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31/07/2012 - 16h30

Leia trecho de 'O Guia dos Curiosos: Jogos Olímpicos'

da Livraria da Folha

Todos os Jogos Olímpicos da Era Moderna foram vítimas de trapalhadas protagonizadas por juízes incompetentes. Pior: os Jogos Olímpicos registraram também indisfarçáveis jogadas de favorecimento, ou seja, roubalheira descarada.

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Abaixo, leia um trecho de "O Guia dos Curiosos: Jogos Olímpicos" que reúne as maiores trapalhadas e lances suspeitos dos juízes nos Jogos Olímpicos.

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TRAPALHADAS DOS JUÍZES!

Divulgação
Guia apresenta o melhor e o pior dos Jogos Olímpicos de forma ágil e divertida
Guia reúne informações sobre os Jogos Olimpicos da Era Moderna

Distração, má vontade, racismo, intrigas pessoais, clima da Guerra Fria, pressão da torcida, patriotada pura, vontade de ajudar o time da casa: em muitas competições olímpicas os juízes roubaram a cena - e, pior ainda, medalhas que deviam ter ido para um atleta e não foram, ou mudaram de cor. Algumas mutretas olímpicas foram mais descaradas, outras menos. Conheça algumas delas:

Se nós, brasileiros, pudéssemos dar uma medalha de ouro na modalidade roubalheira olímpica, premiaríamos a maracutaia que prejudicou João do Pulo, em 1980. Ele era um dos favoritos para a prova do salto triplo em Moscou e podia atrapalhar o planos do soviético Viktor Saneyev: conquistar um histórico tetracampeonato olímpico, como o americano Al Oerter havia feito no arremesso de disco.

A mutreta, revelada em 2000 pelo jornal australiano Sydney Morning Herald, começou a ser tramada ainda na abertura dos Jogos pelo presidente do COI, o irlandês Lord Killanin. Após o evento, ele ouviu as reclamações do dono da Mizuno, que fabrica artigos esportivos. É que a empresa tinha investido 100 mil dólares para que todos os atletas que levariam a tocha da Grécia até Moscou usassem seus tênis, e Saneyev e Sasha Belov, ídolo soviético do basquete, estavam de Adidas.

Então, Killanin, o empresário japonês e o dono da Adidas, o alemão Horst Bassler, se reuniram. Bassler admitiu que havia prejudicado a Mizuno - mas sem querer -, e aceitou a proposta do presidente do COI: Saneyev deveria vencer a qualquer custo e usando a marca japonesa, que poderia empregar o triunfo do soviético em campanhas publicitárias.

Para ajudar Saneyev, os juízes anularam nove dos doze saltos de João do Pulo, sob a alegação de que ele havia pisado na linha de salto. E acabaram deixando passar a marca de 17m80, que seria um novo recorde olímpico. O melhor salto válido de João foi de 17m22, que lhe deu o bronze. No entanto, mesmo com o brasileiro fora do páreo, a armação não deu certo. Saneyev nem usou Mizuno - após uma confusão, ele saltou usando Asics, outra marca japonesa - e também acabou não levando o ouro. Seu compatriota Jaak Udmae alcançou a marca de 17m35, 11 centímetros a mais que o tricampeão.

TRÊS SEGUNDOS QUE VALERAM OURO

Os americanos, por outro lado, até hoje estão emburrados com um brasileiro, protagonista de um dos episódios mais famosos das olimpíadas envolvendo a arbitragem: a final do basquete dos Jogos de Munique, em 1972. A União Soviética vencia por 49 a 48, quando o astro Sasha Belov perdeu a bola. Os soviéticos tiveram de fazer falta em Doug Collins, que acertou os dois lances livres. Com três segundos para virar o placar, o time soviético perdeu a bola novamente quando faltava apenas um segundo.

O técnico da URSS, Vladimir Kondrashin, berrava como um louco, alegando que havia pedido um tempo logo depois dos lances livres e não tinha sido ouvido pela mesa de cronometragem. Tanto o árbitro do jogo, o brasileiro Renato Righetto, quanto o chefe dos cronometristas, o francês André Chopard, não deram razão ao técnico. A partida terminaria normalmente, se não fosse a intervenção do inglês William Jones, presidente da Federação Internacional de Basquete. Ele exigiu que o relógio voltasse para três segundos, com posse de bola para a União Soviética. Righetto e Chopard não puderam fazer nada além de obedecer.

