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25/12/2014 - 12h35

Biografia apresenta debate sobre a história de Jesus de Nazaré

da Livraria da Folha

A biografia "Jesus" reúne informações e reconstrói a vida da personalidade que não influenciou apenas a crença de milhões, mas também a arte, a literatura e decisões políticas. Abaixo, leia a introdução à edição.

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Abordagens de Jesus

"Quem dizem os homens que eu sou? (...) E vós, (...) quem dizeis que eu sou?" (Marcos, 8, 27-29), Jesus pergunta aos discípulos. Estas duas perguntas continuam sendo absolutamente intrigantes - como uma novidade que não se desmente, que se perpetua de era em era. Elas resumem os dois grandes debates que agitaram a história relativa a Jesus de Nazaré. Quem foi ele? Seria possível traçar seu retrato com base em textos e testemunhos de sua época? O que seus discípulos e, de modo mais amplo, os homens teriam dito a respeito dele no decorrer da longa história do cristianismo? Como é praticamente impossível responder a estas perguntas com toda a certeza, e é necessário fazer escolhas - para compreender esta ideia, basta examinar os cismas, as heresias e as guerras que as tentativas de resposta desencadearam -, compor uma biografia de Jesus passou a ser considerado, a partir do século XIX, uma empreitada improvável ou, no mínimo, a ser abordada com a maior prudência possível. Parece inevitável que uma biografia só esteja sujeita a interpretações subjetivas ou que faça um recorte arbitrário demais sobre o Jesus da fé e o Jesus da História.

De fato, examinando-se de hagiografias a dogmas, esta figura fora do comum foi pintada milhares de vezes em cores diferentes, coberta milhares de vezes de lendas, de exegeses e de dogmas - se a julgarmos com base nas conversões que sua mensagem operou. Jesus é inspirador. Ao longo dos séculos, cada civilização tentou extrair dele seu mistério e adaptá-lo a si. A razão disso está conectada à modernidade radical de suas palavras. Jesus desencadeou uma revolução histórica, de são Paulo ao Iluminismo, chegando até os nossos dias. E ninguém se surpreendeu ao vê-lo como asceta albigense, como sans-culotte em 1791, e nem no núcleo da teologia da libertação. Talvez esta galeria de figuras cristãs esteja relacionada a uma outra revolução, a de seus ensinamentos: uma revolução religiosa formidável; Jesus é "Deus em forma de homem", "palavra em forma de carne". Em Jesus, Deus encarnou. Desde então, como observa o teólogo Alain Houziaux, "o que conta em Jesus é o significado de seu nascimento milagroso (nasceu do Espírito de Deus), seu batismo, sua transfiguração (foi consagrado Filho de Deus), sua ressurreição (é legitimado e reconhecido como Filho de Deus)". Jesus é Deus ao encontrar sua criação, o homem. Esta relação abriga em si o ponto de partida do humanismo, e até mesmo o da criação dos direitos do homem. O desejo de explicar esse mistério por meio de sua adaptação ao espírito de cada momento deu trabalho a muitos escritores, filósofos e historiadores. No século XIX, as biografias de Jesus foram cercadas de muito entusiasmo. Em relação a isso, Albert Schweitzer constatou que, cada vez que um autor escrevia sobre Jesus, uma nova imagem se desenhava. Ele deduziu que essa multiplicação de figuras de Cristo - zelote perigoso, companheiro alegre, humanista ingênuo, profeta apocalíptico e sombrio - refletia na verdade a expectativa de seus inventores, cada um deles baseado em seus próprios preconceitos.

Algumas dessas obras causaram escândalo: por exemplo, La Vie de Jésus, de Ernest Renan, lançada em 1863. Renan quis apresentar o lado humano de Jesus por meio de uma obra rigorosamente científica, em sintonia com o positivismo, do qual era adepto. Com deferência infinita e de acordo com o que era possível saber naquela época, ele buscou descrever um Jesus leigo ("Todos os séculos proclamarão que, entre os fi lhos dos homens, não houve nascimento mais grandioso"), ao mesmo tempo em que se libertou das pressões da doutrina católica e do racionalismo do século XVIII ("Não se diz: 'O milagre é impossível'; o que se diz é: 'Até agora, não existiu constatação de milagre'."). Paradoxalmente, os críticos mais virulentos que transformam Jesus em alvo são exatamente historiadores e filólogos como Friedrich Nietzsche, que o ridiculariza em O anticristo: "Falsificação in psychologicis". Antes de Renan, existiram tentativas ancoradas no racionalismo: eram negações do sobrenatural que se esforçavam para manter um fundo histórico em cada episódio evangélico. Em 1835, o Jesus de David Friedrich Strauss também teve como intenção erradicar o sobrenatural para provar que os Evangelhos - obras de pura ficção segundo ele - não tinham feito nada além de modernizar os mitos do Antigo Testamento.

