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Diário de confinamento: 'Sobre manifestações e cabeleireiros'

Barcelona pede para avançar o desconfinamento pela metade; em Madri, protestos enchem bairros nobres

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #62 – Quinta, 14 de maio. Cena: Vixe.

Meu compi de apartamento volta da rua diferente. Eu o contemplo por alguns segundos. "O que você fez?" "Vaya, o confinamento tá te afetando mesmo! O cabelo, o cabelo!"

Ir ao cabeleireiro ou ao barbeiro é novidade aqui, brinde da primeira etapa do desconfinamento, aka fase zero, que ora vivemos.

No início do "lockdown", em meados de março, o governo havia permitido o funcionamento dos salões por considerar cabelo e barba aparados uma questão de higiene básica, mas depois voltou atrás.

Com isso, o look neandertal quarentênico dominou geral durante os últimos dois meses (a não ser para os aventureiros caseiros das tesouras, claro).

Cabeleireiro com máscara e luvas corta cabelo de cliente em Madri
Cabeleireiro com máscara e luvas corta cabelo de cliente em Madri - Sergio Perez - 4.mai.20/Reuters

Por um momento, eu mesma cheguei a pensar em raspar o cabelo de novo, só pra não ter que domar as melenas caóticas de um corte "bob" em processo avançado de desfiguração.

Nesta quarta (13) eu tinha dito que Barcelona ia pedir pra seguir na fase zero (que é a etapa 1......) por mais uma semana. Nesta quinta, finalmente, o governo da Catalunha divulgou sua proposta: que a gente passe, hmm, à fase 0,5.

Isso significaria um relaxamento parcial de regras. A gente seguiria sem bares e restaurantes e sem poder nos reunir em grupos (privilégio dos que ingressam na fase 1 —que é a segunda etapa...), mas o comércio e outros estabelecimentos como bibliotecas poderiam reabrir sem necessidade de hora marcada.

Além disso, nesse eventual cenário, que ainda deve passar pela aprovação do governo central até o fim de semana, velórios poderiam voltar a ser celebrados com poucas pessoas.

O que a Catalunha tem de cautela, Madri tem de pé na porta. Hoje é o quarto dia em que manifestantes vão às ruas de bairros nobres como Salamanca, Aravaca e Pinar de Chamartín para protestar contra o governo e contra o prolongado estado de emergência.

Esses bairros figuram entre os 11 distritos mais ricos da Espanha, concentram um grande eleitorado direitista e são um reduto importante, entre outros, da Opus Dei e de militares.

Embora nenhum partido reivindique oficialmente a tutoria dos protestos, está mais do que clara a relação dos circunstantes com Vox, partido de ultradireita, e o PP, principal partido da oposição.

A governadora de Madri, afiliada ao PP, já declarou seu apoio público aos protestos. Seus discursos e entrevistas têm adquirido um tom cada vez mais agressivo contra o governo central, que chama de "ditatorial", principalmente diante da reiterada negação deste em dar o sinal verde pra que a região passe à fase 1 (Madri é o principal foco de contágios e mortes do país).

De máscaras, abraçados à bandeira da Espanha, batendo panela e empunhando cartazes que pedem a demissão do premiê Pedro Sánchez, os manifestantes não parecem se importar com as regras de distanciamento social.

Somente 20 foram identificados (máscaras, essas marotas) e denunciados pela polícia. Podem ter que pagar uma multa de 600 euros cada um (R$ 3.807) por furar a quarentena.

O barbeiro que meu companheiro de apartamento frequenta é um salão pequeno, mas já está a toda.

O dono estima que o movimento aumentou "uns 10%". Com um corte a cada 20 minutos, sempre com até duas pessoas por vez, ele segue nonstop todo o dia, e meu compi só conseguiu horário porque "alguém ficou doente".

Como medidas de segurança, o barbeiro comprou máquina pra esterilizar batas, outra pra desinfectar o material, e veste por cima de tudo umas batas descartáveis de plástico. Além disso, contou que amanhã chega a maquininha para medir a temperatura dos clientes que encomendou pela internet.

O único grande real problema de todo esse elaborado processo: aparar a costeleta. Com o uso obrigatório da máscara em interações de menos de 2 metros de distância, é um desafio. Tem que ir com calma, uma de cada vez, “pas a pas”...

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.

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