O jogo terminou em 51 a 50 para a União Soviética, com uma cesta de Belov. Era a primeira vez que os Estados Unidos perdiam o ouro da modalidade em olimpíadas.

Os americanos protestaram, mas novamente o presidente da Federação Internacional de Basquete (Fiba) mostrou sua parcialidade, escolhendo as pessoas que julgariam o pedido americano: um italiano, um porto-riquenho, um polonês e um cubano, com o objetivo de forçar um empate em 2 a 2. O voto de Minerva, então, seria de um húngaro. Os atletas americanos não compareceram à premiação e suas medalhas de prata estão guardadas até hoje, num cofre na sede da Fiba.

O TOUCHÉ DO JUIZ HÚNGARO

Outro sério candidato a medalha na lista dos juízes ladrões seria o húngaro Sandor Kovacs. Graças a ele, as competições de esgrima de 1924 foram um verdadeiro escândalo. A equipe italiana era a favorita em várias categorias. Kovacs, o chefe dos fiscais, foi o carrasco dos italianos. No dia 30 de junho, durante a disputa entre França e Itália no florete por equipes, decisões controvertidas dos juízes deram a vitória à equipe local.

O esgrimista italiano Aldo Boni não se conteve e berrou com Kovacs, que exigiu desculpas, não oferecidas. Kovacs chamou um veterano italiano, Italo Santelli, que deu razão ao húngaro (detalhe: Santelli fora treinador do time húngaro em 1920). A equipe italiana abandonou a competição de florete, tanto por equipes quanto individual (que seria realizada cinco dias depois), e ambas foram vencidas pelos franceses.

Mas a marmelada não parou aí. No sabre individual, os fiscais colocaram os quatro italianos em uma única barragem. Só um seguiria adiante para disputar medalhas. Os atletas aceitaram, e Oreste Puliti venceu a barragem. Kovacs, então, acusou os outros três esgrimistas de fraude - eles teriam facilitado a vitória do colega. Puliti, ofendido, foi para cima do húngaro com arma e tudo. Acabou desclassificado, e nenhum dos outros três italianos aceitou a vaga na decisão. A Hungria ficou com o ouro e o bronze; a França, com a prata. Dois dias depois, durante uma festa, Puliti desafiou Kovacs para um duelo, realizado quatro meses depois, sem vencedores.

A "SUPERIORIDADE" ALEMÃ

Na competição por equipes, os juízes alemães dos Jogos de Berlim, em 1936, seriam os favoritos ao ouro. Veja o que eles fizeram para dar uma mãozinha:

  • Os organizadores das provas de hipismo criaram uma pista muito difícil, que era conhecida apenas pelos alemães.
  • Um ciclista alemão bloqueou um holandês na final, em uma manobra ilegal. Em vez de ser punido, foi apenas multado e ficou com o ouro.
  • Antes da eliminatória do salto em distância, Jesse Owens fez um salto, ainda de agasalho, apenas para verificar a pista e controlar as passadas. Logo depois, soube que os fiscais alemães haviam validado o seu salto de teste. Com uma das três tentativas roubada pelos juízes, o negro Owens só se classificou no terceiro salto e terminou triunfando na final.
  • As regras do levantamento de peso dizem que, se dois halterofilistas terminarem a competição empatados, vence o que tem menor massa corporal. Na categoria dos leves, em Berlim, o egípcio Anwar Mesbah e o austríaco Robert Fein ficaram em primeiro, com 324,5 quilos. Pela regra, Mesbah leva-ria o ouro, mas os juízes ignoraram a regra para que o africano não vencesse o ariano austríaco. Os dois competidores dividiram a medalha de ouro e o COI aceitou a decisão.
  • Empenhados em dar a medalha de ouro ao boxeador peso-mosca alemão Willi Kaiser, os juízes lhe deram a vitória na semifinal (contra o americano Louis Laurie) e na final (contra o italiano Gavino Matta), mesmo que os oponentes tivessem sido claramente superiores ao alemão. A armação foi tão evidente que, depois da semifinal, até os torcedores alemães vaiaram o resultado.

