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03/08/2017 - 12h30

Atleta paraolímpico e ex-BBB, Fernando Fernandes revê trajetória em livro

da Livraria da Folha

Divulgação
Fernando Fernandes fala como buscou forças após o acidente de carro que o fez perder o movimento das pernas
Fernando Fernandes fala como buscou forças após o acidente de carro que o fez perder o movimento das pernas

Campeão mundial de paracanoagem, Fernando Fernandes revê sua trajetória no livro "Inquebrável", publicado pelo selo Paralela, da Companhia das Letras.

Conhecido também por sua participação no Big Brother Brasil, o atleta fala sobre como teve que se adaptar e reinventar após o acidente que o fez perder o movimento das pernas.

Escrito em parceria com o jornalista Pablo Miyazawa, o livro traz trechos do diário que Fernando escreveu no hospital dias depois da batida de carro.

A obra se divide em três partes. A vida antes do acidente com passagens sobre a carreira de Fernando como modelo e sua participação no BBB, as reflexões sobre o acidente e as decisões que tomou após receber alta do hospital, como a de treinar para a Paraolimpíada.

Do primeiro banho como cadeirante até a nova maneira de vivenciar a sexualidade, o livro traz relatos de resiliência, fé e confiança no próprio potencial.

Leia abaixo um trecho de "Inquebrável".

*

PRÓLOGO

VENCEDOR

Foi só quando entrei na água e alinhei o caiaque na raia que percebi que minha cabeça estava a mil por hora. Tentava lidar com uma mistura de sensações conflitantes - nervosismo, ansiedade, confiança, tudo junto -, porque sabia bem o quanto havia me dedicado até aquele momento. A cidade era Poznań, na Polônia, no auge do verão europeu, e eu, diante de uma plateia de 5 mil pessoas, estava pronto para competir na final do primeiro campeonato mundial de paracanoagem. Como havia chegado ali mesmo?

Era 20 de agosto de 2010, e fazia pouco mais de um ano que eu havia sofrido a lesão que me tirou os movimentos das pernas. Tinha dedicado os oito meses anteriores ao esporte, o que fazia de mim um atleta de verdade. Nesse período, busquei maneiras de aprender a praticar uma modalidade que quase ninguém conhecia no Brasil. Fizera daquele aprendizado a minha maior prioridade. E, de repente, lá estava eu, sentado em um barco, alinhado para a primeira grande prova da minha vida.

O título seria decidido em uma só corrida e havia nove atletas competindo. Ventava muito, o que é um problema para a paracanoagem, porque atrapalha o equilíbrio. Mas não era um obstáculo grande para mim, que já estava acostumado a lidar com o vento do lago Paranoá, em Brasília, onde aprendi a remar.

Quando ouvi a buzina da largada, saí como se fosse uma britadeira. Remei como se minha vida dependesse daquilo. Depois de 56 segundos, que nem senti passarem, atravessei a linha de chegada. Olhei para um lado e não vi ninguém. Para o outro, ninguém também. Eu havia cruzado sozinho e era o campeão. O primeiro campeão mundial da modalidade.

Muita gente me pergunta: no que você estava pensando durante a prova? Você se lembra de alguma coisa? Nada. Não faço ideia do que aconteceu e não me recordo de um único segundo daquela corrida. No documentário Senna, o piloto comenta sobre certa corrida: "Percebi que já não estava mais dirigindo conscientemente. Para mim, era como se fosse outra dimensão. Eu estava além da minha compreensão consciente". Hoje consigo entender isso, porque também não me lembro de nada.

Quando me dei conta, não me segurei e gritei: sou campeão mundial! CAMPEÃO MUNDIAL. Tinha vencido, descoberto meu lugar no mundo, me reencontrado na sociedade, finalmente achado a minha estrada. Ao subir no alto do pódio, me preparei para receber a medalha - o "selo de garantia" de todo o meu esforço. Aquele foi o momento exato em que me senti mais vitorioso. Não foi por ter sido campeão, mas por ter saído do nada, do zero, tão desacreditado. Enfim tinha sido recompensado depois da grande reviravolta.

Então abri os braços, olhei lá para o alto e, bem de dentro, veio o outro grito que soltei para o céu: VENCI! Venci na vida. Fechei os olhos. E consegui enxergar, como um filme, as lembranças de pouco mais de um ano antes.

PERDEDOR

Aquele 3 de julho de 2009 começou com o sol brilhando forte, do jeito que sempre amei. Parecia uma sexta-feira como outra qualquer, mas eu estava mais ansioso que o de costume. Era o dia de ir à agência de modelos para acertar a papelada e os detalhes da minha viagem de trabalho mais importante até então. Dali a alguns dias, iria para Milão desfilar com exclusividade para a grife de luxo Dolce & Gabbana. De lá, seguiria para Nova York, onde passaria uma longa temporada fazendo mais trabalhos como modelo. Tudo o que eu fazia nos últimos tempos era esperar. Comia pouco, treinava intensamente e me cuidava para ficar em forma. Não podia nem pensar em fazer feio no grande momento da minha carreira. Parecia que tudo se encaminhava conforme o planejado.

