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08/09/2016 - 13h43

Relacionamentos abusivos são tema de 'Amor Amargo', de Jennifer Brown

da Livraria da Folha

Em "Amor Amargo", a premiada escritora Jennifer Brown apresenta um romance de denúncia sobre um tema universal: relacionamentos afetivos cheios de marcas como violência, ciúme e controle abusivo.

Divulgação
Em livro, autora denuncia relacionamentos afetivos cheios de marcas como violência, ciúme e controle abusivo
Em livro, autora denuncia relacionamentos afetivos cheios de marcas como violência, ciúme e controle abusivo

Na trama, a jovem Alex está terminando os estudos escolares e, junto com um grupo de amigos, planeja uma viagem para o Colorado, nos Estados Unidos. Apesar de carregar consigo a ausência de sua mãe que faleceu em um acidente, a adolescente não deixa de sonhar com a tão esperada formatura e o início de sua nova vida na universidade.

Tudo muda quando Alex conhece Cole, um rapaz atraente, gentil e atlético. Eles se apaixonam e iniciam um namoro sustentado por um ciúme doentio que se torna cada vez mais grave: Alex se afasta dos amigos e percebe que sua vida começa a girar em torno de um eixo composto por Cole e suas obrigações com o trabalho e a escola.

Em "Amor Amargo", a autora apresenta o retrato de um relacionamento conturbado que serve como alerta para os leitores.

Jennifer Brown é colunista do jornal "Kansas City Star" e mora na região de Kansas City, nos Estados Unidos, com o marido e três filhos. Seu primeiro romance, "A Lista Negra", recebeu os prêmios Michigan Library Association Thumbs Up! Award, o Oklahoma Library Association Sequoyah Book Award, o Louisiana Teen Readers Choice, entre outros.

Abaixo, leia um trecho do livro.

*

Persistente. É como eu descreveria, em uma palavra, Bethany, minha melhor amiga. Ou talvez incansável. Ou, se estivesse escrevendo um poema sobre ela, talvez obstinada, porque palavras como obstinada impressionavam a Srta. Moody, e, quando eu as usava, ela dizia que eu era uma poeta nata, o que, de certo modo, era bacana.

Não fazia diferença; todas essas palavras queriam dizer a mesma coisa - decidida - e Bethany era, antes de tudo, decidida.

Essa era uma das coisas que eu mais admirava nela. Sempre tinha uma ideia clara de para onde a vida estava indo ou, melhor dizendo, para onde ela estava conduzindo a vida. Dentre todas as coisas que tínhamos em comum, essa era uma das que nos diferenciavam, e era um dos motivos por que eu gostava de ser sua amiga. De certa forma, acho que tinha esperanças de que ela passasse um pouco da sua obstinação para mim para que, um belo dia, eu tomasse as rédeas da minha própria vida, tendo a certeza de onde eu iria parar.

Em determinadas vezes, a persistência de Bethany era um pouco difícil de ser ignorada. O fato de estarmos acabando de nos recuperar do movimento da hora do almoço, e de eu estar ocupada limpando uma montanha de bandejas mais alta que eu, ou de minha chefe, Geórgia, estar logo ao lado, pouco importava. Bethany entrou marchando no Bread Bowl com seus tênis de cano alto desamarrados, e com sua enorme bolsa batendo nos quadris, e se sentou à mesa mais suja da lanchonete.

"Psssiu!", ela chamou, tirando um maço de papéis da bolsa e abanando-os na minha direção. Tentei ignorá-la, mantendo os olhos grudados na bandeja que tinha nas mãos. Daí ela fez de novo, "Psssiu!", e então fez um ruído como se estivesse limpando a garganta.

"Acho que tem alguém engasgando ali", disse Geórgia, tirando um maço de notas de 20 da gaveta da caixa registradora e fechando-a em seguida com os quadris. "Ou, pelo barulho, há alguém botando os bofes pra fora." Para Geórgia, a persistência de Bethany também não era novidade. Ela gostava de Bethany, e costumava brincar que ela, sem dúvida alguma, seria a primeira mulher a ser eleita presidente.

Empilhei a bandeja que eu estava limpando e larguei o pano molhado em cima do balcão.

"Acho que tem uma mesa ali precisando de limpeza", falei.

"É o que parece", murmurou Geórgia. Ela foi em direção à sua sala, arrumando as notas de 20 para que ficassem todas com a frente virada para cima. "E com uma certa pessoa cuspindo em cima da mesa desse jeito, a cada minuto que passa está ficando mais suja." Em seguida, acrescentou sem olhar para trás: "E sirva para aquela freguesa algo pra beber. Talvez ajude com o problema na garganta".

"Você é um exemplo de solidariedade, Gê", respondi, pegando um copo vazio no caminho para o salão.

