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29/03/2013 - 14h30

Leia trecho de 'A Ascensão da Classe Criativa'

da Livraria da Folha

Em "A Ascensão da Classe Criativa", Richard Florida analisa uma mudança no cenário econômico mundial devido a uma nova safra de trabalhadores, como engenheiros e cientistas da computação, que passaram a viver e a pensar em seu ofício como os artistas faziam.

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Richard Florida, professor de business e criatividade na Universidade de Toronto, é autor de "O Grande Recomeço" e especialista em planejamento, desenvolvimento econômico e tendências socioculturais. Leia um trecho do exemplar.

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A NOVA CLASSE

Reprodução
Em livro, Richard Florida relata uma mudança no cenário econômico
Em livro, Richard Florida relata uma mudança no cenário econômico

A criatividade como imperativo econômico fica evidente com a ascensão de uma nova classe que chamo de classe criativa. Cerca de 38 milhões de americanos, 30% dos indivíduos economicamente ativos nos Estados Unidos, pertencem a essa nova classe. Segundo minha definição, o centro da classe criativa é formado por indivíduos das ciências, das engenharias, da arquitetura e do design, da educação, das artes plásticas, da música e do entretenimento, cuja função econômica é criar novas ideias, novas tecnologias e/ou novos conteúdos criativos. Além desse centro, a classe criativa também abrange um grupo mais amplo de profissionais criativos que trabalham com negócios e finanças, leis, saúde e outras áreas afins. O trabalho dessas pessoas envolve a solução de problemas complexos, que requer uma boa capacidade de julgamento, bem como alto nível de instrução e muita experiência. Todos os membros da classe criativa - sejam eles artistas ou engenheiros, músicos ou cientistas da computação - compartilham o mesmo éthos criativo, que valoriza a criatividade, a individualidade, as diferenças e o mérito. Para esses indivíduos, todos os aspectos e todas as manifestações da criatividade - tecnológicas, culturais e econômicas - estão interligados e são inseparáveis.

A principal diferença entre a classe criativa e outras classes está relacionada ao que ela é paga para fazer. Os membros da classe trabalhadora e da classe de serviços recebem sobretudo para executar de acordo com um plano. Já os da classe criativa ganham para criar e têm muito mais autonomia e flexibilidade para isso do que as outras duas classes. É claro que há uma zona cinzenta e questões de limites a serem consideradas no que diz respeito ao meu esquema. Embora alguns possam criticar minha definição de classe criativa (e as estimativas numéricas que se baseiam nela), acredito que seja bem mais precisa do que as definições mais amorfas de trabalhadores do conhecimento, analistas simbólicos ou profissionais técnicos e especializados que existem hoje.

A estrutura de classes nos Estados Unidos e em outras nações desenvolvidas tem sido alvo de intensos debates por bem mais de um século. Para uma série de autores dos séculos XIX e XX, a grande questão foi a ascensão e, em seguida, o declínio da classe trabalhadora. Já para Daniel Bell e outros autores da segunda metade do século XX, o tema central passou a ser o surgimento da chamada sociedade pós-industrial, caracterizada pelo crescimento da indústria de serviços em oposição ao setor manufatureiro. Hoje, a grande questão - que já vem se revelando há algum tempo - gira em torno da ascensão da classe criativa, a classe que mais cresce nesta era.

A vertiginosa ascensão dessa classe é o motivo de a sociedade moderna parecer tão estranha ao segundo viajante do tempo. Ao longo do século XX, a classe criativa nos Estados Unidos passou de aproximadamente 3 milhões de trabalhadores ao que ela é hoje, um crescimento de mais de 1.000%. Se considerarmos apenas o crescimento de 1980 para cá, veremos que ela dobrou de tamanho. Cerca de 15 milhões de americanos, mais de 12% da força de trabalho, fazem parte do Centro Hipercriativo dessa nova classe. Hoje, a classe criativa nos Estados Unidos é maior do que a tradicional classe trabalhadora, formada por aqueles que trabalham nos setores de produção, construção e transporte, por exemplo.