Quase um século depois, o exegeta alemão Rudolf Bultmann quis fazer um recorte sobre a questão dos fundamentos de uma biografia de Jesus: "Não se pode saber nada a respeito da vida e da personalidade de Jesus porque as fontes cristãs que possuímos, muito fragmentadas e contaminadas por lendas, não demonstram nenhum interesse manifesto em relação a este ponto e porque não existe nenhuma outra fonte de pesquisa relativa a Jesus". No entanto, essas são as convicções pessoais de Bultmann, arraigadas na teologia luterana do Sola fides: "Apenas a fé basta, não há necessidade de indícios históricos para ela". Depois da década de 1950 (e graças a diversas descobertas arqueológicas como Qumram e Nag Hammadi), exegetas e historiadores encontraram o caminho estreito que permitiria elaborar a reconstrução da vida de Jesus, a articulação justa entre o Jesus da História e o Jesus da fé, convencidos de que um não poderia existir sem o outro. Para tanto, o ponto de partida nunca foi estabelecer uma cronologia rigorosa das ações e das palavras de Jesus, mas sim compreender como seus discípulos sentiam nele aquele mistério que fez com que o reconhecessem como o Messias e, em seguida, como o Filho de Deus.

Então, por que uma nova biografia? Simplesmente para tentar retratar o homem que viveu na Palestina há dois mil anos, incentivado por uma fé viva e vigorosa, que também revigorou seus contemporâneos - judeus de quem ele era firme correligionário e que aguardavam o emissário de seu Deus único. Sem se lembrar dessa crença em um Deus inscrito na história de todos os hebreus, Jesus, que já é difícil de entender em sua realidade, torna-se incompreensível. Claro, não há aqui a intenção de provar a existência de Deus (ou, ao contrário, de querer demonstrar por meio das ciências da história, da arqueologia, da filologia e da etnografia que Deus não existe) nem de mostrar se Jesus era ou não Seu fi lho, profeta ou Messias; também não há intuito de apresentar um retrato definitivo e sem retoques do homem Jesus, do que ele foi e do que ele fez - um projeto tão irrealista quanto irrealizável. Este não é o objetivo desta biografia, cuja intenção é simplesmente dar vida aos feitos e aos gestos de Jesus ao inseri-los em seu contexto, da maneira como podemos supor que eles se deram, sem a pretensão de apresentar a verdade histórica ou teológica dessa figura; sem buscar, também, diferenciar o Jesus da História do Jesus da crença, já que os dois são evidentemente indissociáveis. François Mauriac, Nikos Kazantzakis ou José Saramago, sem nem precisar evocar os filmes de Pier Paolo Pasolini, Martin Scorsese ou Mel Gibson, assinaram, cada um a seu tempo, obras romanceadas muito diferentes, todas inspiradas por Jesus. Aqui não há nada de romance, mas a intenção assumidamente despojada de narrar uma vida que não excluiria nem os elementos considerados básicos (como o nascimento em um estábulo, a visita dos Reis Magos ou a fuga ao Egito) nem as reservas manifestadas pelos historiadores exatamente a respeito dos acontecimentos dos quais não encontraram vestígios, ou que tenham sido comprovados como de caráter errôneo (o massacre dos inocentes). Em cada ocasião, será indicado a que gênero a parte em questão pertence. Esta biografia tem apenas uma ambição: traçar o retrato em movimento desse homem tão singular que todo mundo conhece pelo menos de nome, que viveu há mais de dois mil anos na Palestina, que se chamava Jesus e a quem algumas pessoas deram o nome de Cristo.

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JESUS
AUTOR Christiane Rancé
EDITORA L&PM Pocket
QUANTO R$ 17,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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