentos lúgubres e obsessivos no deprimido? Que forças, drogas ou artimanhas podemos usar para compreender esses vícios mentais e criar novos estímulos neurais? Que treinamentos são necessários para transformar um estado de tamanha desesperança?

Observemos um pouco a vida do Buda histórico, há mais de 2.600 anos, na Índia. O jovem príncipe Sidarta, provocado por uma canção, resolve conhecer o mundo fora do castelo e sai disfarçado, usando roupas comuns. Encontra a doença, a velhice e a morte. Esses encontros acabam por modificar seu estado de espírito. A euforia e a alegria cedem lugar ao questionamento e à dor.

As danças que animavam as noites de Sidarta já não têm o mesmo encanto. As jovens belas - agora ele percebe - adormecem de boca aberta e perdem a beleza. O teatro, diversão predileta da corte, passa a lhe despertar reflexões mais profundas. Nem o amor da esposa nem a alegria do bebê recém-nascido o encantam como antigamente. Algo mudou no príncipe. O sofrimento existe. A depressão existe. Dificuldades e insatisfações são reais. Nenhum humano pode escapar da morte. Por que e para que vivemos?

Há sentido na existência? Os que não morrem cedo envelhecem. Os envelhecidos vão, aos poucos, sendo excluídos pelos mais jovens. Ficam dependentes e marginalizados. Sofrem. Os que adoecem sentem dores. Toda e qualquer criatura pode ficar doente. "Eu posso ficar doente", pensa o jovem príncipe.

Hoje, algumas formas de câncer provocam depressão, como se o paciente morresse antes de morrer, como se lamentasse seu fim antes do fim. Parentes e amigos podem também ser contagiados por essa tristeza profunda. Da mesma forma, outras doenças - a maioria delas - causam depressão, ora leve e passageira, ora aguda e crônica. No entanto, são poucos os deprimidos que conseguem acessar o caminho da verdade e da libertação. São poucos os que conseguem vivenciar a dor, penetrar a dor, tornar‑se a dor e ir além dela.

Fora do castelo, o jovem Sidarta entra em contato com as inúmeras doenças da Índia, principalmente a hanseníase, que dilacerava os pacientes. Ele encontra pessoas com dedos enfaixados e excluídas dos grupos sociais pelo medo do contágio e pela crença absurda de que aquela seria uma enfermidade cármica, resultante de más ações, pensamentos ou palavras ruins do passado. O corpo, que Sidarta enxergava apenas como objeto de desejo, passa a ser visto de maneira diferente.

Anos mais tarde, quando um de seus discípulos se revelou muito apegado a desejos sensuais, Buda lhe recomendou meditar nos cemitérios e crematórios. "Para quê, mestre?", indagou o pupilo. "Para que você perceba como o corpo é transitório." Doenças existem. Doenças podem ser causa de sofrimento, de depressão. Mas a visão da doença também pode dar início a questionamentos existenciais.

"Por que os deuses permitem as enfermidades, inclusive em pessoas boas e gentis? Por quê?", pergunta‑se o príncipe. Ele se senta com o olhar perdido no horizonte. Está triste, embora não lhe falte nada. Seus súditos lhe oferecem divertimentos novos, festas, danças, teatro, comidas, bebidas, carinho. Mas nada consegue alegrá-lo.

Longe do castelo, disfarçado, o jovem Sidarta também se encontra com a morte. Nunca havia se dado conta da importância da morte. Claro que pessoas já haviam morrido dentro do palácio, mas eram levadas embora. A própria mãe biológica do príncipe, a rainha Maia, morreu uma semana após o parto. Sidarta acabou sendo criado pela irmã dela, Mahaprajapati, como se fosse um de seus muitos rebentos - todos filhos do rei Sudodana, também pai de Sidarta, o primogênito.

Quando criança, o príncipe se sentou sob a sombra de uma árvore e observou uma pequena minhoca que se arrastava habilmente sobre a terra.

De repente, um passarinho apareceu, devorou‑a e saiu voando, só que um pássaro maior o pegou em pleno voo e o carregou para longe. Sidarta tinha cerca de sete anos. "Uma forma de vida se alimenta de outras formas de vida", concluiu. Nesse momento, compreendeu a transitoriedade, a impermanência e a transformação.

Àquela altura, apesar de educado dentro do sistema védico das três forças principais - a criadora, a mantenedora e a destruidora, que, em sua alternância sistêmica, mantêm o universo em movimento -, o príncipe ainda não se impressionara com a ideia de morte, extinção, fim. Tampouco se questionara sobre a vida, o nascimento, o início.

