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01/07/2013 - 16h30

'Jango' relata construção do imaginário favorável ao golpe militar

da Livraria da Folha

Em "Jango", Juremir Machado da Silva investiga e narra como foram construídos o imaginário favorável ao golpe militar de 1964 e os relatos sobre a vida, o exílio e a morte do presidente deposto pela ditadura.

Machado procura desconstruir os mitos sobre João Goulart --presidente fraco ou herói reformista-- e resgata um personagem crucial da história do Brasil.

Gaúcho de São Borja, mesma cidade de Getúlio Vargas (1882-1954), João Goulart graduou-se em direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 1939, mas nunca advogou. Era reconhecido como bom jogador de futebol, chegou a jogar no infantojuvenil do Internacional.

Jango, como era conhecido, assumiu a presidência em 1961, após a renúncia de Jânio Quadros (1917-92). O Brasil entrou em uma crise política que, mais tarde, culminaria com os anos de ditadura (1964-85)

Escritor, jornalista, historiador, tradutor e professor, Juremir Machado da Silva é doutor em Sociologia pela Universidade Paris V, René Descartes, Sorbonne e autor de "História Regional da Infâmia". "Anjos da Perdição" e "Getúlio", entre outros.

Abaixo, leia um trecho de Jango: A Vida e a Morte no Exílio".

*

1.

Jango vai morrer.

Divulgação
Como foi construído, com ajuda dos jornais, o imaginário favorável ao golpe
Como foi construído, com ajuda da mídia, o imaginário em prol do golpe

Todos os dias, ele espera. Contempla um ponto no horizonte, que pode ser o Brasil, e espera pacientemente. Espera algo que o fará reviver, ressuscitar, explodir.

Talvez isso se reflita, sem que ninguém note, na sua maneira de contemplar as nuvens, como se no seu olhar uma sombra espessa tomasse o lugar de imagens movediças, ou na gota de suor que se imobiliza na sua testa ampla quando sai do sol e encosta a mão na casca rugosa de uma árvore de sombra generosa. Quem pode observar aquilo que não se dá a ver antes de não poder mais ser visto? Ou haverá coisas que só podem ser vistas depois que já se extinguiram, deixando rastros esparsos no ar pesado?

Em Bella Union, ele faz a sua última aterrissagem.

Como é ter a morte nas entranhas sem o saber? Como será carregar o fim num coração desassombrado de quem tem muito, teve muito mais, soube sonhar, entregar-se e perder? Como é viver um dia depois do outro com a sensação de ter sido abatido em pleno voo, não um voo de um pássaro qualquer, mas o voo altaneiro da "grande aventura", o voo que poderia ter feito milhões de homens também baterem asas? Jango não é de pieguices nem de grandes metáforas. Não é raro, porém, que contemple longamente as suas mãos e, em seguida, sem transição aparente, fite o horizonte da campanha como um animal na quietude mais pura e tensa da angústia farejando o sinuoso caminho de casa, o caminho por demais conhecido, como dizem os gaúchos da sua São Borja, da querência.

Jango vai morrer.

Ele é um herói.

Um herói que não se vê assim e morrerá no exílio.

Carrega a morte nos olhos sem dar na vista. Talvez saiba disso ou pressinta que a sua hora, a "mala hora", como dizem os camponeses com quem convive nas suas estâncias uruguaias e argentinas, chegou, essa hora de acertar as contas com o destino, esse nome dado ao desconhecido, ao arbitrário, esse tempo misterioso e gratuito chamado existência, essa passagem - não confundir com ponte - pelo mundo sem garantia de coisa alguma. Quem poderá desmentir essa possibilidade? Os amigos sabem que ele tem "memória de elefante", que jamais esquece um rosto, um nome, uma fisionomia, um olhar, uma pessoa, algo que transparece no brilho dos olhos iluminados quando se depara com alguém capaz de tirá-lo desse confinamento interior que disfarça tomando mate de manhã - quatro horas de sono lhe bastam -, lendo jornais, proseando, pescando, cavalgando, preparando um arroz carreteiro, trabalhando como se fosse um simples peão, fazendo negócios em profusão, contando e ouvindo histórias, entregando-se amavelmente à vida como se não lhe pesasse nas costas o fardo da deposição em 1964 e não sentisse na boca o amargor, misturado com uísque, das derrotas políticas nascidas das suas maiores vitórias.