TRAPAÇAS NO RINGUE

Um dos esportes que mais teve problemas com a arbitragem foi o boxe:

  • Em Paris (1924), alguns juízes passaram dos limites para favorecer os atletas locais. Muito antes de Mike Tyson levar um pedaço da orelha de Evander Holyfield, o peso-médio francês Roger Brousse tinha o hábito de morder os adversários. Após cravar os dentes em um argentino, repetiu a dose com o britânico Harry Mallin, campeão de Antuérpia. Depois do último assalto e antes do anúncio do vencedor, Mallin reclamou e foi ignorado, apesar das evidências no seu peito. O árbitro belga e um juiz italiano deram a vitória ao francês, e tudo teria terminado assim se o britânico não tivesse encontrado um membro da Associação Internacional de Pugilismo, que protestou e conseguiu a eliminação de Brousse. Mallin chegou ao bicampeonato olímpico apesar dos protestos violentos da torcida francesa.

E O VENCEDOR É QUEM MESMO?

Na semifinal dos galos, em Amsterdã, os juízes declararam o sul-africano Harry Isaacs vencedor, embora todos achassem que o norte-americano John Daley tivesse sido muito superior. Os compatriotas de Daley foram pressionar os juízes, até que um deles disse que havia confundido as notas. Na final, Daley perdeu para um italiano.

  • Em Berlim, em sua primeira luta na categoria leves, o pugilista sul-africano Tommy Hamilton-Brown havia sido muito superior ao chileno Carlos Lillo, mas os juízes deram a vitória ao sul-americano. Para afogar as mágoas, Brown se entupiu de carne de porco e cerveja em um restaurante, sem saber que o resultado de sua luta tinha sido invertido à meia-noite, quando um jurado descobriu que tinha confundido os papéis da luta entre Brown e Lillo. O sul-africano continuaria na competição - quer dizer, se tivesse mantido o peso em vez de engordar três quilos. Acabou desclassificado.
  • Nas competições de boxe, em Roma, metade dos jurados foi demitida durante os Jogos por favorecer explicitamente os lutadores de países socialistas. O boxeador brasileiro Waldomiro Pinto vencia com facilidade o soviético Oleg Grigoriev em sua estréia na categoria dos galos, quando escorregou perto do fim da luta. O juiz, no entanto, decidiu que Waldomiro tinha caído, o que virou a luta em favor de Grigoriev, que acabaria com o ouro.
  • Como vingança, os jurados ocidentais dos médios deram, injustamente, a medalha de ouro ao americano Edward Crook contra o polonês Tadeusz Walasek.
  • Os alemães queriam que pelo menos um compatriota levasse um ouro no boxe em Munique. O contemplado foi o médio-ligeiro Dieter Kottysch. Para isso, era preciso eliminar o americano Reggie Jones. Ele perdeu na estréia, por pontos, para o soviético Valeri Tregubov, que saiu da luta sangrando e sem poder abrir um olho. Mesmo a torcida alemã vaiou os jurados por 15 minutos.
  • Apesar de ter sido derrubado duas vezes pelo canadense Shawn O'Sullivan, o americano Frank Tate ainda foi declarado vencedor e medalha de ouro dos médios-ligeiros de Los Angeles por cinco votos a zero. Até os americanos da torcida vaiaram o resultado.
  • O meio-pesado Evander Holyfield não ouviu um aviso de interrupção de luta e nocauteou o neozelandês Kevin Barry com um golpe no queixo. Foi desclassificado pelo juiz iugoslavo Novicic. O próprio Barry havia considerado o golpe perfeitamente legal, e Holyfield não tinha como interromper o movimento de braço. Não adiantou. O neozelandês foi para a final contra um iugoslavo e acabou perdendo. Holyfield ficou com o bronze.
  • O sul-coreano Park Si-Hun levou o ouro dos médios-ligeiros em Seul, apesar de ter acertado apenas 32 golpes no americano Roy Jones, que, por sua vez, acertou 86 no coreano. Além disso, Si-Hun abusava dos golpes baixos.
  • A partir de Barcelona, um novo sistema de julgamento pretendeu impedir a roubalheira no boxe: quando considerava um golpe válido, o juiz apertava um botão, azul ou vermelho, de acordo com a cor da roupa do pugilista. Se pelo menos três dos cinco jurados apertassem o botão ao mesmo tempo, seria contado um ponto para o lutador. Não havendo nocaute, o vencedor seria quem conseguisse mais pontos desse tipo. Mesmo assim, nos meios-médios o irlandês Michael Carruth levou o ouro em uma decisão bastante contestada contra o cubano Juan Hernandez, bem mais técnico que Carruth.

