Saltar para o conteúdo principal
 
29/11/2012 - 16h30

'O Fenômeno Humano' investiga reais objetivos da viagem de Darwin

da Livraria da Folha

No dia 27 de dezembro de 1831, o britânico Charles Darwin, com apenas 22 anos, embarcou no HMS Beagle. O navio --um dos mais famosos da história da ciência-- zarpou em missão de levantamento topográfico da América do Sul e regiões circunvizinhas. A jornada, prevista para cerca de 20 meses, estendeu-se por cinco anos e determinou toda a carreira do naturalista.

Divulgação
Autor debate os reais objetivos da viagem de Charles Darwin no H.M.S. Beagle
Autor debate os reais objetivos da viagem de Darwin no H.M.S. Beagle

Quando surgia a oportunidade de aportar, o jovem coletava espécimes em terras pouco exploradas. Na jornada começou a formular as ideias que culminariam no volume "A Origem das Espécies", conhecido como "o livro que abalou o mundo".

Para Agassiz Almeida, escritor e professor fundador da Faculdade de Ciências Econômicas de Campina Grande (PB), a viagem de Darwin também tinha objetivos escusos : o papel de agente de Sua Majestade. Em "O Fenômeno Humano", Almeida resgata e reconstrói a viagem do naturalista britânico.

Com o subtítulo "Reais Objetivos da Viagem de Charles Darwin no H.M.S. Beagle", o título acaba de ser publicado pela editora Contexto. Almeida também é autor de A República das Elites", "500 Anos de Povo Brasileiro: Uma Visão Crítica e "A Ditadura dos Generais".

Abaixo, leia um trecho de "O Fenômeno Humano".

*

Por que escrevi este livro

Do arquipélago Fernando de Noronha às ilhas Galápagos.
Praça Josita Almeida. Barra de Santana, PB.

Num certo dia do ano de 1975, ao despertar da manhã, nascia este livro O fenômeno humano.
Daquele recanto bucólico dos meus antepassados, eu pude olhar serenamente o mundo e começar a compreender a vida. Por instantes, chega-me este pensamento de Pascal: "O silêncio eterno desses espaços infinitos me assusta".

Da larga experiência que a vida me ofereceu, desde as primeiras interrogações, ainda criança, ao Pe. Mariano, à prisão, no verdor dos anos, nas masmorras da Ditadura Militar de 1964, aos proscênios da Assembleia Nacional Constituinte, em 1986, até a convivência com pensadores e líderes revolucionários, como João Pedro Teixeira, Pedro Fazendeiro, Francisco Julião, Darcy Ribeiro, Cristovam Buarque, Ernesto Sábato, José Saramago, Florestan Fernandes, Miguel Arraes, Pablo Neruda, Gregório Bezerra, Lévi-Strauss, Pe. José Comblin e Carlos Lamarca, surgia este livro.

Sou um egresso da geração de 1960-70, cuja flama deixou na recente história as suas utopias, indignações e sacrifícios, em Cuba, Vietnã, Afeganistão, Brasil, França, Argélia, Argentina e em quase todos os países.

Cada geração deixa as suas pegadas nas areias do tempo, e assim vai desaparecendo o ruído que produziu à sua época, projetando-se, todavia, no curso da história as suas lições e exemplo.

O tempo avança implacavelmente. Do âmago da natureza, irrompem constantemente vidas e vidas que nascem e fenecem. Tudo é fecundado; nada escapa do monumental e fascinante movimento dos seres e do turbilhão silencioso, e, algumas vezes, tempestuoso do mundo.

Por um momento, o homem para, medita, inquieta-se e se interroga: a que destino nos levará este cenário da natureza soturnamente soberbo? Nas noites dos tempos, misterioso silêncio deixa o seu significado.

O homem, este interrogante do mundo, carrega consigo as suas melancolias e angústias. Caminhante solitariamente só, neste universo, debaixo de mistérios que o sufocam e o atormentam. Impressiona-nos a mobilidade e magnitude dos reinos animal e vegetal. Neles o tempo marca uma expressão de força que se renova incessantemente.

Nos meus cariris, de Boa Vista e Barra de Santana, lá está o velho umbuzeiro; ele produz, como se fosse possuidor da eterna juventude, flores, frutos e sementes. Muitas vezes, debaixo de sua sombra, abri com ele silencioso diálogo sobre a condição humana, do qual irromperam muitos pensamentos para a elaboração deste livro. Contemplei a paisagem que, outrora, nos meus tempos de infância e adolescência, povoava os meus sonhos e esperanças. Aquele centenário e vergastado umbuzeiro quase nos fala na sua mudez melancólica; acolá, por sobre um morro, um juazeiro eriçado de milhares de frutinhas verdes e amarelas. Oh! De que constelação essa árvore das caatingas nordestinas se veste?