Uma tarde, quando caminhava fora do castelo, Sidarta chega à beira do rio Ganges e avista a área reservada às cremações. Lá encontra o corpo de uma jovem brâmane (a casta dos sacerdotes, topo da pirâmide social hindu). Perto de uma pira construída com a melhor madeira, a moça está envolta na mais fina seda vermelha. Seu marido, todo de branco, circunda o corpo dela cinco vezes levando numa das mãos a tocha acesa, feita de palha de arroz. Depois das cinco voltas, que representam os cinco elementos da natureza, o rapaz ateia fogo à madeira sob os pés da amada. Logo as chamas crescem. Pó de incenso de sândalo é gentilmente cremado junto à moça. Em menos de uma hora, todo o corpo derrete e restos dos ossos se misturam às brasas da fogueira.

O príncipe deixa a cerimônia mais pensativo do que nunca. Saíra do castelo para tentar entender a vida, mas agora também precisava compreender a morte. Ele iria morrer, assim como sua mãe adotiva, seu pai, sua esposa e seu bebê. Todos iriam morrer. Então por que nascemos? Para que serve a vida?

Na caminhada, observa vários sadhus, os ascetas andarilhos hindus. Alguns cobertos de cinzas, outros apenas de sunga branca, sentados na posição de lótus, todos se mantêm em meditação profunda. Quem são esses homens? Por que se comportam assim?

"São renunciantes. Procuram o significado da vida, a origem e o fim do sofrimento", responde seu companheiro de passeio.

"Existe essa possibilidade para mim também", pensa o príncipe. "Existe um caminho para a compreensão que pode me libertar da dúvida, da tristeza, do sofrimento." A angústia que o atormentava havia meses finalmente parece fazer sentido.

Ele decide, então, fugir do castelo. Numa noite, sem olhar para trás, deixa a cama alta e macia em que costumava dormir, o carinho de sua esposa e de seu pequeno filho. Abandona o que é difícil abandonar: a riqueza, o respeito, o bem‑estar, o poder, o amor. Corta os cabelos e deixa de lado suas roupas suntuosas. Passa a vestir as de uma pessoa humilde. Agora não há mais de ser identificado pelos cabelos longos dos ksatriyas - proprietários de terras, nobres, guerreiros - nem pelos trajes raros de um príncipe.

Une‑se a um grupo de iogues. Pratica dia e noite, não apenas o Yoga atual, mas também o antigo, que surgira havia mais de 4.000 anos. Mora nas matas e florestas, com os demais praticantes. Todos se alimentam de forma simples. Filosofam sob as árvores e se comprometem a levar um vida digna e ética.

Seis anos se passaram. Sidarta era, sem dúvida alguma, o mais dedicado discípulo. Mas havia algo que ainda o impedia de acessar o samadhi profundo.

Seu mestre o chama e diz: "Você poderia ser meu sucessor direto. Entretanto, sinto que há algo que o impede de penetrar os níveis mais profundos da mente. Por que não se entrega?" E Sidarta responde: "Mestre, há algo que ainda não decifrei. Agradeço seus ensinamentos, que me fizeram despertar e esclareceram muitos aspectos da vida e da morte. Entretanto, preciso continuar minha busca. Se ficasse aqui, estaria enganando a mim mesmo e a toda esta comunidade. Peço suas bênçãos".

Assim foi. Saiu à procura de práticas mais rígidas, mais extremas. Como vencer a si mesmo? Como controlar corpo e mente? Como se libertar dessa angústia e apatia que o invadiam constantemente? Encontrou um grupo de praticantes exigentes. A libertação poderia ser alcançada por jejuns e mortificações persistentes.

Não há quem pense assim hoje em dia? Não há quem se torne anoréxico? Não há quem se corte e se fira? Já não houve e ainda há grupos religiosos que acreditam no sofrimento da carne para a ascese, a elevação espiritual?

Novamente, o jovem Sidarta se torna um excelente discípulo. Come apenas um pinhão por dia. Quando tem sono, não dorme. Quando com sede, não bebe. Quando sente fome, não come. Passam‑se meses, anos.

Certa manhã, ao se levantar para ir até o rio, escorrega e cai. Mal consegue ficar de pé, de tão enfraquecido. Arrasta‑se até uma árvore próxima e se encosta em seu tronco. De longe, uma jovem pastora acompanha as dificuldades do renunciante e se compadece dele. Aproxima‑se e lhe oferece um pouco de arroz‑doce: "Por favor, aceite minha oferta. Não morra". Com a face emaciada, todas as vértebras do corpo à mostra, a mente enevoada, os olhos arregalados, ainda resta ao jovem asceta um pouco de discernimento. Ele aceita e, em silêncio, quebra o jejum. Seus companheiros de prática o consideram um fraco e lhe viram as costas. Consideram que, sendo ele filho mimado de um rei, não tinha fibra suficiente para suportar a fome, a sede e o cansaço e, portanto, não atingiria a libertação.

