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31/01/2016 - 12h50

Em 'Se Liga no Som', antropólogo narra o surgimento do rap no Brasil; leia entrevista

JULIANA FARANO
da Livraria da Folha

"Se Liga no Som" é uma expressão usada para quando você quer indicar alguma música muito boa a um amigo. É também o nome do livro do músico e antropólogo Ricardo Teperman, parte da coleção Agenda Brasileira, do selo Claroenigma, da Companhia das Letras. O título é uma introdução à história do rap e de como ele foi incorporado no cenário musical brasileiro. "O livro pode interessar não apenas aos adeptos ou fãs de rap e por isso a brincadeira no título, que faz um convite a ouvir e pensar no rap - um gênero poderoso, bom de ouvir e bom para fazer pensar. Um pouco como quando um amigo nos chama de lado para mostrar um som: se liga nisso aqui", explica o autor.

Teperman fez sua dissertação de mestrado sobre batalhas de MCs e, com isso, constatou a "força da mobilização do rap", de onde saiu a ideia da publicação. O livro segue uma cronologia, explica a origem do movimento hip hop nos Estados Unidos e traça um panorama do gênero no Brasil, desde o seu surgimento até os rumos que está tomando hoje em dia.

Divulgação
Livro narra o surgimento do rap no Brasil e destaca os rumos do movimento hip hop
Livro narra o surgimento do rap no Brasil e destaca os rumos do movimento hip hop

Abaixo, leia a entrevista completa com o autor Ricardo Teperman:

Quando começou seu interesse pelo rap e de onde veio a ideia do livro?

Minha pesquisa de mestrado foi sobre batalhas freestyle - duelos de rima feitos por MCs. Entre 2008 e 2011, frequentei semanalmente as batalhas que acontecem todo sábado na saída do metro Santa Cruz. Também acompanhei outras batalhas que aconteciam regularmente em São Paulo como a Rinha dos MCs, apresentada pelo Criolo, a batalha na Casa do Hip Hop em Diadema, o Duelo de MCs, em Belo Horizonte, e a Liga dos MCs, no Rio de Janeiro, que era uma espécie de campeonato brasileiro do freestyle.

O contato com a efervescência das batalhas de freestyle e do rap em geral fez um contraponto poderoso à morosidade da cena da canção popular, a qual sempre estive mais ligado como músico e pesquisador e que nos últimos anos vem sendo reiteradamente dada como morta. Na famosa entrevista de 2004, em que Chico Buarque falava sobre o eventual 'fim da canção', ele dizia que o rap era uma negação da 'canção tal qual a conhecemos'. A ideia do livro veio da constatação dessa força de mobilização do rap, e da hipótese que havia nele algo de muito novo e provocador. O ponto de partida foi minha pesquisa de mestrado, mas precisei de mais um ano de pesquisa e outro ano de escrita para dar conta da tarefa.

Fale um pouco do livro. Qual o objetivo dele? De que forma ele foi feito?

Apesar de seguir mais ou menos uma cronologia, o livro é organizado por problemas e não por uma linha do tempo. Não tentei fazer uma história do rap, mas sim levantar algumas lebres, olhando para as transformações pelas quais o gênero passou ao longo desses últimos trinta anos. Discuto algumas questões que são frequentemente postas quando se fala de rap, como por exemplo a ideia de uma cultura de periferia, temas como preconceito e orgulho racial, ou ainda, de maneira mais geral, as relações entre música, política e mercado. Por isso entendo que o livro pode interessar não apenas aos adeptos ou fãs de rap e por isso a brincadeira no título do livro, que faz um convite a ouvir e pensar no rap - um gênero poderoso, bom de ouvir e bom para fazer pensar. Um pouco como quando um amigo nos chama de lado para mostrar um som: se liga nisso aqui.

Em sua opinião, e baseado nos seus estudos, é possível indicar um grupo como o mais importante do cenário nacional?

Não há dúvida de que o Racionais é, desde seu surgimento, o mais importante nome do rap nacional. Isso pode ser afirmado não apenas pela qualidade de sua obra, que é um dos pontos mais altos da música no Brasil, como pela centralidade que o grupo ocupa no gênero, influenciando estética e politicamente a produção no campo. É possível fazer rap no Brasil discordando do Racionais, mas não ignorando. Essa influência não se restringe a São Paulo - repercute no país todo -, e de maneira ininterrupta, de 1988 até hoje.

De que forma o rap contribuiu para a política nacional? Qual o valor dos discursos mais voltados aos problemas da periferia e aos casos de racismo, como nos casos do Racionais e do Emicida, por exemplo?

