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13/02/2014 - 16h04

'Zico não ganhou a Copa? Azar da Copa'

da Livraria da Folha

Divulgação
Como o garoto franzino se transformou em um dos maiores jogadores de todos os tempos
O garoto franzino que se tornou um dos maiores jogadores do mundo

Se você procurar na internet quem disse o título deste texto, encontrará um sem-número de autores. A ideia parece ser compartilhada por muitos.

Afinal, ganhar a Copa foi um feito que faltou na carreira de Zico ou é a Copa que deve se lamentar por não ter sido conquistada? Tanto faz. O Galinho de Quintino tem seu lugar entre os maiores nomes da bola.

Por meio de depoimentos de colegas, como Adílio, Júnior e Roberto Dinamite, e de técnicos, como Joel Santana e Valdir Espinosa, em "Simplesmente Zico", Priscila Ulbrich apresenta os bastidores da carreira e a trajetória de Arthur Antunes Coimbra, o maior ídolo do Flamengo.

O título tem lançamento previsto para o dia 21 deste mês e está em pré-venda na Livraria da Folha. Abaixo, leia um trecho.

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O Pelé Branco
Alex Medeiros - jornalista

Na cabeça dos milhões de técnicos e analistas de futebol brasileiros, o único ponto de concordância é o reinado perpétuo de Pelé como o maior jogador de todos os tempos. A partir daí, tudo muda; é um caleidoscópio de opiniões que torna o esporte bretão o oxigênio de uma nação.

Tendo a opinião sobre Pelé como um cordão umbilical que une todos numa mesma família, esses milhões de especialistas divergem em qualquer outro assunto futebolístico, começando pela escolha de quem seria o segundo depois do Rei.

Há os que acham que foi o Garrincha, os que teimam ter sido Maradona, os que juram que foi o Zizinho (aquele que inspirou o próprio Pelé), alguns muitos querem o Beckenbauer, outros apostam no DiStefano e no Puskas, e a Fifa diz que foi o Cruijff.

No debate para definir um vice-rei do futebol, a turba não poupa uma briga e muita saliva. Metade do Brasil se divide entre dezenas de candidatos. Aí o leitor pergunta: e a outra metade, não discute, não opina, ignora o ópio de um povo, a religião maior de um país?

E eu respondo: a outra metade, meus amigos, é a torcida do Flamengo e mais um "outro tanto", como diria minha mãe Dona Nenzinha. Nesse universo, a opinião é expressa em uníssono e não tem pirrepes, como "poetariava" o paraibano Zé Limeira.

Porque depois do "negão", minha gente, só o branquinho Zico, a mais gloriosa representação divinal do futebol brasileiro depois do deus de Três Corações. Não à toa ele foi batizado pela imprensa inglesa de White Pelé, logo após derrotar o "real team" dentro do estádio de Wembley.

Zico não foi somente um herói e ídolo dos rubro-negros. Conseguiu a fascinante proeza de ser amado pelos adversários, mesmo estes vendo nele a imagem assustadora do carrasco. Em Zico, os vascaínos, tricolores e botafoguenses sentiram em silêncio a "Síndrome de Estocolmo". Imaginem que ele quase despontou no Vasco, quando o Flamengo incorreu no desleixo de não servir lanche ao magrelo garoto de Quintino durante os treinos do infantil. Foi o médico Carlos Manta quem alertou a Gávea sobre uma "proposta alimentar" de São Januário, evitando assim a transferência.

Não há qualquer exagero na proximidade que se faz entre Zico e Pelé. Ambos se assemelham em jogadas e gols que não têm similares pelos quatro cantos do mundo em mais de um século de bola rolando. E aquilo que um não fez, está presente no outro, a locupletação dos gênios.

Pelé reinou, também, no Maracanã até os dias em que debaixo dos céus do Rio de Janeiro começou a brilhar a estrela de Zico. Eles dividiram a história do estádio no período pós-Zizinho e pós-Ademir Menezes. O rei negro nos anos 1960/1970, o príncipe branco nas décadas de 1970/1980.

E se Pelé conseguiu o feito imortal de cravar seu milésimo gol no gramado carioca, foi de Zico a supremacia nas tardes e noites do majestoso estádio, onde ali ele foi mais que um rei, foi um deus que provocou rezas e louvores em todas as torcidas.

Pelé jamais exibiu seu poder divino no mais importante templo de futebol da Europa, o estádio de Wembley. Mas ali, diante dos súditos de Elizabeth, Zico mostrou que o reino não escaparia de uma exposição da arte maior dos seguidores do próprio Pelé.

Louvemos aos deuses que permitiram o glorioso dia em que os dois reis do Brasil jogaram juntos no Maracanã, vestidos com a mesma camisa. Era 6 de abril de 1979 e ambos convocaram os súditos para uma noite solidária pelas vítimas de enchentes em Minas Gerais.

Elegante em todos os gestos, Zico cedeu a camisa 10 do Flamengo para Pelé, a camisa que ele cultuava por amor ao ídolo Dida, o craque alagoano que popularizou esse número no Rio de Janeiro dos anos 1950 e 1960. Uma multidão de 139.953 pessoas encheu o velho estádio Mário Filho.

Do outro lado do campo, o Atlético Mineiro do rei Dario e do craque Toninho Cerezo. Foi uma noite com chuva de gols, com o Flamengo aplicando 5 x 1, sendo três de Zico, chamado na tela do Canal 100 de "novo monstro sagrado do nosso futebol". O tempo parou para que dois deuses juntassem suas épocas.

O mundo inteiro consagrou o talento inigualável de Zico; em cada continente há os vestígios da sua divindade, há torcedores cultuando as lembranças dos seus gols maravilhosos. E se algum transgressor da História lembrar que Zico nunca ganhou uma Copa, eu contradito com o desaforo definitivo do jornalista Fernando Calazans: "azar da Copa".

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SIMPLESMENTE ZICO
AUTOR Priscila Ulbrich
EDITORA Contexto
QUANTO R$ 19,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

 
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