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14/01/2011 - 16h04

Influente economista do século 20 escondia casos homossexuais

da Livraria da Folha

O inglês John Maynard Keynes (1883-1946), fundador da macroeconomia moderna e considerado um dos maiores economistas do século 20, tinha que manter seus diversos casos homossexuais em sigilo para não ser hostilizado pela sociedade inglesa da época.

Divulgação
Keynes chacoalhou o pensamento econômico ao fundar a macroeconomia moderna
Keynes mantinha múltiplos casos amorosos masculinos em segredo

Além de economista e especulador na Bolsa, Keynes aconselhava políticos e fazia negociações internacionais, além de exercer a função de jornalista, professor na Universidade de Cambridge, autor e diretor de teatro e agricultor.

Sua obra-prima, "Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda", publicada originalmente em 1936, entrou na lista dos cem melhores livros de não ficção do século 20, resultado de votação organizada pelo caderno "Mais!" da Folha em 1999.

O keynesianismo dominou, praticamente sem concorrentes, o pensamento econômico por mais de duas décadas. A crise financeira iniciada em 2008 fez ressurgir o debate sobre suas ideias.

Lançado neste ano pela L&PM Editores, "John M. Keynes" reúne dados biográficos, esclarecimentos teóricos e indicações bibliográficas. O volume foi escrito por Bernard Gazier, professor de Economia na Universidade Paris.

Leia, abaixo, um trecho do exemplar.

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O oráculo de Cambridge - Ei-lo definitivamente lançado no grande público. Ele retoma suas aulas em Cambridge, mas agora é um especialista em questões internacionais, convidado, por exemplo, à conferência monetária de Gênova em 1922, no auge da hiperinflação alemã. É ao mesmo tempo, ou sucessivamente, professor, jornalista e diretor de revista, especulador na bolsa (é rapidamente visto como uma figura de respeito na City de Londres, alternando sucessos rápidos e ruínas igualmente súbitas, seguidas de recuperações que apagam suas perdas), conselheiro de partidos políticos e de homens de governo, mecenas, conferencista, agricultor...

Mas uma dupla mudança acontece entre os anos 1921 e 1925. Primeiro em sua vida privada: depois de múltiplos casos amorosos masculinos mantidos em segredo - a sociedade inglesa da época, marcada pelo puritanismo, é particularmente hostil em relação aos homossexuais -, ele conhece Lydia Lopokova, bailarina russa do Balé Diaghilev, e casa-se com ela em 1925. Muito inteligente e com uma cumplicidade constante, Lydia levou adiante uma carreira descontínua no teatro e soube proteger seu grande homem sem sufocá-lo. "Os Keynes" tornam-se uma figura central do mundo artístico de Londres e protegem as artes e os artistas, enquanto Maynard se lança numa trajetória de inovação intelectual radical.

A segunda mudança é, de fato, a ruptura com a tradição econômica marshalliana, que dominava amplamente o saber econômico dos anos 1900-1920 na Grã- Bretanha. Discípulo recalcitrante de Alfred Marshall, mas ainda assim discípulo, Keynes presta-lhe uma calorosa homenagem por ocasião de sua morte em 1924. No entanto se distancia, primeiro, das prescrições de sua escola, depois, cada vez mais, dos fundamentos de sua análise. É seu excepcional conhecimento pragmático dos problemas econômicos concretos que motiva inicialmente o distanciamento: com alguns outros, e com brilho, Keynes se convence então de que não se deve sair de dificuldades econômicas "por baixo" - por exemplo, retornando ao padrão-ouro anterior à guerra no que se refere à libra esterlina. Diante da inflação resultante da guerra, essa restauração supunha fazer baixar o nível dos preços e dos salários. Era preferível, em última instância, não manter os compromissos financeiros assumidos pelos que haviam tomado empréstimos em libras, para não arriscar diminuir a atividade econômica que fazia um esforço para se reaquecer

A Inglaterra vitoriosa é então o "homem doente da Europa"; sua economia demora a crescer e tem uma taxa de desemprego muito alta. Inicialmente especializado nos problemas econômicos e monetários internacionais, Keynes identifica um inimigo maior no âmbito da economia nacional britânica: as prescrições deflacionistas do ministério das Finanças, o "Treasury view" que, a partir de 1929, será seu alvo principal. Ele ataca com vigor os sucessivos governos que tentam restaurar a confiança através da disciplina orçamentária e da austeridade. Qual Cassandra, anuncia as catástrofes que vão resultar dessa política. Cada campo mantém suas posições. A resposta do Tesouro é sempre a mesma: uma política expansionista se arrisca a provocar inflação e a reforçar a desconfiança. Keynes responde que seus contraditores, confiantes nos mecanismos de restabelecimento automático da economia, supõem "a inexistência do fenômeno mesmo que deve ser estudado".

A chegada da Grande Crise apenas amplifica as dificuldades persistentes da Grã-Bretanha. Assim Keynes não é pego de surpresa, como aconteceu com a maior parte dos economistas do mundo inteiro. Enquanto seu país mergulha na tormenta, ele conserva a mesma posição, multiplica as advertências e... retorna à moda. Como resultado de seus artigos e declarações, um grupo de trabalho é criado em 1930: a Comissão MacMillan. Nela se encontram os principais economistas ingleses: Pigou, Lionel Robbins, Hubert Henderson... Keynes expõe a eles, de maneira simplificada, as principais análises de seu livro ainda em andamento: Treatise on Money, que será publicado nesse mesmo ano. Entre os meios que propõe para sair do marasmo figuram o estímulo ao investimento e, na falta dele, um aumento do protecionismo. Em 21 de setembro de 1931, a Grã-Bretanha abandona o padrão-ouro. Em três meses, a libra esterlina perde 30% do seu valor, o que equivale a uma retomada da economia. Keynes aplaude: como ele diz, o país escapa à "maldição de Midas", o rei mítico que transformava em ouro tudo o que tocava e morreu de fome.

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"John M. Keynes"
Autor: Bernard Gazier
Editora: L&PM Editores
Páginas: 128
Quanto: R$ 10,20 (preço promocional)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

 
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