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31/08/2011 - 17h00

Em 1990, Dodge era trocado por geladeira e TV; leia entrevista

FELIPE JORDANI
da Livraria da Folha

Divulgação
Obra da editora Alaúde presta homenagem ao clássico "Dojão"
Obra da editora Alaúde presta homenagem ao clássico "Dojão"

Um dos queridinhos dos colecionadores de automóveis na atualidade, o Dodge Dart --"Dojão", para os íntimos-- e suas variações já passaram por momentos de desprezo durante as altas do petróleo. "Nos anos 1990, os Dodges não tinham valor algum. Chegavam a ser trocados por uma geladeira ou uma TV. Muitos viraram sucata."

Quem explica é o aficcionado Rogério de Simone, um dos autores do livro "Dodge: Esportividade e Potência", escrito em parceria com o engenheiro mecânico especializado em Dodges Fábio de Cillo Pagotto e lançado este mês pela editora Alaúde. Hoje, o preço de uma máquina destas pode chegar a R$ 100 mil.

"Dodge" revela história do modelo e do seu funcionamento

O carro foi fabricado no país de 1969 a 1981, primeiro pela Chrysler e, no final, pela Volkswagen. Entre seus modelos mais populares, com mudanças de pequenos detalhes sobre as mesma carroceria, figuraram o "Dodge Dart", "Dodge Dart SE" e o "Charger R/T", que chegou a ser o esportivo mais rápido do país.

Em entrevista, por e-mail, à Livraria da Folha, o autor fala mais sobre o bólido, seus preços, a paixão dos brasileiros por automóveis e as dificuldades enfrentadas para realizar o livro.

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Livraria da Folha: Como era o cenário automotivo nacional até 1969, antes da chegada do Dodge, e de que forma o carro influenciou este panorama?
Nos anos 1960, a indústria automobilística brasileira ainda dava seus primeiros passos. Nossos carros novos eram modelos já defasados na Europa ou nos Estados Unidos. Apesar disso, faziam sucesso no Brasil. Não só pela falta de opção, mas também por se adaptarem bem as precárias condições de nossas ruas e estradas.

O panorama começou a mudar em 1969, com a chegada do [Dodge] Dart, um carro realmente moderno. Era praticamente igual ao modelo americano de 1968. Nesta mesma época o consumidor brasileiro começou a ficar mais exigente. Assim, no inicio dos anos 70, o mercado brasileiro ganhou automóveis mais atualizados como Passat, Chevette, Maverick etc.

Divulgação
Primeira versão do Dodge Charger R/T, de 1971. Carro manteve posto de mais rápido da categoria por anos
Primeira versão do Dodge Charger R/T, de 1971. Carro manteve posto de mais rápido da categoria por anos

Livraria da Folha: Os modelos existentes de Dodge foram variações sobre o mesmo tema do Dart?
Na realidade, só existiram duas opções de Dart durante todo o período em que foi fabricado mo Brasil: o modelo duas portas e o modelo quatro portas, todos os outros modelos são variações destas duas carrocerias.

Livraria da Folha: Apesar de serem dois beberrões de gasolina, o Opala sobreviveu à crise do petróleo nos anos 1970 e o Dodge sucumbiu. Ao que você credita o sucesso do "Opalão" no Brasil?
Antes, a preferência nacional era ter um carro potente e que deixasse marcas de pneus no asfalto. Um verdadeiro sonho de consumo. Mas a nova realidade, na qual a economia de combustível passou a fazer parte do dia a dia, mudou o cenário para sempre. Carros equipados com motores de grande cilindrada sucumbiram ao mercado carente de gasolina, com o preço cada vez maior.

O Opala tinha duas opções de motor, o de seis o de quatro cilindros. Este último, mais econômico, foi uma vantagem mercadológica muito importante nos tempos bicudos da crise. A linha Dart só dispunha do até então cobiçado e saudável motor V8.