Outras confusões olímpicas envolvendo juízes

  • Nos saltos ornamentais da Olimpíada de Saint Louis, em 1904, os juízes americanos desprezavam as piruetas dos três atletas alemães e privilegia-vam os dois competidores dos Estados Unidos, que faziam saltos sem graça mas tinham entradas perfeitas na água. Os árbitros ainda exigiram um desempate entre o alemão Braunschweiger e o americano Kehoe pela meda-lha de bronze. O alemão se recusou e foi desclassificado, mas o COI registrou os dois atletas com a terceira posição. O campeão foi o americano George Sheldon, seguido pelo alemão Georg Hoffmann.
  • A prova dos 400 metros da Olimpíada de Londres, em 1908, acabou em confusão por causa dos juízes da prova. O britânico Wyndham Halswelle competiu na final contra três americanos, John Carpenter, Billy Robbins e Johnny Taylor. Carpenter venceu, mas foi desclassificado pelos juízes - britânicos - por ter fechado o caminho de Halswelle em duas ocasiões. Os fiscais de pista ainda tiraram Taylor da prova - literalmente, forçando o atleta a sair da pista com os braços. Para desclassificar Carpenter, os juízes invocaram uma suposta regra segundo a qual um corredor não poderia mudar de raia se isso atrapalhasse um adversário. Os americanos diziam que tal regra não existia. Os juízes marcaram uma nova final, com Halswelle, Taylor e Robbins, com as raias separadas por cordões. Os americanos se recusaram a participar, o britânico Halswelle correu sozinho e levou o ouro.
  • Novamente em Londres, novamente no atletismo, os juízes ingleses prejudicaram os americanos para beneficiar sua pátria: em 1948, os Estados Unidos venceram o revezamento 4 x 100 metros com folga, mas foram des-classificados por um árbitro segundo o qual uma das passagens de bastão tinha sido feita fora da área delimitada. Os outros fiscais confirmaram a decisão e o ouro foi parar no peito dos atletas ingleses. Os Estados Unidos apelaram para a Federação Internacional de Atletismo, que analisou o vídeo da prova e constatou que não havia nenhuma irregularidade. Uma nova cerimônia de premiação foi realizada dias depois.
  • As ginastas tchecas que participaram dos Jogos de 1948 nem precisavam de ajuda dos juízes, pois eram superiores às rivais, mas ainda assim eles deram uma mãozinha para a equipe. Uma das atletas, por exemplo, recebeu uma incrível nota: 13,1.
  • Na Olimpíada de Roma, os juízes da ginástica eram quase todos de países socialistas. Para beneficiar as atletas soviéticas, os árbitros deram à japonesa Keiko Ikeda uma nota tão baixa nas barras assimétricas que as vaias da torcida duraram dez minutos.
  • A soviética Eva Bozd-Morskaya já havia aprontado em Melbourne, mas voltou para julgar a prova dos saltos ornamentais em Roma. Dessa vez, ela seria eliminada logo no começo das competições, ao contrário do que acontecera na Austrália, quatro anos antes, por favorecer descaradamente os soviéticos e outros atletas de países socialistas.
  • A Cata-Pole, uma vara bem mais flexível e resistente que as comuns, foi motivo de discussão nos Jogos de Munique. Pouco mais de um mês antes do começo das competições, o equipamento foi proibido graças a reclamações da Alemanha Oriental. Não haveria tempo para os atletas se acostumarem às varas permitidas. Já durante os Jogos, a Cata-Pole voltou a ser legal, sendo banida novamente poucas horas antes do começo das eliminatórias do salto com vara. Os fiscais fizeram uma verdadeira batida nos alojamentos procurando pelas varas. Os atletas tiveram de usar equipamento antigo, e o campeão foi o alemão-oriental Wolfgang Nordwig, que não gostava da Cata-Pole.
  • A canadense Sylvie Frechette foi prejudicada na prova individual do nado sincronizado, em Barcelona, por causa de uma distração da brasileira Ana Maria Silveira. Querendo dar uma nota 9,7, a jurada digitou 8,7 e não conseguiu corrigir o erro. Frechette foi medalha de prata.

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"O Guia dos Curiosos: Jogos Olímpicos"
Autor: Marcelo Duarte
Editora: Panda Books
Páginas: 292
Quanto: R$ 12,90 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.

Texto baseado em informações fornecidas pela editora/distribuidora da obra.

 
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