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08/03/2017 - 13h45

Escritora feminista lança manifesto sobre criação de filhos

da Livraria da Folha

Divulgação
Vencedora do Orange Prize e do National Book Critics Circle Award, Chimamanda Adichie teve sua obra traduzida para mais de 30 línguas
Escritora premiada, Chimamanda Adichie é uma das vozes do feminismo mundial e expoente da literatura africana

Autora de livros como "Americanah", "Meio Sol Amarelo" e "Hibisco Roxo", a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie lança pela Companhia das Letras o livro "Para Educar Crianças Feministas - Um Manifesto".

Expoente da literatura africana, a autora é uma das vozes pelo direito das mulheres no mundo, sobretudo após a palestra "Sejamos Todos Feministas" que conferiu no TED em 2013 e cujo discurso virou o livro homônimo.

O tema da igualdade de gêneros também permeia a nova publicação, que traz 15 sugestões de como criar filhos dentro de uma perspectiva feminista.

Escrito no formato de uma carta da autora a uma amiga que acaba de se tornar mãe de uma menina, o livro traz conselhos de como oferecer uma formação igualitária a todas as crianças. A justa distribuição de tarefas entre pais e mães, por exemplo, é uma delas.

Leia abaixo um trecho do livro

*

Querida Ijeawele,

Que alegria! E que lindo nome: Chizalum Adaora. Ela é linda. Tem só uma semana e já mostra curiosidade pelo mundo. Que coisa maravilhosa você fez, trazer um ser humano ao mundo. "Parabéns" parece tão pouco. Sua mensagem me fez chorar. Você sabe como às vezes fico boba e emotiva. Por favor, saiba que levo sua tarefa - pensar como criá-la como feminista - muito a sério. E entendo o que você quer dizer quando fala que nem sempre sabe qual deve ser a reação feminista a certas situações. Para mim, o feminismo é sempre uma questão de contexto. Não tenho nenhuma regra. A coisa mais próxima disso são minhas duas "Ferramentas Feministas", que vou dividir com você como ponto de partida.

A primeira é a nossa premissa, a convicção firme e inabalável da qual partimos. Que premissa é essa? Nossa premissa feminista é: eu tenho valor. Eu tenho igualmente valor. Não "se". Não "enquanto". Eu tenho igualmente valor. E ponto final.

A segunda ferramenta é uma pergunta: a gente pode inverter X e ter os mesmos resultados?

Por exemplo: muita gente acredita que, diante da infidelidade do marido, a reação feminista de uma mulher deveria ser deixá-lo. Mas acho que ficar também pode ser uma escolha feminista, dependendo do contexto. Se o Chudi dorme com outra mulher e você o perdoa, será que a mesma coisa aconteceria se você dormisse com outro homem? Se a resposta for "sim", então sua decisão de perdoá-lo pode ser uma escolha feminista, porque não é moldada pela desigualdade de gênero. Infelizmente, a verdade é que, na maioria dos casamentos, a resposta a essa pergunta em geral seria negativa por uma questão de gênero - aquela ideia absurda de que "os homens são assim", o que significa que os padrões para eles são mais baixos.

Tenho algumas sugestões para a criação de Chizalum. Mas lembre-se de que você pode fazer tudo o que eu disser e apesar disso ela pode sair muito diferente do que você queria, porque às vezes a vida é assim.

O importante é tentar. E sempre confie em seus instintos mais do que em qualquer outra coisa, porque é o amor por sua filha que lhe servirá de guia.

Aí vão minhas sugestões:

1. Primeira sugestão: Seja uma pessoa completa. A maternidade é uma dádiva maravilhosa, mas não seja definida apenas pela maternidade. Seja uma pessoa completa. Vai ser bom para sua filha. Marlene Sanders, a pioneira jornalista americana, a primeira mulher a ser correspondente na Guerra do Vietnã (e ela mesma mãe de um menino), uma vez deu este conselho a uma jornalista mais jovem: "Nunca se desculpe por trabalhar. Você gosta do que faz, e gostar do que faz é um grande presente que você dá à sua filha".

Acho isso sábio e comovente. Nem precisa gostar do seu trabalho. Você pode apenas gostar do que seu emprego faz por você - a confiança e o sentimento de realização que acompanham o ato de fazer e de receber por isso.

Não me surpreende que sua cunhada diga que você deve ser uma mãe "tradicional" e ficar em casa, que Chudi não precisa de outra fonte de renda para sustentar a família.
As pessoas vão usar a "tradição" seletivamente para justificar qualquer coisa. Diga-lhe que uma família com dupla fonte de renda constitui a verdadeira tradição igbo, não só porque as mães plantavam e comercializavam antes do colonialismo britânico, mas também porque o comércio era uma atividade exclusivamente feminina em algumas partes da Igbolândia. Ela saberia disso se ler não fosse uma atividade tão estranha a ela. O.k., essa alfinetada foi para te animar um pouco. Sei que você está aborrecida - e com razão -, mas o melhor é ignorá-la. Todo mundo vai dar palpites, dizendo o que você deve fazer, mas o que importa é o que você quer, e não o que os outros querem que você queira. Por favor, não acredite na ideia de que maternidade e trabalho são mutuamente excludentes.

Nossas mães trabalharam em tempo integral enquanto crescíamos, e nos saímos bem - pelo menos você; quanto a mim, o júri ainda está deliberando.

Nas próximas semanas desse início de maternidade, seja boa com você mesma. Peça ajuda. Espere ajuda. Isso de Supermulher não existe. Criar os filhos é questão de prática - e de amor. (Mas eu realmente gostaria que não tivesse virado o verbo em inglês parent, coisa que julgo estar na raiz do fenômeno global de classe média do parenting como uma interminável jornada aflita e cheia de sentimento de culpa.)

Permita-se falhar. Uma mãe de primeira viagem nem sempre sabe como acalmar o bebê que está chorando. Não ache que precisa saber tudo. Leia livros, procure coisas na internet, pergunte a mães e pais mais velhos ou, simplesmente, vá por tentativa e erro. Mas, acima de tudo, concentre-se em continuar uma pessoa completa. Tire um tempo para si mesma. Atenda a suas necessidades pessoais.

Por favor, não pense nisso como "dar conta de tudo". Nossa cultura enaltece a ideia das mulheres capazes de "dar conta de tudo", mas não questiona a premissa desse enaltecimento. Não tenho o menor interesse no debate sobre as mulheres que "dão conta de tudo", porque o pressuposto desse debate é que o trabalho de cuidar da casa e dos filhos é uma seara particularmente feminina, ideia que repudio vivamente. O trabalho de cuidar da casa e dos filhos não deveria ter gênero, e o que devemos perguntar não é se uma mulher consegue "dar conta de tudo", e sim qual é a melhor maneira de apoiar o casal em suas duplas obrigações no emprego e no lar.

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PARA EDUCAR CRIANÇAS FEMINISTAS
AUTORA Chimamanda Ngozi Adichie
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 14,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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