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13/04/2017 - 10h11

Caetano Veloso ganha biografia não autorizada; leia trecho

da Livraria da Folha

Divulgação
Livro conta história de Caetano Veloso para além de sua participação na tropicália; obra destaca apresentação do cantor no Oscar
Livro conta história de Caetano Veloso; obra destaca apresentação do cantor na cerimônia do Oscar

Sai pelo selo Seoman, do Grupo Editorial Pensamento, "Caetano - Uma Biografia", de Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco.

Resultado de uma pesquisa de 20 anos, o livro conta a história de Caetano Veloso, passando por todas as suas fases, além de sua participação na tropicália.

Entre os momentos marcantes de sua carreira, o livro destaca, já no prólogo, sua participação na cerimônia de entrega do Oscar, em 2003. Na ocasião, Caetano se apresentou ao lado da mexicana Lila Downs cantando "Burn It Blue", trilha do filme "Frida".

Nascido em 7 de agosto de 1942, Caetano Veloso é um dos mais importantes e influentes cantores e compositores do país.

O livro está em pré-venda na Livraria da Folha, com lançamento previsto para o dia 27 de abril.

Carioca, nascido em 1971, o autor Carlos Eduardo Drummond é poeta, escritor e compositor, autor de três livros. É formado em Administração de Empresas pela UERJ e pós-graduado em Relações Internacionais pela UCAM.

Também carioca, Marcio Nolasco nasceu em 1969 e é formado em Engenharia de Produção pela UFRJ. É contista com trabalhos publicados em diversas antologias.

Leia abaixo um trecho de "Caetano - Uma Biografia".

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LUA DE SÃO CAETANO

Santo Amaro, Bahia - Brasil - Agosto de 1942

Seu Zezinho não era afeito a jogos de azar, mas no dia em que comprou uma rifa para ajudar um vendedor de Santo Amaro, ganhou um bilhete da loteria federal. O cestinho de roupas do filho recém-nascido, perfumado com alfazema, parecia um bom esconderijo, e ali ficou esquecido o mapa do tesouro. Bem que dona Canô desconfiou do marido mexendo nas coisas do bebê, mas deixou por isso mesmo. Não podia imaginar que a sorte grande sorriria duplamente para o casal.

Quando deu a notícia no rádio que o prêmio havia saído para a Bahia, teve gente rumando cedo em direção ao telégrafo de Santo Amaro. O bilhete 24966 dava direito à quantia de trezentos contos de réis. A soma considerável não deixaria ninguém rico, mas ajudaria um bocado. O ganhador daquele sorteio pensava assim também. Com uma família numerosa, seu Zezinho achou melhor dividir o dinheiro entre os parentes. E olha que sobrou até para os amigos mais próximos. De qualquer forma, o bilhete premiado seria apenas uma anunciação. Muitas alegrias ainda estavam por vir para aquela família.

Os Velloso moravam na rua Conselheiro Saraiva nº 39, mas como na Bahia se dá apelido em tudo, era mais conhecida como rua Direita. O velho sobrado em que viviam fora vendido por João Cardoso para os Correios e Telégrafos, cujas atividades passaram a funcionar no mesmo endereço. Localizada no trecho mais movimentado da cidade, a construção com traços do século XIX se comunicava com a rua Direita pela frente, e com a rua do Amparo pelos fundos. A ligação entre as duas vias e os portões sempre abertos permitiam à vizinhança usar a passagem como atalho, mas isso não chegava a incomodar quem trabalhava no local.

O serviço era conduzido por José Telles Velloso, o seu Zezinho, e sua irmã Jovina, a Minha Ju. Responsável pelo correio e pelo telégrafo, seu Zezinho era o agente postal telegráfico, ou APT, como se dizia na época. Disciplinado, levantava todos os dias às cinco da manhã para fazer a chamada e conferir se as linhas estavam em condições normais de operação. Com tudo checado, tomava o café da manhã nos fundos da casa, onde ficavam a cozinha e a sala, e depois abria o correio. Enquanto Minha Ju operava o telégrafo, seu Zezinho passava telegramas pelo telefone operado à manivela. Dono de voz firme mas tranquila, às vezes precisava aumentar o tom para vencer o ruído da linha precária. E só assim conseguia se comunicar com o operador de São Francisco do Conde, localidade próxima a Salvador.