Em meio a esses pensamentos, que pareciam adentrar em mim de minuto a minuto, a resplandecer lá longe, uma réstia de luz me ilumina. Comecei a acreditar que poderia olhar o futuro. O rio Paraíba apareceu-me como um ser gigantesco, a se mover numa espécie de sucuri. Nas suas cheias tormentosas ele arrebentava e carregava montões de objetos, pedaços de paus, árvores inteiras, corpos de animais, até cadáveres humanos. Para onde ides, companheiro, indaga um cigano andaluz, que, de tempos em tempos, atravessava por aquelas bandas do cariri. O rio mudo não lhe deu resposta. O mar soluçou um grito que ecoou até ali. O rio da minha infância, em disparada correnteza, abraçou a pátria oceânica.

A obscuridade envolvia a Terra; as estrelas nasciam. Às margens do rio as pequenas ondas marulhavam; de muito longe elas vinham e não sabiam para onde iam, passavam dolentes como quem não quer chegar a lugar nenhum. Eu queria abraçar o rio e compreender a sua mudez, as relvas, os pássaros, e gritar bem alto e perguntar ao infinito das coisas e dos espaços como tudo isto se formou, nessa harmonia de vidas e vidas a se sucederem ritmadas, para um fim indefinido.

Redemoinho mental me sacode; mergulho em elucubrações dolorosas. Na solidão, entreguei-me completamente a esse cenário. De repente, chegou-me alguém com os olhos úmidos e roxas olheiras. Olhou-me com olhares afetivos e apreensivos: "Vamos, meu filho", falou. Saímos a caminhar para um alto de onde se descortinava com maior amplitude o rio Paraíba. Segui com os olhos as sinuosidades do rio, até um maciço de angicos, sob o qual vira desfilar tocantes recordações da minha infância. Dali, eu pude contemplar aquelas paragens onde se encontram duas eternidades, a do nascer e a do morrer, e, ao longe, a casa onde nascera esta criatura com quem caminhava, minha mãe, Josita Almeida, e o vetusto cemitério, no qual repousam na paz infinita os corpos dos meus antepassados.

Debatia-me por entre angústias e incertezas. As sombras da tirania militar instaladas no país me oprimiam. Queria pensar livremente. Ouvir o rumorejar das águas do rio, o chacoalhar dos bois na campina, o murmúrio dos ventos por entre as folhas do pé de umbuzeiro debaixo do qual muitas vezes me recolhi. Sombras de vultos fardados pareciam me acompanhar. Indignava-me. Um torpor me envolvia. Olhava em torno de mim e em mim.

Que enorme sensibilidade se deixar flutuar no oceano dos nossos pensamentos. As provações dos últimos meses me desvendaram nova visão do mundo, e cavaram em mim um enorme fosso entre o presente e o passado.

Precisava reagir. Acreditar que, acima das eventuais circunstâncias do presente, a vida é um fenômeno que se projeta para o futuro.

A partir daí, vi-me sacudido numa constante inquietude de estudos, pesquisas, encontros e desencontros, e, afinal, interroguei-me sob o pálio deste pensamento de Descartes: Quod vitae sectabor iter? Que estrada hei de seguir na vida?

Jatos de alegria me envolvem quando encontro nas obras dos grandes pensadores a emoção das suas histórias, vidas de ardentes passados revolucionários que abriram à humanidade os caminhos da liberdade contra tiranos.

Mergulhei nos pensamentos arrebatados de escritores que se insurgiram contra toda forma de imposição ao ser humano: política, ideológica, religiosa ou científica. Inebriaram-me sempre os grandes tornados revolucionários que sacudiram os povos, com os seus heróis e mártires. Parecia que um pouco de mim se desprendia para ir joguetear-se naqueles altos momentos da história.

Para este intento, nunca me faltou determinação. Nada prejudica mais o homem de letras do que quedar-se sem energia. Só depois que deixei a política e fiquei só, sem o vigor da mocidade em volta de mim, fui impelido a remoçar. Assim, pude construir esta obra literária. O isolamento fortalece o indivíduo e o exalta.