Sidarta proclama a frase que se tornará sinônimo do Budismo: "Há um caminho que não é de excessos nem de faltas. Esse é o caminho verdadeiro, e eu o chamo de caminho do meio".

Ele aceita, por vários dias, a singela oferta da jovem pastora Sujada. Fortalecido, banha‑se no rio - o que há anos não fazia - e se compromete a sentar‑se em meditação profunda, pelo tempo que fosse necessário, até encontrar o caminho da libertação.

Segundo os estudiosos japoneses, ele teria se sentado em meditação (zazen) do dia primeiro ao dia oito de dezembro. Várias tentações o provocaram. A primeira foi a memória de seu pai, de sua mãe adotiva, de sua esposa, de seu filho. Como estaria o reino? Como estariam todos? Melhor seria voltar e abandonar essas práticas que não o levavam a lugar algum. Entretanto, uma outra voz se fez mais forte nele mesmo: "Não. Não sairei daqui enquanto não encontrar a resposta".

Passam‑se mais alguns dias e a tentação dos sentidos o vem provocar na forma de imagens oníricas de mulheres lindas, danças do ventre, toques suaves e sedutores. Novamente ele se fortalece em seu propósito de atingir a libertação e não é seduzido. As imagens, como o orvalho ao amanhecer, se desvanecem. Continua sentado, ereto, respirando conscientemente, quando surge um novo pensamento obsessivo: "Força prejudiciais, energias perversas me querem derrubar e fazer desistir". Entretanto, ele renova seus votos: "Não desistirei até obter a libertação total".

Contam os relatos posteriores de seus discípulos que todas essas provocações eram de Mara, o rei dos demônios. E que Mara, vendo que seus súditos não conseguiram demover o jovem de seu propósito, faz ele mesmo a última das tentativas: "Você, agora sim, é o Grande Iluminado. Você obteve o que é difícil de ser obtido. Você é o ser humano mais elevado entre todos os humanos". O orgulho era, das tentações, a final. O orgulho pode ser até mesmo causa de depressões e levar as pessoas à delusão (acreditar na ilusão dos sentidos como sendo verdade). A delusão é acreditar que se esteja em um estado físico-mental-espiritual separado e diferente, quer superior ou inferior ao das outras pessoas. A sua dor, sensibilidade, depressão são maiores e mais profundas que as das outras pessoas.

Porém, o jovem já estava acostumado a lidar com as dualidades (de onde vem a palavra "diabo", dois) e, colocando a ponta dos dedos da mão direita sobre a terra, exclama: "Não sou melhor que ninguém. A terra é a minha testemunha".

Enfurecido, o demônio desaparece. Não havia conseguido vencer Sidarta. Este, tranquilo após haver atravessado a noite escura, vê a estrela da manhã e exclama: "Eu e a Grande Terra e todos os seres, juntos, simultaneamente, nos tornamos o Caminho". Experiência de grande libertação e paz. A experiência mística de sábios das mais variadas tradições espirituais. A dualidade foi compreendida e absorvida pelo grande Eu - também chamado de grande Vazio. Tudo e todos, todas as experiências, sofrimentos e alegrias, dúvidas e certezas, noite e dia, sol e lua, pessoas sábias e pessoas tolas, depressões e êxtases, todos reunidos em um só instante de clareza mental.

Sidarta torna‑se um Buda, um ser iluminado. Agora, sim, caminha com leveza e alteza.

Não a alteza do mundo, do orgulho, da posição social, do poder, da fortuna, mas a alteza dos sábios, dos comedidos, dos iluminados e bondosos seres. Reencontra seus antigos companheiros de ascese. Magros e fracos, observam a luz que irradia dos olhos de Sidarta e clamam por seus ensinamentos.

Eles estão em Sarnasti, no Parque dos Cervos. Muitos desses animais pastam à sua volta. Sidarta senta e oferece o primeiro ensinamento após sua iluminação. Esse ensinamento é o que usarei como base para a reflexão deste livro: o primeiro discurso do Darma, chamado também de As Quatro Nobres Verdades.

Você quer me acompanhar? Talvez duvide. Talvez creia. Questione. Caso considere adequado e bom, pratique. Caso contrário, descarte.

Quero apenas que você seja feliz e reencontre o Caminho de apreciar a vida e a morte. Sem ansiar por uma nem se amedrontar com a outra; apenas viver e morrer com plenitude a cada instante. Tudo o que existe é o agora. Este agora é todo o passado e todo o futuro manifesto em uma partícula leve de oxigênio que suavemente penetra suas células, provocando conexões neurais de bem‑estar e libertação. Leia, compreenda e pratique, respirando conscientemente.

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O SOFRIMENTO É OPCIONAL
AUTORA Monja Coen
EDITORA Bella Editora
QUANTO R$ 30,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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