Livraria da Folha: Qual a média de preço atual desses modelos de Dodges brasileiros produzidos nos anos 1970? Qual o mais raro e o mais comum deles?
O valor de um carro antigo não segue tabela específica. Um modelo que teve pequena produção e que esteja com as características originais tende a valer mais. Normalmente, os carros do primeiro e do ultimo ano de produção tendem a ser mais raros e caros. No caso do Dodge, seriam os carros fabricados em 1969 e 1981.

Os esportivos também são bem procurados. O Charger RT é muito cobiçado pelos colecionadores. Outro modelo que tem um bom valor são aqueles de serie especial, normalmente fabricados em pequeno numero, como o Dodge Dart SE.

O valor de um Charger RT 1971 (primeiro ano de fabricação do modelo), em estado original, pode ser de até 100 mil reais. O curioso é que, nos anos 1990, os Dodges não tinham valor algum. Chegavam a ser trocados por uma geladeira ou uma TV. Muitos viraram sucata.

Livraria da Folha: Quais você diriam que serão os clássicos em alguns anos?
É difícil prever. Há vários exemplos no mercado de carros que não fizeram o menor sucesso na época em que eram fabricados e, alguns anos depois de descontinuados, acabaram se tornando cobiçados. Como exemplo, cito o Fusca 1965 com teto solar. Na época, depois de ganhar o apelido de "cornowagem" (alusão ao "chifres" dos traídos que podiam sair para fora do carro), ninguém o queria. Atualmente são modelos cobiçados e valorizados.

Livraria da Folha: No auge do Dodge, o gosto do brasileiro para carros girava em torno da potência. Como você vê a preferência nacional hoje?
Atualmente, a oferta de carros novos é muito grande, com centenas de modelos a escolha do consumidor. Eles ficaram mais acessíveis devido a oferta de crédito. Acredito que não exista um veículo que seja uma unanimidade nacional, mas pelo histórico e quantidade de unidades vendidas, o Gol pode ser considerado um dos carros mais queridos do Brasil na atualidade

Livraria da Folha: Você tem quase uma dezena de livros sobre carros clássicos do passado. No meio de tantas pesquisas você conseguiu perceber de onde vem tamanha paixão do brasileiro por carros?
A Paixão do brasileiro por carros é mais ou menos como a paixão pelo futebol, ou seja, uma coisa cultural. Um das diversões preferida dos meninos sempre foi um carrinho de brinquedo. De plástico, de ferro, caro ou barato, não importava. A brincadeira sempre mexia com o imaginário da criança que queria ter um de verdade quando adulto. Um dos maiores sonhos da maioria dos jovens que completassem 18 anos era ganhar um automóvel. Com o tempo, esta paixão também contaminou as mulheres.

Livraria da Folha: Na introdução do livro vocês falam em falta de material de pesquisa sobre os carros. Que tipo de dificuldades enfrentaram?
O maior problema são os documentos e fotos de época. As fábricas do passado não se preocuparam muito em preservar sua própria memória. A situação era ainda pior quando uma empresa era vendida, já que uma das primeiras atitudes de empresa compradora foi destruir todo o arquivo da empresa comprada. Como exemplo, cito a própria Chrysler, que teve todo seu acervo de documentos e imagens destruídos pela nova proprietária, a Volkswagem, em 1980. Hoje em dia, é praticamente impossível conseguir fotos antigas da fábrica e de seus produtos.

As informações são mais fáceis, já que muitos funcionários das antigas fábricas ainda estão vivos e fornecem detalhes. Outras fontes são as revistas e jornais antigos. Os colecionadores também ajudam muito. Além de emprestarem seus carros para fotos, auxiliam com suas experiências sobre a originalidade do automóvel. Não dá para publicar no livro um carro com algum detalhe que não seja original, isso pode se transformar numa referência errada para futuros entusiastas e colecionadores.

 
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