- Quando eu voltar ao Brasil... - comenta vez ou outra.

Quem poderá desmentir que no seu último domingo ele tenha repassado rostos, frases, gestos, situações, imagens e fatos de tudo o que lhe aconteceu, pois aquilo que lhe aconteceu estava dentro dele como uma doença incurável alastrando-se silenciosa ou ardilosamente? Quem poderá negar que tenha pensado no essencial, naquilo que sempre soube, mais do que qualquer um, a verdade suprema da sua queda, a chave do golpe que o arrancou do poder porque passara a realmente o exercer? Quem poderá refutar que, antes de começar a sua última viagem, tenha dito para si - já sem raiva, mas com tristeza -, como certamente o fizera milhares de vezes em 12 anos de exílio, esse desterro do qual só se livraria morto:

- Fui derrubado com o apoio dos Estados Unidos.

Pode ter dito mais, ajudado pela morte já instalada nas suas tripas, numa súbita necessidade de confessar para si, pela última vez, a verdade tantas vezes remoída, a verdade que obrigará seus inimigos a trabalharem arduamente para negá-la, escondendo-se desde antes do crime que praticaram, mas também depois, atrás do suposto grande perigo, o monstro vermelho, a "ameaça comunista".

- Fui derrubado pelos Estados Unidos.

E, imediatamente, quase com violência, com indignação, franzindo o cenho, saindo da sua calma, cerrando o punho, sendo muito ele mesmo e talvez outro:

- Fui derrubado porque ia fazer a reforma agrária.

Talvez tenha, algum dia - na solidão das estâncias, onde chegava a passar o Natal longe da família, essa família que amava, mas da qual, às vezes, parecia tão distante -, confidenciado a Sinatra, seu cachorro, com o peito apertado diante das barras alaranjadas do crepúsculo, sua revolta contra os militares brasileiros, os milicos, sempre com a boca cheia de nacionalismo e a cabeça repleta de lama, que se mancomunaram com os Estados Unidos para apeá-lo do poder com medo de que, de fato, mudasse o Brasil, arrancando o país miserável, só não mais miserável graças ao esforço do seu mestre, seu guru, seu protetor, seu iniciador em política, Getúlio Vargas, que também experimentara o exílio, um autoexílio nas fazendas Santos Reis, em São Borja, e Itu, em Itaqui, antes de voltar ao poder nos braços do povo e de ser empurrado ao suicídio, em 1954, pelo lacerdismo raivoso, mentiroso, sinistro, canalha e sem qualquer escrúpulo:

- Fui derrubado por causa das Reformas de Base.

Não, ele, Jango, não se matará.

Será traído por seu coração combalido?

Ou sucumbirá assassinado pela Operação Condor, cuja existência já conhece, tendo sido advertido para tomar cuidado, e que o faz pensar em mudar-se para a Europa, embora tenha pedido ao amigo e homem de confiança, Percy Penalvo, administrador da sua fazenda "El Rincón", de Tacuarembó, para sondar a ditadura brasileira a respeito do seu retorno para casa? O mesmo caminho estava sendo pavimentado por outro colaborador, Juan Alonso Minteguy. Percy contata o coronel Azambuja, um dos ex-ajudantes de ordens de Jango, que conversa com o coronel Sólon Rodrigues, chefe da Polícia Federal no Rio Grande do Sul. A pergunta é direta, pois não há razão para rodeios:

- Se o senhor puder me responder, o senhor me responda; se o senhor não puder, eu entendo isso aí: o que o senhor acha da volta do João Goulart? - questiona Azambuja.

*

"Jango: A Vida e a Morte no Exílio"
Autor: Juremir Machado da Silva
Editora: L&PM Editores
Páginas: 376
Quanto: R$ 32,90 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.

Texto baseado em informações fornecidas pela editora/distribuidora da obra.

 
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