O telégrafo ficava na parte da frente da casa. Colocado inicialmente no andar de cima, desceu conforme mais cômodos foram preparados para abrigar a família que não parava de crescer. Vez por outra, diversão e trabalho se misturavam. As soluções químicas necessárias ao funcionamento das máquinas exerciam fascínio natural nas crianças. Na bateria eletrolítica, o azul produzido pelo sulfato de cobre atraía as mãozinhas curiosas, mas a tentação em mexer diminuía quando o pai explicava com paciência que aquilo não era brinquedo.

Com o expediente dividido em dois turnos, um pela manhã, outro à tarde, o trabalho exigia atenção dobrada. Mesmo com a rotina cansativa, o respeito à profissão fez com que seu Zezinho nunca tirasse férias. A estrutura enxuta do serviço, tocada por ele e sua irmã, não o deixava confortável para esquecer, mesmo por alguns dias, a obrigação que tinha com seus conterrâneos. O que poderia ser um fardo, no entanto, deu-lhe um presente maravilhoso. O trabalho realizado na própria casa permitiu que estivesse sempre presente. Além da convivência natural com a família, pôde acompanhar o desenvolvimento de cada filho, primo ou sobrinho sob sua tutela. Essa praticidade proporcionou uma união que de outra forma não seria possível.

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No Nordeste do Brasil as estações nem sempre são bem caracterizadas como em lugares onde claramente existe verão, outono, inverno e primavera. Em agosto, no Recôncavo Baiano, e, portanto, inverno no Hemisfério Sul, os dias são quentes, e as noites, frias. Na noite de 7 de agosto de 1942, o vento úmido que soprava baixinho trouxe boas novas. Mais um filho de seu Zezinho e dona Canô veio a este mundo. Às 22 horas e 50 minutos, sob o signo de leão, nasceu Caetano Emanuel Vianna Telles Velloso. Na ocasião nem todos da família estiveram na plateia para assistir ao parto. Margarida e Mariinha, sobrinhas de seu Zezinho, iam à Igreja toda sexta-feira, e aquela não tinha sido diferente. Embora estivessem ansiosas pela chegada do primo, acharam por bem pedir aos céus que dona Canô tivesse uma boa hora. E as preces foram atendidas. Quando chegaram acompanhadas de minha Ju encontraram o menino repousando ao lado da mãe. Dormia um sono tranquilo depois de aparado por mãos experientes.

No sobrado não havia criança que acreditasse em cegonha. Por mais que se contasse esse conto da Carochinha, ninguém embarcava na história. Naquela família, todo mundo sabia que para tirar criança da barriga tinha que trazer Iá Pomba e vó Júlia, mães de seu Zezinho e dona Canô, respectivamente. Daquela vez, porém, não foi assim. Apenas vó Júlia aparou o pequenino Caetano. Iá Pomba tinha deixado saudades quase um ano antes, vítima de problemas cardíacos.

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Maria Clara Velloso, a Iá Pomba, era parteira, ou aparadeira, como se costumava dizer na época. Nascida em Santo Amaro, conheceu e se uniu a José Cupertino Telles, comerciante de Berimbau, hoje Conceição do Jacuípe. José foi abrir uma casa de negócios na cidade e se apaixonou por Iá Pomba, que estava viúva e cheia de filhos. De seu primeiro relacionamento teve Francisco, Maria Pacífica, Arabela e Isabel. Nem a existência de toda essa filharada tirava o ímpeto de José Cupertino em ser pai. Realizaria seu sonho antes da virada para o século XX, com o nascimento de sua primeira filha, Jovina.

Jovina Telles Velloso foi batizada segundo o costume antigo, que pedia o sobrenome do pai vindo antes do da mãe. Na tradição do apelido, embora o natural fosse chamar de Jô, ou Jó, com o som aberto característico do sotaque baiano, acabou chamada de Minha Ju. O possessivo ficava por conta do tratamento carinhoso da família.

Minha Ju ganhou um dengo todo especial do pai e teve educação digna de princesa. Entrou para o Colégio das Irmãs Sacramentinas, onde lecionaria anos mais tarde. Na instituição exclusiva para meninas aprendeu francês e a tocar piano. A desenvoltura com o instrumento despertou também o interesse pelo canto. Com o passar do tempo, Minha Ju uniu o útil ao agradável. Católica praticante, entrou para o Coro Santa Cecília, da Igreja da Matriz da Purificação, e por muito tempo faria ecoar sua bem colocada voz de soprano. Fosse na Matriz ou no Rosário, em Oliveira dos Campinhos ou na Lapa, e onde houvesse festa, lá estaria Minha Ju.

