Diário de confinamento: 'Músicos do mundinho, uni-vos'

Ciclo de shows no auge do verão na Espanha pretende arrecadar fundos para apoiar espaços pequenos

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #91 - Sexta, 12 de junho. Cena: lembrando que o último show que vi foi no final de fevereiro, na concorrida sala Razzmatazz, agora mesmo fechada “até novo aviso”, com a banda de marchinhas-techno-eletrônica alemã Meute.

Aqui, lá e acolá neste planetazul que ora habitamos, todos estamos verde-amarelo de saber que a cultura "presencial" sofreu —e vem sofrendo— com a pandemia.

Durante o confinamento, a música ao vivo deixou de existir como a conhecemos e se transferiu para lives, redes sociais e varandas de apartamentos. Massa, novas possibilidades (e pouco dinheiro), coisa linda.

Mas, agora —ou em breve— é hora de voltar à rua. E vem então a pergunta ululante entre músicos, produtores, programadores, técnicos e donos de espaços culturais dos quatro cantos deste nosso mundo coronado: como?

Música toca violão em frente ao Museu do prado, em Madri
Música toca violão em frente ao Museu do prado, em Madri - Juan Medina - 6.jun.20/Reuters

Pois um coletivo aqui em Barcelona está criando um saudável frisson no combalido ecossistema cultural da cidade, com uma proposta que busca recuperar o setor por meio da união entre os pequenos.

Com o apoio da prefeitura e da Associação de Salas de Concertos de Barcelona, o projeto Sala Barcelona vai tomar o castelo de Montjuïc, um dos cartões-postais da cidade, para um ciclo de 60 shows entre julho e agosto, auge do verão.

O objetivo principal é ajudar a devolver a graça da vida cultural a uma das cidades mais culturalmente agitadas do mundo e, principalmente, arrecadar fundos para apoiar os pequenos espaços de shows, em especial aqueles que perigam fechar devido ao nocaute econômico da crise.

Atualmente, a esmagadora maioria das casas de shows da cidade permanece fechada –algumas, inclusive das mais bacanudas, sem previsão de retomar suas agendas. As fases 2 (50% do país) e 3 em que se encontra Espanha impõem tantas regras aos negócios que, falando de um contexto onde impera a muvuca por excelência, muitos não veem a reabertura como algo possível antes do fim da tal desescalada, quando então os limites de lotação e outros paranauês serão afrouxados —um pouco.

"Voltar a programar em julho, quando as limitações nas salas ainda inviabilizarão muitos concertos, é reativar a atividade dos artistas, o pessoal técnico e auxiliar, os gerentes, as empresas de som e luzes, os programadores, fotógrafos e todos os profissionais que intervêm na criação de um concerto", explica o coletivo.

Na programação, bandas independentes de todos os estilos, com preferência para a cena local (porque, né). Cada show acontecerá no Pátio de Armas do castelo e terá lotação máxima de 400 pessoas —por ser ao ar livre, porque em espaços fechados o máximo é quase um décimo disso—, com entradas de 12 a 15 euros (R$ 68 a R$ 85).

Entradas e saídas serão cuidadosamente sinalizadas, e o público deverá movimentar-se por corredores e por turnos. Haverá álcool em gel por toda parte e regras estritas sobre o uso da máscara até o momento de o ciudadano achar seu lugar na plateia. Todos sentadinhos, em grupos de no máximo oito pessoas.

A prefeitura de Barcelona embarcou no projeto com 165 mil euros (R$ 936 mil), e os restantes 85 mil (R$ 482 mil) necessários para inteirar a proposta serão bancados pela bilheteria, venda de bebidas e patrocínios.

O barcelonês adora shows. A cidade é parte-estrela da rota europeia de turnês e festivais. Muitos, cancelados neste ano, inclusive os famosos Sónar e Primavera Sound.

Nada como subir a montanha (o castelo, erguido no século 17, está aboletado no alto de uma colina em um miauravilhoso parque, e abriga diversos outros eventos culturais durante o verão, como mostras de cinema ao ar livre) e unir-se a uma civilizada e solidária matilha para apoiar a cultura.

"As salas de concertos de pequena lotação são espaços culturais fundamentais para o crescimento dos artistas e de suas carreiras, uma peça-chave do tecido, valiosa, mas vulnerável, e que devemos potencializar e proteger", professa a apresentação do projeto. Entrando na web para reservar minha entrada em 4, 3...

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.


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