Descrição de chapéu Diário de Confinamento

Diário de confinamento: 'A senhora deu positivo e deve se isolar imediatamente'

Assintomática, vou viver uma quarentena em plena desescalada espanhola

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #84 – Sexta, 5 de junho. Cena: recebendo mensagens de toda parte, algumas mais alarmadas do que eu.

Eis que chega o dia em que o cidadão (no caso, eu) pega o papel e tá lá:

RNA vírus COVID-19: POSITIVO.

“Este resultado indica a presença do novo coronavírus na amostra, pelo que ‘usted’ deveria contatar seu médico ou serviço de vigilância de saúde para receber as instruções e atenção sanitária adequadas.”

Sou a única pessoa que conheço com coronavírus confirmado. E a quase única que conheço que realizou um teste.

enfermeiros paramentados em roupas de proteção brancas colocam cotonete no nariz de uma idosa, que é branca e usa lenço colorido na cabeça
Enfermeiros realizam teste para detecção do novo coronavírus em moradora de lar para idosos em Barcelona, na Espanha - Lluis Gene - 15.abr.20/AFP

Basicamente, aqui em Barcelona trabalho algumas horas semanais para uma empresa de cosmética deluxxx como consultora de beleza (é o rotundo título oficial), pra salvar uma grana nessa vida incerta de jornalista viajante e ter os papéis em dia. Pois é, gente, nesses momentos tô extrafeliz de ter essa salvaguarda.

Os recursos humanos da companhia são ótimos, e, sabendo de uma recente gripe e de meu histórico com o câncer, me ofereceram um PCR, embora, tecnicamente, ao não estar imunodeprimida ou passando por tratamento ativo, eu não faça parte do grupo de risco.

Protocolo, pensei. Me sentia bem, à parte algumas dores por fazer esporte com tutorial do YouTube e uma certa fadiga, diria, psicofísica por estar tanto tempo em casa.

O teste, num diminuto consultório com hora marcada no Raval, centro de Barcelona, foi tranquilo, como todos já vimos 18.097 vezes pela tevê: bastãozinho na narina, breve cara de desagrado, e bora pra casa esperar "de três a seis dias", porque havia muita demanda.

"Mas não se preocupe, o laboratório está trabalhando sem parar também nos fins de semana", comentou a recepcionista detrás de sua máscara.

Na volta pra casa, como vinha fazendo em minhas andanças pela cidade desde o princípio da desescalada, subi numa bicicleta do serviço público, chamada Bicing, e coincidentemente passei diante de um dos maiores laboratórios da Catalunha, Echevarne, com 250 centros espalhados por toda a Espanha, Andorra e Portugal.

A poucos blocos da famosa La Pedrera, um dos totens arquitetônicos de Gaudí, uma fila de umas 20 pessoas dobrava o quarteirão da principal unidade, no bairro do Eixample.

O que estava fazendo essa gente toda debaixo do sol a pino do meio-dia? Resposta: esperando pra realizar seu teste de Covid-19.

Com a dificuldade de realizar o diagnóstico pelo sistema público de saúde, que nos dias de hoje ainda vem administrando os escassos recursos disponíveis em função da seriedade dos casos, mais e mais pessoas sintomáticas ou não estão recorrendo aos laboratórios privados, encaminhadas por suas empresas ou médicos privados.

Em média, um diagnóstico privado de coronavírus na Espanha pode custar entre 60 euros (R$ 338, pelo teste sorológico, que analisa a presença de anticorpos no sangue) e 140 euros (R$ 789) para o PCR, que funciona como uma espécie de "fotografia" do momento viral.

Na Catalunha, os diagnósticos particulares em teoria deveriam ter autorização prévia do serviço de saúde público. O objetivo é controlar o mercado, para que não faltem recursos para os mais necessitados.

Mesmo com a desescalada, a previsão é de que a demanda por testes cresça cada vez mais, tanto em centros de atenção primária quanto em hospitais, de maneira preventiva ou para evitar focos secundários de infecção.

A saúde pública espanhola, principal responsável pela monitoração de casos, conta com a parceria de centros de pesquisa e universidades, mas os laboratórios privados também são apoio indispensável nesse cenário de diagnósticos massivos.

Alguns dias depois de realizar o teste, estou andando na rua e toca o celular. "Senhora Susana B? A senhora está em casa??", ouço.

Um pouco desnorteada com a voz feminina peremptória sem-preâmbulos do outro lado, digo: "Não, estou na rua". "Mas COMO que a senhora não está em casa?! Não viu o resultado de seu teste? A senhora deu positivo para coronavírus e deve se isolar imediatamente."

Como disse um amigo depois: não se preocupe, você está em boas mãos —em breve vão mandar os militares.

To be continued....

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.

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