Tomei meu café, me arrumei e fui para a agência. De lá, segui para a academia e comecei meu ritual de exercícios. Primeiro, fiz trinta minutos de esteira para aquecer e abrir os pulmões. Depois, enrolei as ataduras nas mãos, vesti as luvas de boxe e deixei a alegria começar. Passei uma hora e meia batendo em sacos de areia, me esquivando, ouvindo música e suando até os braços não aguentarem mais. Voltei para casa, tomei um banho e almocei pouco. A tarde estava tão agradável que resolvi correr no parque para continuar o treinamento.

Depois da corrida, fiquei sentado, relaxando no sol, e até esqueci que o celular estava na mochila. Só no fim da tarde vi a mensagem: meu pai tinha me chamado para jogar futebol naquela mesma noite, no campeonato do Clube Atlético Indiano, perto da represa de Guarapiranga, nos arredores de São Paulo, onde ele era técnico. Fominha que era, não consegui falar não. E lá fui eu calçar as chuteiras.

Aquela era a terceira atividade física que eu praticava em menos de doze horas, um exagero, obviamente, e é claro que meu corpo começou a reagir. Minhas pernas doíam e quase não respondiam durante o jogo. Até comecei a dar passes errados. Não conseguia tocar na bola sem sentir cãibra nas panturrilhas. No final do primeiro tempo, estava tão exausto que pedi ao meu pai para sair.

Depois do fim do jogo, tomei um banho e, como era sexta-feira, fiquei curtindo a noite com a rapaziada do clube. Depois de horas de papo furado, me despedi de todo mundo com um aviso: só vou voltar daqui a quatro anos. Este era o meu objetivo naquele momento: assim que finalmente saísse o trabalho como modelo, eu viajaria pelo mundo e só retornaria ao Brasil quando estivesse com o bolso cheio. Tinha colocado na cabeça que minha rotina seria viver com uma mala, uma mochila e um laptop. Se havia uma única oportunidade na vida para ganhar dinheiro, eu acreditava que seria aquela.

Era tarde e eu estava tão cansado que nem lembro a que horas fui embora. Acredito que já passava das três da manhã quando entrei no carro. Dei a partida. Não pus o cinto de segurança. E, nas mãos de Deus, fui para casa.

Casa? Mas aquela não era a minha cama. Eu estava deitado em uma maca e percebi que me empurravam. Muito atordoado, confuso e dolorido, não entendia o que se passava. Que lugar era aquele? O que estava acontecendo? Olhando para cima, vi que estava em um longo corredor com luzes fortes que me cegavam. De repente, me deixaram em uma sala toda branca, onde me vi cercado de homens de idade e mulheres loiras e bonitas, todos vestidos de branco. Parece clichê, mas juro que cheguei a me perguntar se não havia morrido. Será que estava no céu?

Aos poucos, fui recobrando a consciência e entendi que estava em um hospital. Chegaram meus pais, outras pessoas da família e amigos. Apesar de tantos parentes reunidos, o que não acontecia fazia algum tempo, ninguém parecia feliz. Quando vi minha mãe com cara de choro, tive certeza de que alguma coisa estava muito errada.

Mas eu parecia normal. Entendi que tinha batido a cabeça, mas não percebi nenhum ferimento nem sangue aparente. Então, tentei mexer as pernas. Não senti nada. Repeti o comando, mas elas não respondiam. Eu não conseguia sentir nada da cintura para baixo. Aflito, perguntei a um médico: "Doutor, o que aconteceu com minhas pernas?". A resposta de todos era a mesma: "Calma, vai ficar tudo bem". Estavam escondendo alguma coisa.

Meu tio Étore, que é médico, me explicou pacientemente: "Olha, Nando, você sofreu um acidente. Bateu o carro e estava sem cinto. Você quebrou a coluna". Minha consciência era pouca, mas aquelas palavras me atingiram como uma bomba. Perturbado, respondi que precisava ir a Milão em alguns dias para fazer os desfiles e que minhas pernas tinham de funcionar de qualquer jeito! Eu falava e chorava ao mesmo tempo. "Calma, você vai passar por uma cirurgia para reconstruir a coluna e vamos ver como o teu corpo vai reagir."

Foi nessa hora que entendi a gravidade do problema e entrei em desespero. Só conseguia pensar: "Fodeu tudo". Aqueles minutos ou horas na sala de cirurgia, esperando para ser sedado e operado, foram os mais angustiantes da minha vida. Minha vontade era levantar dali e sair correndo, mas eu não podia. Mal sabia que só conseguiria me sentar outra vez depois de um mês. E quando voltaria a andar?

*

INQUEBRÁVEL
AUTORES Fernando Fernandes e Pablo Miyazawa
EDITORA Paralela
QUANTO R$ 29,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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