Diário de confinamento: 'Perspectiva é de que quarentena tenha prorrogação-da-prorrogação'

Com avanço da crise, também se atiça o baile de interesses, e o governo vai perdendo apoio

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #27 – Barcelona – Quinta, 9 de abril. Cena: “Hoje estou contente / Vai haver festança” (Braguinha, “Lobo Mau”).

A bolsa vermelha me distrai a atenção. Grande, tipo saco, com alças pretas, repousa inerte como tem que ser uma bolsa na cadeira ao lado da 3ª vice-presidenta do governo espanhol, Nádia Calviño —também economista, ex-membro da Comissão Europeia e ministra de Assuntos Econômicos e Transformação Digital. Ela franze o cenho enquanto escuta.

E escuta muito.

Na primeira fila, da esq. p/a dir., o premiê Pedro Sánchez e os vices Carmen Calvo, Pablo Iglesias e Nadia Calviño - Juan Medina - 3.fev.2020/Reuters

Nesta quinta (9), uma sessão tensa no Congresso aprovou, com abstenção por parte dos independentistas e dois votos contra, um pacote complementar de medidas econômicas e trabalhistas do governo e a prorrogação do estado de alarme na Espanha até 26 de abril.

Pedro Sánchez, chefe do executivo, já adiantou a grande frase do dia pela manhã: "Creio que em 15 dias terei que pedir outra prorrogação". Isso nos leva a uma perspectiva de ampliação do confinamento nacional com uma prorrogação-da-prorrogação, até pelo menos o dia 10 de maio.

Na qualidade de porta-voz do governo, Calviño, com seus olhos azuis e penteado Charlie’s Angels discreto, recebeu críticas. Muitas críticas.

Além da bolsa vermelha, outro detalhe menos insignificante insiste em me chamar a atenção: ela (uma mulher, uma mulher, gente!) contemplava em atento silêncio discurso atrás de discurso dos diferentes representantes dos partidos, quase todos homens, com poucas exceções —como a representante do ultradireitista Vox, que declarou sua abstenção de voto e acusou o governo de haver "abandonado 8.000 idosos nas residências" e seguir "instalado na mais absoluta improvisação".

Três dos quatro vice-presidentes do governo são mulheres (sim, aqui na Espanha, desde 1974, é possível ter mais de um vice-presidente, olha só que maravilha). A exceção é Pablo Iglesias, do Podemos, também ministro de Direitos Sociais.

Como mulher, não posso, infelizmente não consigo e não quero deixar de reparar nas presenças femininas aqui e alhures. É legal e ainda é pouco (e por isso reparo, e assim segue o loop). Mas, voltando ao assunto...

Entre as queixas desfiladas no plenário, debaixo de uma abóbada pimposa onde figuram personagens españoles como El Cid e Cervantes, Mario Garcés, deputado do liberal Partido Popular, principal ala da oposição, reclamou da falta de consulta prévia e acusou o governo de má gestão de recursos.

Como um par de outros representantes da oposição, mencionou a ajuda de 15 milhões de euros (R$ 84 mi) a emissoras de televisão privadas, que, assim como a imprensa em geral, está sofrendo com o impacto da crise. "900 mil máscaras poderiam ser compradas" com esse dinheiro, disse.

Outros partidos associados à ala progressista, por meio de porta-vozes como Iñigo Errejón (Más País), defenderam uma melhor adequação de ajudas aos diferentes setores econômicos, com destaque para os coletivos mais vulneráveis, a pequena empresa e os trabalhadores autônomos.

Estes últimos, depois de uma mininovela de discussões, receberão uma ajuda do governo a partir de abril e moratória de impostos por seis meses. Errejón defendeu também a criação de um imposto para grandes fortunas, ideia que tem ganhado força em diferentes cantos.

Em defesa dos novos decretos, Rafael Simancas, porta-voz do PSOE, principal partido do governo, comparou a atual perspectiva com as medidas adotadas durante a crise espanhola de 2012, quando a oposição estava no governo.

Segundo ele, enquanto em 2012 os decretos "facilitavam as demissões" e "muito poucos autônomos podiam obter ajudas", hoje o governo acionou mecanismos como os ERTEs (expedientes de demissão temporária, uma espécie de seguro-desemprego excepcional com garantia de retorno ao trabalho) para "manter vivos os empregos", e "todos os autônomos (...) recebem uma ajuda".

... E mil outros poréns e senões de todas as partes.

Com o avanço da crise, também se atiça o baile de interesses diversos, e o governo vai perdendo apoio. Ainda assim, sai vitorioso nesta quinta.

O caminho é longo (e me faz lembrar da música da Chapeuzinho Vermelho, que acabo de descobrir que é do Braguinha!). Há pela frente zilhares de discussões sobre reconstrução e uma celeuma em ponto de bala sobre os famosos "coronabonds" (como estão sendo apelidados os eurobonds, instrumentos de mutualização de dívida à disposição dos países da União Europeia e objeto de muitas polêmicas atualmente). Nos esperam muitos, muitos mais dias e noites, lobos maus, estrada afora...


“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.

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