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Diário de confinamento: 'O passinho do lagarto'

Protestos, praias cheias, academia ao ar livre: não sabemos viver o tal Novo Normal

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #69 – Quinta, 21 de maio. Cena: Andaluzia chegará aos 40º C neste fim de semana, e a população está preocupada com a obrigatoriedade das máscaras.

"Não é Califórnia nem um anúncio de cervejas para o verão", vai explicando o jornalista Raul Gallego em seu viralizado post no Twitter, publicado na última segunda-feira (18).

O vídeo gravado por ele em seu rolê matutino pela praia de Barceloneta, a mais central da cidade, mostra um monte de gente malhando no passeio perto da orla. Musculação, corda, boxe. Alguns, respeitando a distância social mínima de 2 metros. Outros, não.

Homem aproveita a primavera na praia de Barceloneta, na Espanha - Nacho Doce - 21.mai.20/Reuters

Topei com o vídeo pela primeira vez no Instagram em versão com trilha-sonora-do-Dragon-Ball-Z e achei hilário, embora preocupante. Quis a providência ademais que o vídeo contemplasse gramado, palmeiras e esportistas em gestos caricatos e oportunos dignos de um "traveling" de filme. Parecia Rocky Balboa meets Miami Beach ou GTA num dia perdido de verãozão kokakola anos 1980 (na minha fantasia, claro).

O viral gerou até suas celebridades instantâneas. Como o "homem lagarto", um personal trainer de 31 anos que aparece no tal como se estivesse escalando o chão. Foi identificado e deu até entrevista pra jornal. Explicou que fazia um exercício funcional chamado "lizard push-up" ou "lizard walking" e completou: quem quiser pode me achar por ali.

Depois da polêmica sobre as imagens, a polícia fechou o gramado pra prática de esportes.

"Não entendo nada, de verdade", revolta-se uma internauta. "Há gente que está na fase 4 há duas semanas. Eu sigo na p### da minha casa." "Dessa forma, Barcelona não vai passar de fase nem no Natal de 2021", diz outro. "O Spiderman no chão não pode fazer isso em sua casa? Depois de quase 30 mil mortes, cada vez que abrem um pouco a porta nós saímos em massa, como se estivéssesmos castigados pela professora...", acusa um terceiro.

Com a desescalada, vamos nos deparando com as dificuldades de viver o tal Novo Normal. Temos que construir uma nova etiqueta. Por um lado, gente olha feio se alguém não leva máscara na rua. Por outro, total carnaval. Seremos paranóicos ou temerários?

Fecham o gramado, as pessoas vão pra outro lugar. Agora, estão lotando as areias urbanas de Barcelona. Desde quarta (20), abertas apenas para passeios. Mas o povo, sedento de sol, nem se lixa: estende canga, bebe cerveja com os amigos, faz chap-chap na água como um polvo à galega, pede pra amigui tirar foto pras redes sociais...

Os números dão uma sensação de segurança: 95 mortos nas últimas 24 horas, um décimo do dia-pico no país. A não ser por Madri e Barcelona, as UTIs vão voltando ao normal.

A multa por desobedecer as normas é de 600 euros (R$ 3.665). E a polícia começa a relaxar. Nesta quinta de manhã, basicamente apareceu na orla às 10h só pra dispersar os grupos que sobravam (continuamos circulando só nos horários permitidos.

Em pelo menos duas comunidades autônomas, as eleições locais foram adiantadas para antes do outono. Epidemiologistas prevêem um segundo surto de contágios com a chegada do frio no hemisfério norte. Até agora, estima-se que apenas 5% da população espanhola foi exposta ao vírus.

Não só pra tomar sol e fazer workout à la Jane Fonda saem os cidadãos espanhóis: também para protestar, e cada vez mais violentamente. Imagens de Madri mostram um jovem com a máscara no queixo, sangue brotando de seu nariz, manchando o azul do filtro cirúrgico.

Gritos, empurrões, socos. Zero distanciamento social. A governadora Isabel Ayuso apoiando publicamente os protestos. Acusa a esquerda de ser a culpada, por estar “provocando” e “insultando os cidadãos”.

Na quarta, às 20h, saí à varanda para o já clássico “aplaudiment” em agradecimento aos profissionais de saúde. Choque: silêncio total na vizinhança. Um homem lá longe bate palma, solitário. Eu o sigo.

E as pessoas na rua, lá embaixo, começam a olhar pra cima —param pra me ver. Intrigadas. Umas cinco. Seus olhinhos sobre máscaras parecem acusar: quem é essa louca?

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.

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