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02/08/2018 - 17h39

'Viver É Perigoso?' analisa perigos do cotidiano com probabilidades; leia trecho

da Livraria da Folha

Perigos de todo tipo assombram os seres humanos: doenças, acidentes, crimes, desastres naturais e até a ingestão de alimentos inapropriados.

Em "Viver É Perigoso?", o jornalista Michael Blastland e o estatístico David Spiegelhalter destrincham os desastres mais comuns e revelam as chances de esses males realmente atingirem cada um de nós. Analisando diversas atividades que praticamos durante a vida, os autores apontam quais representam de fato um risco ou perigo.

Abaixo, leia um trecho do livro.

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Quando Spiegelhalter era garoto, não existia vacina contra sarampo, caxumba e catapora. Por isso, quando algum vizinho contraía a doença, ele era encaminhado para se contagiar. A regra de ouro era que, se você ia mesmo ter a doença, era melhor resolver isso de uma vez. A vacinação é uma série de trocas desconfortáveis, pois David Spiegelhalter (DS) agora sabe que o sarampo o expôs a mais ou menos 200 MMs*. Na época, no entanto, não havia muita escolha, e sem dúvida isso ajudou na formação do seu caráter.

O sarampo era uma doença comum nos anos 1950; os efeitos eram bem conhecidos e não raro havia complicações. Pode causar cegueira e até ser mortal. Se você visse a doença em uma criança da vizinhança, era hora de gritar pedindo socorro, mas era uma coisa comum. As pessoas viam em toda parte um perigo claro e presente de que todos queriam se livrar. Agora que quase não se vê mais isso, tem gente esbravejando para se proteger das vacinas. A visibilidade tem um papel importante no risco.

Divulgação
Autores destrincham os desastres mais comuns e revelam as chances de esses males realmente atingirem cada um de nós
Autores destrincham os desastres mais comuns e revelam as chances de esses males atingirem cada um de nós

Se tiver de escolher entre um perigo que você consegue enxergar e um que não consegue, qual você escolheria? Alguns evitam o perigo que pode ser visto - mais ameaçador que o perigo que não está presente aqui e agora. Alguns sentem mais temor de riscos invisíveis, como a radiação, que parecem mais sinistros. Outros arriscam um cálculo de cabeça fria sobre os prós e contras. E outros simplesmente fazem o que o médico mandar.

A questão aqui é simplesmente que "risco" quase sempre envolve "riscos", no plural, e estes em geral apontam para diferentes direções: algumas imediatas, outras mais distantes, algumas visíveis, outras latentes. Como se pode tomar uma decisão sobre qual risco aceitar quando costumamos ser julgados não por tentar fazer o melhor e com toda a boa-fé em nossa incerteza, mas sim quanto ao que vai acontecer? [...]

Se ela digitar "segurança na vacinação" no seu buscador, vai ver a maioria dos sites oficiais cheios de certeza de segurança. Se digitar "riscos na vacinação", vai encontrar relações de crianças prejudicadas, declarações de que a ciência é uma enganação e que os cientistas não merecem confiança.

Vacinação mexe com temores que provocam fortes emoções. As crianças nem sequer estão doentes quando são vacinadas. Espetar intencionalmente uma agulha no braço do filho é um pecado autoritário que incomoda mais do que não fazer nada - pelo menos na hora.

A vacinação também é algo imposto, seja por pressão ou compulsão legal: se o seu filho quiser frequentar um jardim da infância na Flórida, por exemplo, terá de estar vacinado contra dTpa (difteria, tétano e coqueluche, ou tosse comprida), hepatite B, tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola, ou sarampo alemão), pólio e varicela (catapora). Pode haver efeitos colaterais. Por fim, as corporações multinacionais ganham um monte de dinheiro com essa medicação em massa.

Tudo isso pode provocar uma feroz oposição. E por isso afirmações como a de que vacinação pode causar terríveis resultados, como o autismo, encontram logo uma plateia atenta, principalmente nos EUA (onde, talvez, seja compensada por sua falta de atenção aos alimentos geneticamente modificados).

Pelo menos as crianças não precisam mais ser vacinadas contra varíola, erradicada depois do último caso natural na Somália em 1977 (apesar de um funcionário do laboratório no Reino Unido ter morrido em 1978). A varíola matou incontáveis pessoas ao longo da história, com 2 milhões de mortes por ano até a década de 1950. Ajudou os europeus a conquistarem as Américas ao eliminar quase toda a população nativa. Há muito, porém, foi observado que os 90 sobreviventes ficavam imunes à doença, o que resultou na prática da inoculação, na qual extratos de escabiose eram esfregados na pele para provocar uma infecção proposital que se esperava benigna.