Algo, como um objetivo imenso, mesmo nos tensos momentos da minha vida, dominou-me sempre desde os distantes anos da mocidade: um dia poder contemplar, do alto da cordilheira dos Andes, o oceano Pacífico, duas grandezas, diante das quais Pablo Neruda certa vez me disse, em Isla Negra, que foram, sem dúvida, as verdadeiras inspirações para a construção do seu Canto geral. Nascia esta obra-prima do vate latino-americano sob a aura que duas grandezas encerram: os Andes e o Pacífico.

Olhemos os séculos que hão de vir. Tenhamos o descortino de perguntar, apoiados em lógica científica: como podemos projetar o homem nos próximos quatrocentos ou quinhentos anos? Lancemos olhar retrospectivo nos duzentos anos passados. Quem era o homem de então? Onde ele estará nos cinco séculos que hão de vir?

Para a construção desta obra, direcionei-me por fenômenos imanentes à própria origem e evolução da vida: a) a auto-organização das células; b) a autorreprodução das células; c) a autoextinção das células conhecida como apoptose, ou seja, a programação das células para a morte, autodeterminando o seu ciclo biológico, cujos fenômenos nos fizeram despertar sobremaneira para a elaboração deste livro. Interroguei-me muito, em alguns momentos até com desvairada obsessão.

Como teriam se originado lá pelos bilhões de anos atrás, em algum lugar e instante da Terra primitiva, as células a se aglutinarem e desencadearem o fenômeno da vida? Envolto em perplexidades, ouvi no curso da vida a linguagem dos místicos, carregada de dogmatismos e de certezas sobrenaturais. Aprendi também, em leituras e na própria palavra de estudiosos, filósofos, cientistas e certos aureolados por prêmios, as suas verdades incontestes. Por instantes perdi-me. A grande maioria julga-se senhora das suas certezas.

Descremos de certos cientistas empanturrados de Genes egoístas; Deus, um delírio; Deus não é grande; Deus que nunca existiu; O acaso e a necessidade; Fim das incertezas; O peixe que fomos; e de místicos encilhados em dogmas divinos. Assisti ao longo desfile dos seus evangelhos, salmos, suras, benditos e, ao final, o coro universal do seu falatório com Deus.

Nesse labirinto de ideias e interrogações não pude me encontrar.

Entre os senhores das verdades catedralícias dos quais emana a soberba de suas geniais inteligências, ecoa este brado: A vida originou-se por força da autoctose. Em meio a delírio de vaidades, uns que falam com Deus e outros tantos que renegam o Criador e desconhecem tudo, difícil, sem dúvida, é interagir com eles e suas alcantiladas verdades. Fiéis, aos milhares, vão ao encontro da Providência Divina com a cegueira dogmática dos fanáticos. Os semideuses das verdades científicas renegam o Criador e riem da condição humana, sob o vaticínio do evolucionismo implacável de que a vida se encerrará num grande Nada.

Por longos anos, bracejei nas águas de pensamentos e ideias revoltas.

Parei, refleti, olhei o mundo. Procurei ouvir, conhecer e compreender os homens e suas circunstâncias. De quem ouvi e aprendi as verdadeiras lições? Dos homens humildes e das pequenas coisas da natureza. Delas extraí profundas reflexões.

Os sabidões não argumentam, impõem as suas certezas. Os místicos interagem com Deus e nós somos apenas testemunhas desse diálogo divino.

Corri com sofreguidão os vastos campos das ciências humanas, não me especializei em nenhum. O especialista tem a sua inteligência direcionada exclusivamente para determinada área. Ao contrário, a natureza nos oferece multifacetados fenômenos. Procurei estudar um pouco deste mundo no qual fomos lançados, e dele arrancados sem conhecermos o porquê. Somos, assim, condenados a um determinismo implacável. Um dia, a inteligência humana desvendará e vencerá este enigma e alcançará a magnitude de sua energia mental, vencendo a morte não morrendo.

Lá, nos anos iniciais de minha adolescência, um livro na biblioteca pública me chamou a atenção: A origem das espécies pela seleção natural, de Charles Darwin. Levado por certa curiosidade, procurei me informar sobre essa matéria. Um coro de unanimidade saltava à minha frente: Que gênio, este Darwin, descobriu a origem das espécies!

*

"O Fenômeno Humano"
Autor: Agassiz Almeida
Editora: Contexto
Páginas: 400
Quanto: R$ 31,90 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.

Texto baseado em informações fornecidas pela editora/distribuidora da obra.

 
Voltar ao topo da página