Voltando para a discussão sobre o 'fim da canção', que como eu disse é o pano de fundo deste livro, penso numa ideia defendida pelo Francisco Bosco num ótimo artigo que ele escreveu sobre rap. O cerne do argumento é que a linha mestra da canção brasileira, 'tal como a conhecemos', está na ideia de 'identidade nacional mestiça, fundada em encontros raciais, culturais, sociais e semiológicos', e que o rap rompe com essa tradição conciliatória.

No meu livro, analiso um episódio que ocorreu em 1997, na entrega do prêmio VMB, da MTV. Carlinhos Brown era o apresentador do evento e os Racionais foram os grandes vencedores da noite, com o clipe de "Diário de um Detento". Na hora da entrega do prêmio, houve uma série de provocações violentas entre o baiano e os rappers, e a coisa por pouco não virou pancadaria. O líder do Racionais e o artista baiano escolheram o mesmo sobrenome artístico: Brown, que em inglês quer dizer marrom - a cor da mestiçagem, conceito central para pensar a história do Brasil. Se compartilham o sobrenome, Mano e Carlinhos têm visões antagônicas sobre o significado da mestiçagem brasileira, e a experiência da premiação da MTV foi uma espécie de encenação desse conflito. Em seu discurso de agradecimento, Kl Jay (dos Racionais) homenageava o povo que veio da África, enriqueceu a Europa e a América do Norte, e tudo que recebeu foi favela e cadeia, quando foi interrompido por Carlinhos Brown, que de maneira provocadora interpretou uma cantiga falando sobre o Pelourinho, em Salvador, um marco histórico da escravidão que hoje receberia turistas "de todo tipo de cor". O músico baiano apresenta uma visão conciliatória, bem à maneira do nosso conhecido mito da democracia racial. Eu diria que uma das principais contribuições do rap é a ruptura radical com essa visão conciliatória, tão arraigada no Brasil.

O rap passou dos discursos mais políticos da periferia, das produções faça você mesmo e do mantra contra o sistema que havia nos anos 90, para MCs nos topos das paradas de rádio, indo a programas de TV, conseguindo ganhar dinheiro com música e rimando sobre os mais diversos temas. Quando e por que você acha que aconteceu essa virada no movimento?

Concordo que houve uma virada recentemente. Não se pode ignorar as transformações pelas quais o país passou nos últimos vinte anos, e a maior escolaridade, o maior acesso a bens de consumo, a desenvoltura no trato com a mídia e o desembaraço com as noções de carreira e mercado, são alguns dos aspectos que diferenciam novos artistas como Emicida e Criolo dos rappers dos anos 80 e 90. Temas como orgulho periférico, injustiça social e discriminação racial continuam na pauta, e com alta voltagem poética - mas o lugar político de onde esse discurso parte já não é o mesmo. Apoiados por "mais de cinquenta mil manos", os Racionais construíram sua trajetória sem depender dos mecanismos centrais de produção, e as cisões de classe apareciam como insuperáveis a não ser por uma revolução social. Esse lugar político aparece na densidade das batidas, no grão das vozes de Mano Brown e Edi Rock.

Usando uma expressão surrada, eu diria que Criolo e Emicida inseriram o rap na linha evolutiva da música popular brasileira - estética e politicamente. É verdade que desde os anos 90, vários rappers propõem aproximações com gêneros tradicionais da música popular brasileira -Potencial 3, Faces do Subúrbio, Sabotage, Marcelo D2, Rappin Hood e, mais recentemente RAPadura, para citar alguns. A diferença é que Criolo e Emicida transitam intensamente no "mundo da MPB", contam com a colaboração estreita de artistas e produtores. Muitas de suas novas composições ou não podem ser consideradas rap, ou então alargam em muito o sentido que se atribui rotineiramente ao rótulo. Mesmo numa música como a recente "Boa Esperança", em que Emicida narra uma rebelião dos empregados de uma casa burguesa - com base e versos poderosos, não desprovidos de agressividade – não há o mesmo tipo de incompatibilidade irredutível que encontramos Racionais. Ele usa metáforas elaboradas, recursos como ironia, citações cultas - procedimentos comuns na grande tradição da MPB.

Se te pedissem para indicar cinco músicas que, de forma resumida, demonstrassem essa linha do tempo do rap nacional, quais sons você indicaria?

Listas são sempre divertidas de fazer, adoraria sugerir várias listas. Aqui vai uma possibilidade: "Nome de Meninas" (Pepê), "Capítulo 4, Versículo 3" (Racionais MCs), "Negro Drama" (Racionais MCs), "Brasil com P" (Gog) e "Zica vai lá" (Emicida).

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SE LIGA NO SOM
AUTOR Ricardo Terpam
EDITORA Claroenigma
QUANTO R$ 24,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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