Então, em 1796, Edward Jenner usou outra doença, muito mais amena, a varíola bovina, quando foi observado que vacas leiteiras tendiam a não contrair varíola. Donde vacinação, do latim vacca. Ser esfregado com pus extraído de alguém que foi exposto a um úbere bovino infeccionado não é exatamente uma ideia atraente, por isso era natural que experimentassem isso em um garotinho - James Phipps, de oito anos, filho do jardineiro de Jenner. Não há registro de que ele tenha consentido.

O transporte de vacinas nos primeiros tempos era difícil, por falta de refrigeração. A resposta, como sempre: garotinhos. Para transportar varíola bovina pelo mar até as Américas hispânicas, em 1803 - uma viagem tão longa que daria tempo para a recuperação de uma pessoa infectada -, onze pares de órfãos foram recrutados, com o primeiro par sendo infectado antes da partida. Depois transmitiram ao segundo par, e assim por diante no decorrer da viagem, até o pus da varíola bovina chegar fresquinho ao Novo Mundo. Levou algum tempo para engrenar, mas a imunização (que cobre a inoculação e a vacinação) acabou salvando milhões de vidas.

A história do sarampo dá uma pista sobre os riscos da falta de imunização. Em 1940, houve 409 mil casos de sarampo na Inglaterra e no País de Gales, resultando em 857 mortes, uma "taxa de casos fatais" de 0,2%, ou 2.000 MMs, a mesma apurada pelos Centros de Controle de Doenças e Prevenção (CDC, na sigla em inglês) nos EUA. A vacinação começou nos anos 1960, e em 1990 o número de casos tinha caído para 13.300, com uma morte. Desde 1992, nenhuma criança morreu de sarampo, a não ser de sequelas na idade adulta de infecção anterior.

A vacinação também pode ser usada para danos de longo prazo: estima-se que um tipo de câncer em cada seis seja causado por alguma infecção, mas o longo período entre a infecção e a doença torna a associação difícil de ser identificada. Mesmo assim, a vacina contra HPV é agora ministrada a garotas de doze anos para a prevenção de infecções que podem levar ao câncer cervical.

Por isso, parece uma coisa boa ser vacinado. Assim como parar de fumar, é bom também para as pessoas ao redor. Por causa da imunização em massa, uma infecção não se transforma em uma epidemia quando um número suficiente de pessoas se torna imune. Esse "número suficiente" depende, de uma forma muito simples, do quanto a doença for contagiosa. Por exemplo, uma única pessoa com varíola contagiaria uma média de outras 5 em uma comunidade suscetível, como a do povo inca. Se cada um contagiar mais 5, e assim por diante, serão apenas seis passos para contagiar uma comunidade de 50 mil pessoas.

No caso da taxa de contágio por sarampo, é preciso vacinar 92% da população para evitar o alastramento de uma epidemia. Em três anos de meados dos anos 2000, a taxa foi de 82%, 80% e 81%. Em 2011 tinha voltado a 89%. [...]

O fato de qualquer um poder se beneficiar da vacinação sem ser vacinado é conhecido como o problema do "carona". Você pode confiar em que outros mantenham o risco baixo - enquanto eles também não deixarem de ser vacinados.

Então, é arriscado não se vacinar? É e não é. O risco pode ser zero e pode ser enorme. Isso porque depende do que os outros fizerem, além do que você faz. Se você deixar de se vacinar e os outros continuarem se vacinando, provavelmente vai ficar tudo bem. Se eles também pararem, você pode estar encrencado. O risco é dinâmico e contingente. Estamos ao mesmo tempo sujeitos ao risco - dos outros - e também somos o risco, porque podemos nos tornar contagiosos. Por isso, o mesmo comportamento da sua parte pode representar extremas diferenças de risco, dependendo do que os outros fizerem. Isso impossibilita um cálculo confiável dos riscos enfrentados individualmente. Existe um grande risco para todos se houver alguma pane na imunização de massa, mas é impossível dizer o que isso significa para cada um. Você pode estar bem, mas e se estiver contribuindo para uma redução da imunidade de massa? Você pode morrer. Então, qual é o risco?

* *MicroMorte (MM) é o equivalente a uma chance em 1 milhão de morrer.

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VIVER É PERIGOSO?
AUTOR David Spiegelhalter e Michael Blastland
EDITORA Três Estrelas
QUANTO R$ 49,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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