Saltar para o conteúdo principal
 
20/11/2014 - 20h21

Leia trecho de 'O Mundo em Chamas', de Siri Hustvedt

da Livraria da Folha

Divulgação
Livro conta história de artista injustiçada que busca reconhecimento
Livro narra a história de artista que busca reconhecimento

Depois de anos sendo ignorada ou injustamente criticada, a artista Harriet Burden toma uma atitude extrema e decide apresentar sua obra através de "máscaras", ou seja, homens que assumiriam a autora de seu trabalho.

O plano dá certo e as exposições são um sucesso absoluto. No entanto, quando Harriet decide se revelar como a criadora por trás de tudo, os críticos duvidam de suas habilidades, especialmente quando uma das máscaras, o artista conhecido como Rune, nega toda a história.

"O Mundo em Chamas" é apresentado como uma coletânea de textos - trechos de diários, entrevistas, depoimentos e artigos - compilados por um acadêmico depois da morte de Harriet Burden.

Confira abaixo um trecho do livro.

*

Harriet Burden
Caderno C (fragmento de memória)

Comecei a fazê-los um ano depois da morte de Felix - totens, fetiches, cartazes, criaturas parecidas com ele e não tão parecidas com ele, corpos estranhos de todos os tipos que amedrontavam as crianças, apesar de os dois estarem crescidos e não morarem mais comigo. Desconfiaram que aquilo fosse uma espécie de versão de luto-que-saiu-dos-trilhos, principalmente depois de eu resolver que algumas das minhas carcaças tinham que ser quentes, para que você sentisse o calor quando as abraçasse. Maisie me disse para ir com calma: Mãe, isso é demais. Você precisa parar, mãe. Já não é mais jovem, sabe como é. E Ethan, fiel ao seu eu de Ethan, expressou desaprovação ao lhes dar o nome de "os monstros maternais", "as coisas do papai" e "pater horribilis". Apenas Aven, netinha maravilhosa, aprovou as minhas bestas adoráveis. Ela ainda não tinha nem dois anos na época e se aproximou delas com sobriedade e delicadeza enorme. Ela adorava pousar a bochecha contra uma barriga radiante e arrulhar.

Mas preciso recuar e fazer a volta. Estou escrevendo isto porque não confio no tempo. Eu, Harriet Burden, também conhecida como Harry pelos velhos amigos e por novos amigos
selecionados, tenho sessenta e dois anos, não sou uma anciã, mas estou bem encaminhada para o fim, e ainda tenho muito a fazer antes que uma das minhas dores se revele um tumor ou uma demência sem nome ou que um caminhão errante suba na calçada e me amasse contra o muro para que eu nunca mais respire. A vida é caminhar na ponta dos pés por cima de minas terrestres. Nunca sabemos o que está por vir e, se quer saber a minha opinião, também não temos muita noção do que ficou para trás. Mas, com os diabos, é claro que podemos tirar uma história disso e fritar o cérebro tentando acertar.

Inícios são charadas. Ma e Pa. O feto flutuante. Ab ovo. No entanto, existem diversos momentos na vida que podem ser considerados como sendo origem, apenas precisamos reconhecê-los pelo que são. Felix e eu estávamos tomando café da manhã, no antigo apartamento no número 1185 da Park Avenue. Ele tinha quebrado a casca do ovo quente, como fazia toda manhã, com um golpe certeiro da faca na casca, e tinha levado a colher com o seu conteúdo branco e amarelo escorrendo até a boca. Eu estava olhando para ele porque Felix parecia estar prestes a falar comigo. Ele me olhou surpreso por apenas um instante, a colher caiu na mesa, depois no chão, e tombou para a frente, a testa pousou numa fatia de torrada com manteiga. A luz da janela brilhava fraca na mesa com a sua toalha branca e azul, a faca descartada formava um ângulo com o pires da xícara de café; o saleiro e o pimenteiro verdes se localizavam a centímetros da sua orelha esquerda. Eu não devo ter registrado a imagem do meu marido desabado por cima do prato por mais que uma fração de segundo, mas o quadro ficou impregnado na minha mente, e eu ainda o enxergo. Continuei enxergando apesar de ter me levantado de um salto e erguido a cabeça dele, sentido seu pulso, chamado ajuda, feito respiração boca a boca, rezado as minhas rezas embaralhadas e seculares, subido na parte de trás da ambulância com os paramédicos e ouvido a sirene berrar. Àquela altura eu tinha me transformado numa mulher de pedra, uma observadora que também era atriz na cena. Eu me lembro de tudo de modo vívido e, no entanto, uma parte de mim continua ali sentada à mesinha perto da janela, na cozinha comprida e estreita, olhando para Felix. É o fragmento de Harriet Burden que nunca se levantou nem seguiu em frente.

Atravessei a ponte e comprei um prédio no Brooklyn, um bairro que naquele tempo era mais sujinho do que é agora. Queria fugir do mundo da arte de Manhattan, aquele glóbulo incestuoso, endinheirado e rodopiante composto de pessoas que compram e vendem objets estéticos. Nesse microcosmo alquebrado, é justo dizer que Felix tinha sido um gigante, marchand das estrelas, e eu, a esposa artista de Gargântua. No entanto, esposa se sobrepunha a artista e, com a ausência de Felix, os habitantes daquele lindo mundo não se importavam nem um pouco com a possibilidade de eu ficar ou de abandoná-los em troca da região remota conhecida como Red Hook. Eu antes tinha dois marchands; ambos me largaram, um depois do outro. O meu trabalho nunca tinha vendido muito e era pouco discutido, mas, durante trinta anos, eu servi de anfitriã para todos eles - os colecionadores, os artistas, os jornalistas -, um clube de dependência mútua tão ensimesmado e vaidoso que as identidades pareciam se confundir. Quando eu me despedi de tudo isso, os novos nomes "da hora", recém-saídos da faculdade de arte, tinham começado a parecer todos iguais para mim, com o seu filme ou a sua arte performática e a sua lenga-lenga pretensiosa e as suas referências teóricas truncadas. Pelo menos, a garotada tinha esperança. Pegavam dicas com os desesperançados - aqueles idiotas que escreviam para a Art Assembly, a revista hermética que com regularidade servia na mesa os restos frios da teoria literária francesa aos seus leitores ávidos, igualmente ignorantes. Durante anos, eu me esforcei tanto para segurar a língua que quase a engoli. Durante anos, eu deslizei ao redor da mesa de jantar usando várias vestes da variedade inteligente e excêntrica, na frente do Klee, orientando o tráfego com sinais hábeis e sorrindo, sempre sorrindo.

Felix Lord me descobriu parada na galeria dele num fim de tarde de sábado no SoHo, contemplando um artista que há muito desapareceu, mas que teve um momento de glória na década de 60: Hieronymous Hirsch. Eu tinha vinte e seis anos. Ele tinha quarenta e oito. Eu tinha um metro e oitenta e oito. Ele tinha um metro e setenta e oito. Ele era rico. Eu era pobre. Ele me disse que eu parecia uma sobrevivente de choques elétricos com aquele cabelo, e que eu devia tomar uma providência.

Foi amor.

*

O MUNDO EM CHAMAS
AUTOR Siri Hustvedt
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 49,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

-

 
Voltar ao topo da página