Dentre as minhas tarefas no Bread Bowl, limpar o salão era provavelmente a que eu menos gostava. As pessoas deixavam cada nojeira para trás depois de comer! No entanto, às vezes, como quando Bethany ficava matando tempo por ali, por exemplo, estar encarregada da limpeza não era tão ruim. Desse modo, enquanto recolhia pedaços de guardanapos rasgados e sanduíches pela metade, tentando parecer bem mais ocupada do que na verdade estava, podíamos conversar um pouco.

"Olha isso", disse Bethany, assim que coloquei uma latinha de Dr. Pepper Diet na sua frente e comecei a limpar a mesa. Com o joelho, cutucou de leve minha perna. "Banheira de hidromassagem!"

Endireitei-me, peguei o maço grampeado de papéis da sua mão e passei os olhos pela primeira folha, que, entre outras coisas, exibia uma foto granulada de uma banheira de hidromassagem para doze pessoas.

"Puxa vida", falei, lendo a lista de coisas que havia no hotel: banheira de hidromassagem, piscina coberta, sala de musculação completa. Era o paraíso. O paraíso a peso de ouro. "É incrível. Sem chance de a gente poder pagar. Você acha mesmo que temos grana pra isso?"

Virei a página e comecei a ler detalhes sobre as atrações que havia nas redondezas do hotel. Do outro lado da lanchonete, Geórgia limpou a garganta. Ergui os olhos. Ela estava empilhando cardápios de delivery ao lado da caixa registradora. De forma sugestiva, desviou o olhar para o dono do Bread Bowl, Dave, ou "Sr. Pé-no-Saco", como era chamado de forma pouco carinhosa por alguns dos cozinheiros. Nos últimos tempos, por algum motivo, Dave vivia por ali, o que deixava todo mundo de mau humor, sem falar que acabava com minhas chances de ficar babando em cima de fotos de banheiras de hidromassagem e salas de musculação com Bethany.

Devolvi os papéis para ela e voltei a recolher embalagens de sanduíche amassadas e enfiá-las em um copo vazio.

"Uau, e olha isso!", continuou Bethany, ignorando completamente tanto minha pergunta quanto o aviso pouco sutil de Geórgia. "Tem uma lareira enorme no saguão. Aposto que daria pra passar o dia todo lá sentada, tomando chocolate quente e admirando as celebridades. Imagina só, a gente pode acabar no maior amasso com algum famoso." Assim que terminou a frase, quase pulou da cadeira, batendo no meu ombro com os papéis. Um punhado de guardanapos voou para fora do copo e caiu novamente em cima da mesa. "A gente pode acabar na capa de uma revista de fofocas!" Com as mãos erguidas no ar, fez como se estivesse visualizando uma manchete: "Quem são as misteriosas beldades que partem os corações dos famosos nas montanhas?".

Eu ri.

"Tá mais para: 'Quem são as misteriosas desastradas que quebram as pernas dos famosos ao atropelá-los quando esquiam?'."

"Bom, se isso significa cair por cima de um bonitão, não me importaria de quebrar a perna dele."

"Nem vem, eu vi o bonitão quebrado primeiro", falei.

"De jeito nenhum, a ideia foi minha."

Geórgia limpou a garganta de novo. Agora, estava começando a se parecer com Bethany. Dave tinha entrado no salão e estava parado com as mãos na cintura, examinando-o minuciosamente. Entrar na lista negra de Dave era a última coisa de que eu precisava. Os momentos em que mais gostava de Dave era quando ele fingia que eu não existia, ou seja, a maior parte do tempo. Nesse aspecto, ele lembrava o papai. Estava acostumada a ser ignorada pelos homens da minha vida.

"Olha só, será que dá pra gente falar de bonitões quebrados e revistas de fofoca mais tarde? Tenho que terminar de limpar isso aqui."

Bethany suspirou.

"Trabalho, trabalho, trabalho."

"Isso aí. E se eu perder o emprego, você vai ficar tomando chocolate quente sozinha, sozinha, sozinha."

Bethany olhou na direção de Dave e soltou um resmungo de frustração.

"Tá bom. Fazer o quê? Mas vê se me liga. Quero saber o que você acha dos restaurantes. Eu e Zach temos pesquisado."

Zach. Nosso outro melhor amigo. Se tivesse que descrevê-lo em uma palavra, seria... Bom, é impossível descrevê-lo em uma só palavra. Ele era uma mistura de irmão mais velho superprotetor, tio tarado e primo mais novo irritante, tudo ao mesmo tempo. Era um show de comédia ambulante. Um gênio da música. Um amigo incrível. Para ser bem sincera, Zach era
provavelmente a única razão pela qual, no colégio, Bethany e eu não éramos rebaixadas à categoria de "nerds demais pra serem notadas". A louca ambientalista e a poeta, uma mais insignificante que a outra. Zach, por outro lado, era o centro das atenções. Todo mundo adorava ele. Nós, no entanto, adorávamos mais, e fazia mais tempo. Sendo assim, por associação,
também éramos consideradas legais.

[...]

*

AMOR AMARGO
AUTOR Jennifer Brown
EDITORA Gutenberg
QUANTO R$ 33,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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