Diário de confinamento: 'Botellones, a nova discoteca pós-Covid'

Com clubes noturnos fechados, reuniões de rua regadas a álcool voltam com tudo na desescalada

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #81 – Terça, 2 de junho. Cena: pelo segundo dia consecutivo, Espanha registra zero mortes por coronavírus.

A cidade de Tomelloso é uma discreta urbanização de 35 mil habitantes a cerca de duas horas de Madri, na comunidade autônoma de Castilla y La Mancha.

Tão discreta que quase nunca figura nos noticiários nacionais —salvo algumas honrosas exceções. Por exemplo, quando entrou pro Guinness Book em 2011 ao se produzir ali a maior pizza do mundo —título que passaria a Milão em 2015.

Ou (que esses tomellosolini têm uma coisa com pizza) quando dá entrevista um de seus mais ilustres habitantes, o pizzaiolo Jesús Marquina, o "Marquinetti", eleito Embaixador da Pizza na Espanha e cinco vezes melhor pizzaiolo do mundo.

Orla da praia de Barceloneta, em Barcelona, em meio à pandemia de coronavírus
Orla da praia de Barceloneta, em Barcelona, em meio à pandemia de coronavírus - Pau Barrena - 30.mai.20/AFP

Pois essa singela localidade volta a ser notícia neste início de semana na Espanha, e não por bons motivos, ao virar palco do que talvez seja a maior festa irregular pós-pandemia até o momento: 500 jovens na noite do último sábado, reunidos para um "macrobotellón", máscaras y distanciamento social às favas.

"Botellones" (de "botella", garrafa) é como se chamam por aqui as festas de rua regadas a (muito) álcool, populares principalmente entre os mais jovens, inclusive menores.

Em 2019, segundo uma pesquisa com quase 40 mil adolescentes, uma média de 50% a 60% declarou haver participado de uma festa dessas nos últimos 12 meses (30% dos jovens de 14, 44% dos de 15, chegando a 64% entre 17 e 18 anos).

Essas reuniões informais surgiram inicialmente no sul da Espanha no final dos anos 1980 e se espalharam por todo o país, inclusive cruzando fronteiras —o termo (e a prática) é hoje em dia popular também em Portugal. Viraram um problema de saúde pública.

E, claro, foram das primeiras e mais abundantes infrações sociais a se registrar desde que começaram a ser liberadas as reuniões de grupos limitados, em meados de maio.

Tomelloso foi um dos principais focos do vírus na comunidade de Castilla y La Mancha. Esta, por sua vez, ostenta um dos maiores índices de contágios do país desde o início da crise: 22 para cada 100 mil habitantes (em Madri, 24; Barcelona, a maior taxa, 34).

Durante o último fim de semana, foram registrados 34 "botellones" e 270 reuniões irregulares só em Madri.

Segundo fontes oficiais, os participantes dos botellones teriam sido multados em 900 euros (R$ 5.246), por infringir o estado de emergência (600 euros, ou R$ 3.497) e consumir álcool em via pública.

A oposição tem pressionado o governo central a agilizar a aprovação de uma lei nacional de Álcool e Menores de Idade, apelidada de "Ley Anti-botellón".

O objetivo seria unificar uma série de medidas destinadas a regulamentar as propagandas de bebidas alcoólicas, como já se fez com o tabaco, e as sanções administrativas por consumo e venda ilegais, atualmente um patchwork muy variado de deliberações e procedimentos definidos em âmbito local por cada prefeitura.

Em Barcelona, por exemplo, a multa por beber álcool na rua (e perturbar a vizinhança) pode variar entre 30 e 1.500 euros (R$ 175 e R$ 8.744); em Bilbao, capital dos Países Bascos, oscila entre 750 e 3.000 euros (R$ 4.372 e R$ 17.488); e, em Madri, pode chegar a 500 euros (R$ 2.914) para menores e 600 (R$ 3.497) para maiores de 18.

O aumento súbito de "botellones" nos últimos dias não se deve só à liberação depois de um longo confinamento. Também o fechamento prolongado das discotecas encoraja o consumo de álcool nas ruas.

É o que declara a federação espanhola do setor de ócio noturno, após ficar sabendo na última semana que o governo não tem data prevista para permitir a reabertura desses locais, devido às regras estritas de distanciamento social da Nova NormalLife.

"Uma oferta escassa ou nula de ócio noturno regulamentado vai trazer, consequentemente, um aumento da oferta de ócio noturno não autorizado", profetizaram, didáticos.

O problema pode chegar a um delicado ápice no próximo dia 23 de junho, solstício de verão, véspera de São João, San Juan, Sant Joan, San Xuan, Sanjoanak ou (ufa) San Xoán —dependendo de onde você esteja na Espanha.

É uma das festividades mais legais/hermosas/"chulas" do universo (dá pra ver que eu sou pouco fã) —única data de todo o ano em que são permitidas as fogueiras e o "botellón". Mais do que um fenômeno isolado, congrega famílias e amigos em festa pós-pagã até o amanhecer.

Isso tudo, claro, até um passado recente. Neste ano, algumas localidades, como Alicante, optaram por adiar a festa para setembro.

Já a Catalunha aposta por manter a data, mas com cautela. Em Barcelona, o governo anunciou que está preparando shows pirotécnicos e procissões reduzidas.

Sem turistas, será, pela primeira vez em muitos anos, uma festa para locais, em petit comitê.

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.

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