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28/02/2018 - 09h01

Com narrativa irônica, 'Manual da Demissão' aborda crise e desemprego

da Livraria da Folha

Divulgação
Livro traz link para a playlist "a trilha sonora dos demitidos" que conta com um clássico do pagode do grupo Só Pra Contrariar
Livro traz playlist "a trilha sonora dos demitidos" que conta com um clássico do grupo de pagode Só Pra Contrariar

O telefone toca e é a moça do Departamento Pessoal. O patrão ficou maluco e cerca de 20% da empresa foi mandada embora. Assim começa a história de "Manual da Demissão", de Julia Wähmann publicado pela editora Record.

Na trama, a protagonista J. além de ser dispensada do trabalho, enfrenta o fim de um relacionamento amoroso.

Para tentar se recuperar do duplo pé na bunda, ela acompanha amigos que estão no mesmo barco, enfrentando intermináveis filas para resolver questões burocráticas sobre FGTS e seguro desemprego, por exemplo.

Ela também abre sua casa para guardar caixas dos amigos com pertences dos antigos escritórios, formando um depósito de memórias da época em que suas vidas eram ordenadas pelo expediente.

Com um texto irônico e descontraído, a narradora reúne conselhos para enfrentar o desemprego de forma menos traumática, com apoio da família, amigos e uma boa dose de livros, filmes e músicas.

Um dos obstáculos enfrentados por ela é preparar o emocional para o fluxo migratório causado pelas demissões, uma vez que alguns amigos partem para tentar uma vida melhor em Portugal.

Julia Wähmann nasceu em 1982, no Rio de Janeiro. É autora dos livros "Diário de Moscou", "André Quer Transar" e "Cravos".

Leia abaixo um trecho de "Manual da Demissão".

*

Cada macaco no seu galho

O telefone tocou novamente, fui atender e não era o meu amor. Não mesmo, era a moça do Departamento Pessoal, e ali eu já sabia que, ao me levantar da cadeira azul giratória, barata e desconfortável, na qual sentei por anos, e dar os primeiros passos por um corredor azul meio mofado, o rapaz do Departamento de Informática se sentaria no meu lugar e bloquearia meu computador. Enquanto isso, eu estaria assinando os papéis da demissão, ouvindo, cada vez mais ao longe, a voz tensa da moça dizendo que não era nada pessoal, embora o nome do departamento deixasse certa dúvida, que a empresa, você sabe, é a crise, vinha passando por dificuldades, que meu trabalho era ótimo, certamente, mesmo que ela não soubesse exatamente o que eu fazia, e enquanto eu segurasse numa mão a caneta, na outra apertaria os pen drives no bolso do casaco, só de nervoso, e para me certificar de que tudo estava ali, alguns arquivos pessoais e fotos que resgatei do computador que usei por anos.

Àquela altura, cerca de duas da tarde, já uma leva de gente tinha ido embora carregando suas caixas de papelão antes do almoço e, portanto, as horas seguintes foram agonias de espera e de backups possibilitados pelos pen drives surrupiados das três ou quatro gavetas abarrotadas de papéis que eu jamais tornaria a ver. Quando a moça terminasse sua fala e me explicasse resumidamente o que eu deveria fazer - a primeira coisa, claro, era ir embora dali -, eu voltaria para a minha agora ex-mesa com a certeza de que não deixaria nada muito íntimo no HD da empresa, ao mesmo tempo que desconfiaria do que poderia haver nos inúmeros papéis das tais três ou quatro gavetas, rascunhos de textos que não terminei, devaneios e rabiscos de reuniões em que a cafeína demorava a fazer efeito, setas, estrelas ou quadrados desenhados obsessivamente durante telefonemas que se estenderam para além do habitual, anotações dispersas de tarefas a cumprir, talvez um esboço de uma declaração de amor - ou de guerra - feita numa tarde tediosa em que até vídeos de pandas falhavam.

O patrão ficou maluco numa segunda-feira em que talvez fizesse frio, visto que eu usava casaco, mas talvez fosse verão, dado que a vida na baia de um escritório é de uma estabilidade climática assombrosa. Mas afirmo, era uma segunda-feira, e quando os primeiros foram embora, de repente,com suas caixas, eu só pensava nas três mudas de roupas e dois pares de sapatos que eu havia socado numa das prateleiras na sexta-feira anterior, quando a vida ainda era uma festa e eu tinha um namorado que, fatalidade, me deixou naquele sábado, embora já estivesse me deixando há certo tempo por outra cidade, alegando que não poderíamos namorar a 9.168,38 km de distância, e eu fazia a Pollyana e via pelo lado positivo, eu tinha um emprego que amava e uma assinatura nova no e-mail que comprovava que eu estava subindo de cargo, embora, você sabe, é a crise, o salário não fosse subir junto, porque naquela época só o que aumentava era o preço do chocolate, do cinema e do coco na praia. Eu tinha também: um torcicolo e uma rinite constantes, consequências de viver num mundo acarpetado; um banco de horas deficitário, consequência de viver num mundo acarpetado e possuir um cartão de ponto carinhosamente apelidado de escravocard; um déficit de vitamina D e ausência total de um bronzeado, consequências de viver num mundo acarpetado, com um escravocard e sob luz fria.

O patrão ficou maluco e demitiu cerca de 20% de sua empresa numa segunda-feira em que talvez fizesse frio, sem aviso prévio, sem explicação além de, você sabe, a crise, e com requintes de crueldade que tomaram um dia inteiro e que deixaram os funcionários prostrados em suas cadeiras giratórias baratas, esperando soarem seus ramais para se encaminharem à sala da moça do Departamento Pessoal, muito abatida, o que era sua condição normal, consequência de viver num mundo acarpetado, sob luz fria e flores artificiais de temperatura invariável, para em seguida se depararem com seus computadores bloqueados, receberem o consolo dos demais empregados que poderiam ser os próximos, esperarem caixas providenciadas por colegas que poderiam ouvir o chamado em seguida, ou que seriam deixados para a noite, a fim de não atrapalhar a logística das caixas de papelão Uma demissão, assim como um pé na bunda, é um evento que legitima a vida na Terra - e, enquanto do segundo se diz que te faz andar pra frente, do primeiro diz-se que, onde uma porta se fecha, uma janela se abre, além de outros consolos, ditados populares e pesares evocados em tais provações.

Em comum, ambos geram um sentimento inconteste de rejeição e compulsão, temporária ou não, por açúcar, ansiolítico ou drogas mais marginais, primeiras boias de salvação quando o golpe apenas dói e a janela é somente o melhor lugar de onde se arremessar.

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MANUAL DA DEMISSÃO
AUTORA Julia Wähmann
EDITORA Record
QUANTO R$ 29,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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