O século XX foi palco da ascensão e do declínio da classe trabalhadora, que atingiu o auge entre 1920 e 1950, com 40% da força de trabalho americana. Depois disso, veio a longa queda, chegando a um quarto da força de trabalho nos Estados Unidos hoje. A classe de serviços - que inclui o mercado de alimentação, o trabalho de escritório e a assistência pessoal, por exemplo - cresceu gradativamente ao longo do século XX, passando de aproximadamente 16% a 30% da força de trabalho americana entre 1900 e 1950 antes de chegar a mais de 45% em 1980. Com cerca de 55 milhões de membros, a classe de serviços é, hoje, a maior classe em termos absolutos.

Embora a classe criativa ainda seja menor do que a classe de serviços, seu papel econômico vital a torna mais influente. Além disso, ela é significativamente maior do que a classe de "homens organizacionais", descrita por William Whyte em seu livro de 1956. Assim como a classe empresarial de Whyte, que "determinou o espírito americano" nos anos 1950, a classe criativa é a classe normativa desta era. Seus princípios, porém, são muito diferentes: individualidade, liberdade de expressão e abertura à diferença são privilegiadas em detrimento de homogeneidade, conformismo e adequação, que definiram a era organizacional. A classe criativa é dominante também em termos financeiros - em média, seus membros ganham duas vezes mais do que os membros das duas outras classes.

Os sacrifícios a que os membros da classe criativa estão dispostos por dinheiro também são muito diferentes dos realizados pelos homens organizacionais de Whyte. Somos poucos os que trabalhamos para a mesma grande empresa por toda a vida, e somos bem menos propensos a relacionar nossa identidade ou autoestima àqueles para quem trabalhamos. Nós levamos em consideração tanto questões financeiras quanto a possibilidade de sermos nós mesmos, de determinarmos nosso horário, de realizarmos trabalhos instigantes e de vivermos em comunidades que refletem nossos valores e prioridades. De acordo com uma grande pesquisa realizada com profissionais de tecnologia da informação - um subgrupo relativamente conservador da classe criativa -, desafio e responsabilidade, horário flexível e um ambiente de trabalho seguro e estável estão acima do dinheiro no que diz respeito ao que valorizam no emprego. A reviravolta da vida privada pode ser resumida por esta estatística bastante divulgada nos Estados Unidos: menos de um quarto de todos os americanos (23,5%) pesquisados no censo de 2000 vivia em um núcleo familiar "convencional" - queda significativa em relação a 1960, cujo percentual correspondente era 45%. Essas mudanças profundas não são, como dizem por aí, o resultado dos excessos e imprudências de sujeitos mimados. Elas estão calcadas numa lógica econômica simples. Nós vivemos da nossa criatividade; logo, procuramos cultivá-la e buscamos ambientes que possibilitam seu desenvolvimento, assim como o ferreiro cuidava de sua oficina, e o fazendeiro cuidava do gado que puxava seu arado.

A criatividade no mundo do trabalho não está limitada a membros da classe criativa. Trabalhadores de fábricas e até prestadores de serviço menos qualificados sempre foram criativos de alguma maneira útil. Sem falar que o conteúdo criativo de muitas funções associadas à classe trabalhadora e à classe de serviços vem crescendo - exemplo disso são os programas de melhoria contínua de várias fábricas, que convidam operários a contribuir também com ideias. Baseado em tendências como essa, suponho que a classe criativa, ainda em ascensão, continuará a crescer nas próximas décadas à medida que atividades econômicas mais tradicionais se tornem suas funções. Como o leitor verá no último capítulo deste livro, não acredito de forma alguma que a solução para melhorar as condições de vida dos mal pagos, subempregados e desprovidos seja implementar programas sociais - nem restituir o trabalho operário dos velhos tempos -, mas estimular a criatividade desses indivíduos, pagar devidamente por isso e integrá-los à economia criativa.

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"A Ascensão da Classe Criativa"
Autor: Richard Florida
Editora: L&PM Editores
Páginas: 434
Quanto: R$ 40,80 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.

Texto baseado em informações fornecidas pela editora/distribuidora da obra.

 
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