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21/01/2016 - 18h25

Jornalista desvenda maior roubo a museu do Brasil em 'A Arte do Descaso'; leia trecho

da Livraria da Folha

Carnaval, 24 de fevereiro de 2006. Quatro homens invadiram o Museu da Chácara do Céu, no bairro de Santa Teresa no Rio de Janeiro, e roubaram cinco obras de arte: um Dalí, um Matisse, um Monet e dois Picassos.

Divulgação
Jornalista mergulhou no mundo obscuro dos crimes de arte para apurar eventos e entender motivações
Jornalista mergulhou no mundo obscuro dos crimes de arte para apurar eventos e entender motivações

Os ladrões, que portavam uma granada, renderam os três seguranças, desligaram o sistema de câmeras de vigilância e fizeram nove reféns. Depois, saíram pela mata para nunca mais serem vistos.

O crime é considerado o maior roubo de arte do Brasil e o oitavo do mundo.

Em "A Arte do Descaso", a jornalista Cristina Tardáguila conta como viajou para a Europa e mergulhou no mundo obscuro dos crimes de arte para apurar os eventos do roubo no Brasil e entender as motivações dos culpados.

A autora, que chegou a se colocar em situações de risco, apresenta uma narrativa cheia de reviravoltas construída apenas com fatos.

Cristina Tardáguila nasceu em Belo Horizonte e cresceu no Rio de Janeiro. Formou-se em jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, fez pós-graduação na Universidad Rey Juan Carlos, em Madri, e MBA na Fundação Getulio Vargas. Como repórter e editora, passou pelos jornais "O Globo" e Folha e pela revista "Piauí". É fundadora da agência de fact-checking Lupa, especializada em checar o grau de veracidade das informações que circulam no país.

Abaixo, leia um trecho de "A Arte do Descaso".

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"A GENTE SÓ QUER OS QUADROS!"

Passava um pouco das quatro da tarde daquela sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006, quando dois homens magros aparentando menos de trinta anos de idade subiram, ofegantes e suados, a rampa de acesso ao Museu da Chácara do Céu, num dos pontos mais altos de Santa Teresa, na Zona Central do Rio de Janeiro. Com cerca de 1,70 metro de altura, usavam roupas semelhantes e, ao mesmo tempo, um tanto inadequadas ao calor de quase 35 graus daquele dia: calça jeans, camisa polo abotoada até em cima e tênis de cadarço. O mais novo portava ainda um boné branco do tipo safári, nada usual nas ruas cariocas.

Era Carnaval - mais precisamente o primeiro dia do feriadão que se estenderia até a Quarta-Feira de Cinzas -, e o bairro já pulsava no ritmo da festa. Por suas vielas íngremes e sinuosas, milhares de pessoas se acotovelavam, mostrando enorme disposição para beber, cantar, pular e paquerar ao som dos sambas entoados pelo bloco de rua mais tradicional da região, o das Carmelitas.

Situada no centro do terreno de número 93 da rua Murtinho Nobre, a menos de quinhentos metros do bar onde os foliões das redondezas costumam se concentrar, a Chácara do Céu é uma mansão retangular de três andares e traços modernistas. Construí- da em 1954, serviu de residência ao empresário e mecenas franco -brasileiro Raymundo Ottoni de Castro Maya (1894-1968) até sua morte. Em 1972, transformou-se em um museu. Para chegar até a Chácara, é preciso vencer a tal rampa, que, com cerca de cem metros de extensão, serpenteia por entre um farto bambuzal. Após a rampa, já no alto do terreno, o visitante encontra um pátio amplo e um belo jardim que contorna a mansão.

Vista do lado de fora, a construção parece simples. Suas paredes intercalam tons de bege com pedras aparentes e gigantescas janelas de vidro. Para entrar, é preciso cruzar pilotis de pé-direito baixo e uma porta de vidro blindado com mais de três centímetros de espessura. Antes, no entanto, vale parar e apreciar a deslumbrante vista da baía de Guanabara. Em linha reta, no horizonte ao longe, o Pão de Açúcar fica à direita, a Ponte Rio-Niterói, à esquerda, e, no centro, todo o vaivém de aviões do Aeroporto Santos Dumont. Graças ao bambuzal, que funciona como uma espécie de isolante acústico para a casa, o silêncio por ali é absoluto.

O jardim, assinado pelo renomado paisagista paulista Roberto Burle Marx, tem cerca de 25 mil metros quadrados e reúne exemplares da flora da Mata Atlântica. Respirar por suas imediações é um alívio para os pulmões e arrastar os pés por sua grama produz efeito relaxante imediato. Quem passeia pelo terreno vê pássaros que não circulam por outros pontos da cidade e insetos característicos do que, um dia, foi o Rio de Janeiro tropical.

Por dentro, os três andares da antiga casa de Castro Maya são interligados por uma escada de madeira que, dizem, foi inspirada na do palácio de Versalhes, na França. Em cada andar há, no máximo, três cômodos. No térreo, fica um vasto salão, um corredor e duas saletas; no segundo andar, o jardim de inverno, a sala de jantar e a biblioteca de Castro Maya, mobiliadas como tal até hoje. No último piso, o visitante encontra o quarto do mecenas e um cômodo que lhe servia de closet. No chão, tábuas corridas lustradas com afinco reluzem, conferindo ao ambiente um aspecto de limpeza, riqueza e nobreza.

Desde 1983, a Chácara do Céu é um museu administrado pelo Ministério da Cultura. Em seu acervo, guardam-se 22 mil peças reunidas pelo empresário e seus familiares durante oito décadas: entre 1880 e 1960. São pinturas, esculturas, azulejos, mobílias, pratarias, documentos e livros. O destaque é a maior coleção nacional de obras do francês Jean-Baptiste Debret, que esteve no Brasil na primeira metade do século XIX, com a chamada Missão Artística Francesa, e que, com seu traço inigualável, retratou como era viver no Brasil daquele tempo. De Debret, a Chácara do Céu abriga um total de 451 aquarelas, 58 desenhos e 29 gravuras - material considerado um tesouro da história nacional.

O museu conta também com um grande número de obras reunidas do pintor paulista Candido Portinari, que tem trabalhos expostos em locais como a Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. Conhecido por abordar questões sociais e cenas religiosas, Portinari era amigo de Castro Maya e chegou a retratá-lo numa tela - uma das primeiras que se veem logo na entrada da casa. Mas o acervo vai além. Integram a coleção obras de pintores como Di Cavalcanti, Alfredo Volpi, Iberê Camargo, Antônio Bandeira e Manabu Mabe, além de Modigliani, Georges Seurat, Edgard Degas e Joan Miró. Sem falar nas louças chinesas e nos móveis setecentistas, por exemplo.

Apesar da importância artística de sua coleção, o museu nunca figurou entre os principais atrativos turísticos do Rio de Janeiro. Normalmente, não há mais do que dez pessoas admirando as obras de um mesmo andar. Por que os brasileiros lotam museus na Europa e nos Estados Unidos, mas não frequentam os que existem por aqui? Por que viajam horas e enfrentam longas filas para ver pinturas famosas expostas no exterior e não visitam a Chácara do Céu, que tem dezenas delas?

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A ARTE DO DESCASO
AUTOR Cristina Tardáguila
EDITORA Intrínseca
QUANTO R$ 33,90 (preço promocional *)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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