Em coração de pai e de mãe sempre cabe mais um. Se Minha Ju era a menina dos olhos da família, em 14 de outubro de 1901 nascia José Telles Velloso, para dividir um pouco as atenções. Zezinho e Minha Ju cresceram juntos sob a proteção dos pais e influência dos irmãos mais velhos. Francisco, o primeiro filho de Iá Pomba, já era casado e morava em outra casa. Foi ele quem estimulou os caçulas na educação. Homem de forte presença, proveu a família dos recursos necessários e botou os mais novos para estudar. Zezinho gostava de música, poesia, serenata e era bom aluno. Minha Ju não ficava para trás. Podia parecer muito, mas não era suficiente. Influenciados por Francisco, os dois resolveram prestar concurso para os correios.

A aprovação chegou, mas nem todas as notícias soaram boas. Precisariam colocar os pés na estrada. As vagas eram para trabalhar em Salvador. Fazer o quê? O jeito foi encarar o desafio. O tempo passou e alguns anos de experiência foram acumulados até surgir a chance de retornar. Fizeram novo concurso, desta vez interno, e, pela boa classificação obtida, tiveram prioridade de escolha. Passaram ainda por Ilhéus, mas não demoraria muito até que estivessem de volta à tranquila Santo Amaro.

Aliás, tranquila naquela época. Bem antes disso, porém, índio não queria só apito...

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No início eram os índios Abatirás. Os primeiros colonos que chegaram ao Recôncavo Baiano, lá pelos idos de 1557, perceberam que aqueles eram inimigos dos Tupinambás e ficaram satisfeitos. Inimigo de meu inimigo é meu amigo. Enquanto os nativos se matavam, os portugueses tomavam suas terras. Para catequizar os sobreviventes, uma turma de jesuítas do Colégio Santo Antão de Lisboa subiu pelas margens do rio Traripe. Ergueram a capela de Nossa Senhora do Rosário e nos arredores cresceu o povoado. A paz foi ameaçada quando divergências entre índios, colonos e jesuítas, levaram à morte um padre em plena missa. O fato ocasionou uma diáspora e o início de um novo povoado na margem do rio Subaé.

Dizia Pero Vaz de Caminha que no Brasil em se plantando tudo dá. O massapê, terra escura rica em húmus, era abundante naquelas plagas. Sabendo disso, o 3º Governador Geral do Brasil, Mem de Sá, chegou com seu engenho e mudas de cana-de-açúcar. Deixou tudo nas mãos de seu filho e foi cuidar de outros assuntos no Rio de Janeiro. Ele só não contava com a morte prematura do filho. Sem herdeiros homens na linhagem, apressou o casamento da filha Felipa com Fernando de Noronha, o Conde de Linhares.

O Conde assumiu o engenho e expandiu a freguesia rumo ao interior, dando vez a outros povoados, como Brotas, Saubara e Acupe. Com a antiga capela abandonada desde a morte do padre, mandou construir uma nova dentro do próprio engenho, agora em nome de Nossa Senhora da Purificação. Sem filhos com Felipa, sua devoção cristã fez com que as terras fossem doadas ao colégio de jesuítas, depois de sua morte.

Em 1600, as terras foram repartidas em sesmarias, e um bom quinhão do povoado ficou sob a tutela de João Ferreira de Araújo. Pouco tempo depois formava-se o distrito. Para aumentar ainda mais o alcance da fé, a expansão pedia também uma nova capela. Em 1667, construiu-se outra, desta vez em nome de Santo Mauro, ou Santo Amaro na forma mais utilizada em português. Do abraço da fé entre os povoados surgidos ao redor das duas igrejas, cresceu a localidade denominada a partir de 1727 de Vila de Santo Amaro da Purificação.

Em 1837, a promoção de Vila à Cidade custou a terminação do nome, daí em diante denominada apenas por Santo Amaro. Os responsáveis pela mudança, porém, esqueceram de uma coisa: casamento que Deus ordena, homem não desfaz. A cidade seria para sempre conhecida como Santo Amaro da Purificação.

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CAETANO - UMA BIOGRAFIA
AUTORES Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco
EDITORA Seoman
QUANTO R$ 50,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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